domingo, 22 de julho de 2018


O Pão (Continuação 6)
Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade, começou a embarbilhá-los para os impedir de mamar a toda a hora e garantir que no início e no fim do dia, quando ordenhava as cabras, retirava uma maior quantidade de leite. Além da pequena quantidade que todos os dias consumiam, a ti Domingas conseguia ainda fazer dois queijinhos diários, que depois punha a secar num caniço de canas finas, que tinha na cozinha dependurado ao telhado.
Mas onde o ti Simão era um ás, era na arte da caça e da pesca, que lhe haviam garantido alimento durante uma grande parte do ano. Havia muito que perdera a conta ao número de coelhos que apanhara nesse ano, com a rateira que tinha mandado fazer ao ferreiro da aldeia do Pereiro. Bastava-lhe dar uma volta e examinar com cuidado veredas, espojeiros e caganiçais, para escolher com uma precisão quase infalível o local para enterrar o ferro que, no dia seguinte de manhã, tinha um coelho bem trincado pelo meio ou pelo cachaço. Só na atura da criação o ti Simão avagava um bocado. Não gostava de apanhar coelhas prenhas, ou que tivessem criação na caçapeira. Era bem melhor deixá-los crescer, que depois tinham tempo de ajustar contas
Com as perdizes, o tempo da criação era também sagrado. Nunca passaria pela cabeça ao ti Simão roubar um ninho de perdiz, ou apanhá-la no ninho, embora fosse a coisa mais simples  de fazer. Bastaria  um pequeno bocado de fio de sapateiro ou, na sua ausência, arrancar algumas sedas do rabo de uma besta, para fazer uma pequena trela em traça e armá-la com um nó corredio à entrada do ninho, que pouco depois a perdiz estaria lá enforcada. Havia várias razões para o ti Simão não fazer isso. Por um lado, não dava luta… não tinha ciência; era apanhar o bicho à falsa-fé! Por outro, se apanhasse a perdiz no ninho, comia apenas uma; se deixasse deitá-la a monte, poderia muito bem, com um pouco de sorte, apanhar cinco ou seis perdizes daquela criação alguns meses mais tarde. Quanto muito tirava meia dúzia de ovos a um ninho, para a ti Domingas pôr dentro dos folares da Pascoa. Mas este ano nem isso, porque a falta de farinha não permitira esse luxo. Assim, fazia a época do perdigão nos finais de abril, princípio de maio e as perdizes só começava a apanhá-las lá para o fim do verão. 
A caça ao perdigão era uma das artes que mais agradava ao ti Simão. Não só pela luta que dava mas também por ser praticamente inofensiva para a população de perdizes porque, mesmo apanhando o perdigão, a perdiz sozinha tirava e criava os perdigotos. A época estendia-se normalmente entre meados de abril e meados de maio, altura em que as perdizes começavam o choco e estavam deitadas em cima dos ovos. Era a época de cantar ao perdigão. A arte consistia em imitar o canto de uma perdiz, usando para o efeito um pequeno chamariz, a que na região se dava o nome de recaimo. Era um pequeno instrumento com cerca de dez centímetros de comprimento, feito artesanalmente de um bocado de madeira de nespereira ou de laranjeira. O bocado de madeira maciça era trabalhado até ficar afunilado nas duas extremidades e escavado ao centro para fazer uma caixa de ressonância, para dentro da qual convergiam dois pequenos tubos feitos de uma pena de grifo, um dos quais tapado com cera numa das extremidades. O recaimo do ti Simão tinha sido feito por ele próprio e usava-o com uma perícia tal, que muito raramente os perdigões desconfiavam do logro. Escolhia o local num pontalinho e fazia a taimeira com mato e arbustos verdes para se esconder. À volta fazia pequenos valados também com arbustos, deixando nalguns locais um pequeno espaço para o perdigão passar. Era nesse preciso local que o ti Simão colocava os aboízes, um tipo de armadilhas totalmente artesanais, bastando para construí-las cerca de cinquenta ou sessenta centímetros de fio de sapateiro para cada uma. O resto era feito com pauzinhos com os quais montava um mecanismo simples, sobre o qual era colocado o fio com um laço de correr. Quando o perdigão pisava os pauzinhos, o mecanismo era acionado por uma vara de esteva que tinha sido dobrada para fazer mola, e à qual estava atada a outra ponta do fio. Uma vez acionado o mecanismo, a vara soltava-se e com o impulso fechava o laço que prendia o perdigão pelas patas. O ti Simão saía então da taimeira, recolhia o perdigão, e voltava a montar o aboíz. Em dias de sorte, quando os bichos estavam mesmo destemidos, chegava a apanhar três ou quatro. Muitas vezes, quando estavam mais foitos, aproximavam-se dois ou três ao mesmo tempo e nessa altura era quase certo que se enfelpavam a guerrear. Embora fosse engraçado vê-los guerrear, o ti Simão não gostava que eles viessem em grupo, porque quando caísse o primeiro, os outros cavavam-nas e por vezes ficavam de tal forma trilhados que daí para o futuro desconfiavam facilmente da marosca e passavam a ser bastante mais cautelosos. Por vezes ficavam tão escarmentados, que tornava-se mesmo difícil conseguir que voltassem a aproximar-se da taimeira. Ficavam cantando a algumas dezenas de metros, empoleirados numa pedra, e para o lado da taimeiratá queta Bia!
A época melhor para apanhar as perdizes, era no fim do verão, quando as figueiras dessem a segunda camada de figos. Nessa altura, as perdizes da criação já não faziam praticamente diferença das velhas. Só os mais entendidos, como o ti Simão, lhe sabiam ver a diferença, pela cor de algumas penas. O ti Simão tinha meia dúzia de esparrelões, que ele próprio tinha feito para apanhar perdizes. Por vezes armava-lhe também loisas, que davam igualmente para apanhá-las, e em ambos os casos os figos serviam de isco. Após recolher todos os figos que eventualmente estivessem caídos no chão, debaixo das figueiras, montava as armadilhas. Embora as esparrelas de perdiz como o ti Simão lhe chamava, fossem mais práticas e fiáveis, muitas vezes usava também as loisas. Bastavam duas pedras e quatro pauzinhos com determinadas caraterísticas. Uma pedra era a chamada loisa e a outra o banquete. A armadilha montava-se com um bocadinho de cana a que era dado o nome de canilha, e três pauzinhos para armar o mecanismo (o pingalhete e as armas). Quando a perdiz fosse apanhar o figo que servia de isco era obrigada a acionar o mecanismo que, deixando subitamente de suportar a pedra da loisa, fazia com que a mesma caísse em cima da perdiz, que ficava debaixo da mesma. Estas mesmas artes, em dimensões mais reduzidas, eram também usadas para apanhar todo o tipo de passarada. Em tempos de menor necessidade, era atividade quase exclusiva dos gaiatos e jovens mas, agora, com a fominha a apertar, era também prática dos mais velhos e o ti Simão não era exceção.
A pesca era outra safa para apaziguar a fome...
(Continua)

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