Os Ciganos (continuação 3)
Descalçavam os sapatos, se os tinham, para não partir as telhas; subiam ao telhado,
iam levantando telhas e recolhendo os ninhos que iam sendo passados de mão em
mão, para o camarada que tinha ficado no chão. Ao contrário da maioria dos
pássaros, que faziam os ninhos abertos como se fosse uma bola cortada ao meio,
os pardais faziam-nos fechados. Era a bem dizer um ramulhão de pastos secos, como se fossem toscos globos, com uma
pequena abertura por onde entravam. Terminada a recolha, toda a malta se
juntava para retirar os ovos dos ninhos e selecioná-los de acordo com o destino
a dar-lhe. Se ao abrir os ninhos, os mesmos estivessem já empenados, ou seja, forrados por dentro com uma grande quantidade
de penas, era sinal de que o choco
estava numa fase final e os ovos prestes a tirar
plôtos. Neste caso eram deitados fora com o respetivo ninho, porque não era
nada agradável usá-los para o jogo. Os restantes eram selecionados num
caldeirão ou lata de zinco cheia de água. Os ovos que ao colocarem-se na água
fossem ao fundo, ainda não estavam chocos. O seu destino era um furinho em cada uma das duas extremidades,
feito com a ponta de uma faca ou com um pauzinho afiado, uma chupadela por um
dos furos, e adeus ó ovo! Finalmente
os que boiassem estavam chocos e o seu destino era o jogo da pata choca. O Zé ficava sempre lixado quando ocasionalmente surgiam
ninhos já com pardais pequenos. Uma coisa era tirar os ovos e deitá-los fora,
ou apanhar pássaros adultos para serem comidos; outra bem diferente era matar
os passarinhos pequenos que além de estarem indefesos, ainda por cima não
tinham qualquer aproveitamento. Por outro lado os pardais até não eram os
únicos a escangalhar o telhado,
porque os gatos que constantemente por lá andavam, desviando as telhas para
tentar caçá-los, tinham também a sua quota de responsabilidade. O certo é que, à conta disso, todos os anos no verão o
telhado da escola tinha que ser arranjado, para que no começo das aulas, que se
iniciavam no dia sete de outubro, estivesse em perfeitas condições. Os homens
do Monte juntavam-se quase todos e iam dar
volta ao telhado. Destelhavam tudo, retiravam os ninhos de pardal e
voltavam a colocar as telhas no lugar. Nessa altura os pardais novos que ainda
não tivessem deitado à monte, estavam
lixados porque era uma razia total. Mas tinha quer ser. O Zé lembrava-se do ano
em que entrou para a escola, que os homens não arranjaram o telhado no fim do verão e tinha sido uma desgraça.
Por azar começou a chover ainda antes da feira
da praia; o outono apresentou-se bastante chuvoso e dentro da escola
choviam goteiras por todo o lado. Era começar a chover e ver o pessoal arrastar
as carteiras de um lado para o outro,
para se furtarem ás goteiras. Isto para não falar do vento
que assobiava por baixo das telhas e na merda
de pássaro e pastos secos que caíam
um pouco por todo o lado. A menina Clarinha, uma quarentona que ali fora
colocada nesse ano como professora regente, estava fula. Cada vez que chovia
ameaçava fazer um ultimato aos pais dos alunos: ou o telhado da escola estava
arranjado quando ela regressasse das férias do Natal, ou a escola não começava até que fosse arranjado. Mas não foi. Os homens
argumentaram que com as telhas brandas
como estavam com a chuva, iriam partir-se muitas se fossem arranjar o telhado
com elas naquele estado. Nesse ano, na cabana do Menino Jesus que estava no
presépio num dos cantos da sala, deve ter chovido mais do que na cabana
original, quando o dito nasceu em Belém. A partir daí e á conta dos pardais, o
telhado era arranjado todos os anos antes de começar a escola. Ás vezes nem levava
um dia. De manhã bem cedinho, depois de ter sido previamente anunciada a data,
a maioria dos homens do Monte, muitas mulheres e algumas crianças, juntavam-se
ao pé da escola para dar uma ajuda no arranjo do telhado. Havia trabalho parta
todos. Antes de os homens começarem a destelhar,
as mulheres entravam na escola e com alguns lençóis e mantas velhas e tapavam
os objetos mais importantes da sala: o crucifixo, os retratos do Salazar e do
Américo Tomás, a secretária da menina Clarinha e o mapa de Portugal, para não
apanharem com terra e porcaria que sempre caía do telhado. Com as carteiras de madeira não havia problema.
Os homens começavam depois a retirar as telhas e a passá-las de mão em mão até
ao chão para serem limpas, tarefa que estava a cargo das mulheres e das
crianças. Enquanto umas iam raspando com uma pedra ou um pedaço de um pau,
outras iam varrendo as que já estavam raspadas com velhas vassouras de palma.
Depois de todas limpas, as telhas eram novamente passadas para cima do telhado
para os homens as colocarem no sítio. No
ano anterior, fruto de uma inovação, o telhado tinha ficado mesmo bom. Nesse
inverno quase não choveram goteiras e
não tinha caído nem uma pisca de
terra, mesmo nos dias de maior vendaval. É que o telhado tinha sido pela
primeira vez estucado, com um grande
maço de jornais, que o pai da Paulinha e do João que moravam em Lisboa tinha
trazido, quando vieram passar as férias ao Monte. Caraças, que grande maço de
jornais… deviam de ser mais de duzentos! Deram para forrar o telhado da escola
e ainda sobrou um moitão deles que as
mulheres dividiram entre si e levaram para casa. Os jornais eram bons para
fazer bolsos para embolsar as uvas, para forrar as pilheiras e frisos, depois de se lhe fazer uns recortes para
enfeite; para pôr debaixo do tacho das papas, ou mesmo para ajudar a acender o
fogo quando a lenha estava branda.
Nesse ano o pessoal tinha-se esmerado no arranjo do telhado. Não tinha sido só
a tradicional volta, mas tinha levado
também um caniço novo. Tinham ido colher
canas à Ribeira da Foupana... (continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário