O Pão (Continuação 6)
Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade, começou a embarbilhá-los para os impedir de mamar
a toda a hora e garantir que no início e no fim do dia, quando ordenhava as
cabras, retirava uma maior quantidade de leite. Além da pequena quantidade que
todos os dias consumiam, a ti Domingas conseguia ainda fazer dois queijinhos
diários, que depois punha a secar num caniço de canas finas, que tinha na
cozinha dependurado ao telhado.
Mas onde o ti
Simão era um ás, era na arte da caça e da pesca, que lhe haviam garantido
alimento durante uma grande parte do ano. Havia muito que perdera a conta ao
número de coelhos que apanhara nesse ano, com a rateira que tinha mandado fazer ao
ferreiro da aldeia do Pereiro. Bastava-lhe dar uma volta e examinar com cuidado
veredas, espojeiros e caganiçais,
para escolher com uma precisão quase infalível o local para enterrar o ferro que, no dia seguinte de
manhã, tinha um coelho bem trincado pelo meio ou pelo cachaço. Só na atura da
criação o ti Simão avagava um bocado.
Não gostava de apanhar coelhas prenhas, ou que tivessem criação na caçapeira. Era bem melhor deixá-los
crescer, que depois tinham tempo de ajustar
contas.
Com as perdizes, o tempo da criação era também sagrado. Nunca
passaria pela cabeça ao ti Simão roubar
um ninho de perdiz, ou apanhá-la no ninho, embora fosse a coisa mais
simples de fazer. Bastaria um pequeno bocado de fio de sapateiro ou, na
sua ausência, arrancar algumas sedas do rabo de uma besta, para fazer uma
pequena trela em traça e armá-la com um nó corredio à entrada do ninho, que
pouco depois a perdiz estaria lá enforcada. Havia várias razões para o ti Simão
não fazer isso. Por um lado, não dava
luta… não tinha ciência; era apanhar o bicho à falsa-fé! Por outro, se apanhasse a perdiz no ninho, comia apenas
uma; se deixasse deitá-la a monte,
poderia muito bem, com um pouco de sorte, apanhar cinco ou seis perdizes
daquela criação alguns meses mais tarde. Quanto muito tirava meia dúzia de ovos
a um ninho, para a ti Domingas pôr dentro dos folares da Pascoa. Mas este ano
nem isso, porque a falta de farinha não permitira esse luxo. Assim, fazia a
época do perdigão nos finais de abril, princípio de maio e as perdizes só
começava a apanhá-las lá para o fim do verão.
A caça ao perdigão era uma das
artes que mais agradava ao ti Simão. Não só pela luta que dava mas também por
ser praticamente inofensiva para a população de perdizes porque, mesmo
apanhando o perdigão, a perdiz sozinha tirava e criava os perdigotos. A época estendia-se normalmente entre meados de abril e
meados de maio, altura em que as perdizes começavam o choco e estavam deitadas
em cima dos ovos. Era a época de cantar ao perdigão. A arte consistia em imitar
o canto de uma perdiz, usando para o efeito um pequeno chamariz, a que na
região se dava o nome de recaimo. Era
um pequeno instrumento com cerca de dez centímetros de comprimento, feito
artesanalmente de um bocado de madeira de nespereira ou de laranjeira. O bocado
de madeira maciça era trabalhado até ficar afunilado nas duas extremidades e
escavado ao centro para fazer uma caixa de ressonância, para dentro da qual
convergiam dois pequenos tubos feitos de uma pena de grifo, um dos quais tapado com cera numa das extremidades. O recaimo do ti Simão tinha sido feito por ele próprio e usava-o com uma perícia tal, que muito
raramente os perdigões desconfiavam do logro. Escolhia o local num pontalinho e fazia a taimeira com mato e arbustos verdes para
se esconder. À volta fazia pequenos valados também com arbustos, deixando
nalguns locais um pequeno espaço para o perdigão passar. Era nesse preciso
local que o ti Simão colocava os aboízes, um
tipo de armadilhas totalmente artesanais, bastando para construí-las cerca de
cinquenta ou sessenta centímetros de fio
de sapateiro para cada uma. O resto era
feito com pauzinhos com os quais montava um mecanismo simples, sobre o qual
era colocado o fio com um laço de correr. Quando o perdigão pisava os pauzinhos,
o mecanismo era acionado por uma vara de esteva que tinha sido dobrada para
fazer mola, e à qual estava atada a outra ponta do fio. Uma vez acionado o mecanismo, a vara soltava-se e com o impulso fechava o laço que prendia o
perdigão pelas patas. O ti Simão saía então da taimeira, recolhia o perdigão, e voltava a montar o aboíz. Em dias de sorte, quando os bichos
estavam mesmo destemidos, chegava a
apanhar três ou quatro. Muitas vezes, quando estavam mais foitos, aproximavam-se dois ou três ao mesmo tempo e nessa altura
era quase certo que se enfelpavam a
guerrear. Embora fosse engraçado vê-los guerrear, o ti Simão não gostava que
eles viessem em grupo, porque quando caísse
o primeiro, os outros cavavam-nas e
por vezes ficavam de tal forma trilhados que daí para o futuro desconfiavam
facilmente da marosca e passavam a ser
bastante mais cautelosos. Por vezes ficavam tão escarmentados, que tornava-se mesmo difícil conseguir que voltassem
a aproximar-se da taimeira. Ficavam
cantando a algumas dezenas de metros, empoleirados numa pedra, e para o lado da
taimeira… tá queta Bia!
A época melhor
para apanhar as perdizes, era no fim do verão, quando as figueiras dessem a segunda camada de figos. Nessa altura,
as perdizes da criação já não faziam praticamente diferença das velhas. Só os
mais entendidos, como o ti Simão, lhe sabiam ver a diferença, pela cor de
algumas penas. O ti Simão tinha meia dúzia de esparrelões, que ele próprio tinha
feito para apanhar perdizes. Por vezes armava-lhe também loisas, que davam igualmente para apanhá-las, e em ambos os casos os figos serviam de isco. Após
recolher todos os figos que eventualmente estivessem caídos no chão, debaixo
das figueiras, montava as armadilhas. Embora as esparrelas de perdiz como o ti Simão lhe chamava, fossem mais
práticas e fiáveis, muitas vezes usava também as loisas. Bastavam duas pedras e
quatro pauzinhos com determinadas caraterísticas. Uma pedra era a chamada loisa
e a outra o banquete. A armadilha montava-se com um bocadinho de cana a que era
dado o nome de canilha, e três pauzinhos para armar o mecanismo (o pingalhete e
as armas). Quando a perdiz fosse apanhar o figo que servia de isco era obrigada
a acionar o mecanismo que, deixando subitamente de suportar a pedra da loisa,
fazia com que a mesma caísse em cima da perdiz, que ficava debaixo da mesma.
Estas mesmas artes, em dimensões mais reduzidas, eram também usadas para
apanhar todo o tipo de passarada. Em tempos de menor necessidade, era atividade
quase exclusiva dos gaiatos e jovens mas, agora, com a fominha a apertar, era também prática dos mais velhos e o ti Simão
não era exceção.
A pesca era outra safa para apaziguar a fome...
(Continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário