terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Ciganos (continuação 7)
Com ataques de risa silenciosos iniciaram a procura de pedras, que foram sendo rigorosamente selecionadas e colocadas num moitanito. Além das redondas para chegarem mais longe, não faltavam três ou quatro das tais compridinhas para zunirem. Reunida a quantidade que acharam ser suficiente, o Manel posicionou-se junto ás pedras, colocou uma na funda e fê-la rodar até tomar embalagem suficiente para um lançamento perfeito. Assim que a pedra foi jogada, deitaram-se de imediato no chão para não serem localizados. Do sítio onde estavam, os ciganos não conseguiam vê-los por causa das árvores, mas mesmo assim era melhor não arriscar, não fosse o Diabo tecê-las e estar algum em campo aberto, fora do acampamento, que os conseguisse lobrigar. Mas a primeira pedra não surtiu qualquer efeito. Na opinião do Manel devia ter caído no barranco, em cima dalgum moitão de areia que abafou o barulho. O facto é que ninguém pareceu ter dado conta, porque a conversa continuou animada e sem qualquer interrupção.
 Mas se ninguém do grupo deu por nada, o mesmo não se passou com as bestas dos ciganos, que estavam a algumas dezenas de metros do acampamento. Uma delas, alguns segundos depois, pregou um assopro que entoou por aquele barranco todo. Fez-se silêncio por uns segundos no acampamento, mas as conversas retomaram logo a seguir o seu ritmo normal. Os ciganos devem ter atribuído a alarme dado pelo animal, a algum bicho que passou junto dele e o assustou.
 - Já vistes as putas das bestas se são sentidas? – atalhou o Manel. – Porra… ainda dizem que as bestas dos ciganos não têm sangue na guelra!
- Deve ter sido algum macho ou mula quinzena – opinou o  Zé em voz baixa - as muares  são muito mais espantadiças do que os burros. A não ser algum burro inteiro, os outros são uns paz d’alma.
- Lá isso é verdade, – anuiu o Manel - mas os ciganos também costumam ter sempre burros inteiros, para lançamento. Mas fosse burro ou muar, o que é certo é que os bichos são muito mais espertos do que a gente. As bestas não nos estão vendo, mas sabem que a gente estamos aqui. - O Zé também não estava vendo as bestas, mas punha a cabeça em cima de um cepo, sem medo de a perder, em como naquele preciso momento todas elas estavam embizarradas a olhar naquela direção. 
Sempre lhe tinha feito espécie como é que os animais conseguiam aberruntar, com tamanha facilidade, a aproximação de uma pessoa ou de outro animal. Com o Maroto era fatal: quando em pleno campo o via virar a cabeça numa direção e afitar as orelhas num ângulo de quarenta e cinco graus, tinha a certeza de que alguma pessoa ou animal se aproximava. Muitas vezes a deteção era feita a mais de quinhentos metros de distância. O pai costumava muitas vezes  levar o Maroto quando ia armar as rateiras. Era trinta vezes melhor do que um cão: era um bom disfarce, não denunciava a presença e localizava atempadamente qualquer intruso ou presença indesejada. Muitas vezes o Zé tinha exclamado com admiração:
- Mas como é que o bicho consegue aberruntar as coisas tão longe? - Ao que o pai respondia:
 - O homem é o bicho mais parvo que há… qualquer “alimal” tem os sentidos muito mais finos que a gente.
Como não houve qualquer alarme por parte dos ciganos, o Manel levantou-se, colocou nova pedra na funda e jogou-a com gana redobrada. Desta vez sim. Até eles ouviram perfeitamente a pedra bater numa árvore. Deve ter sido perto do acampamento o e grupo também a ouviu, porque de imediato toda a gente se calou. Esquecendo-se do tempo de espera que haviam combinado, o Manel colocou outra pedra na funda, volteou-a cinco ou seis vezes para tomar embalagem e disparou-a em direção à raciada do ti Romão. De imediato se ouviu a zunida inconfundível de uma pedra das compridinhas: zrruuuuuuuuummmmmm! Desta vez a besta espantadiça não se ficou só pelo assopro. Ouviu-se nitidamente a estropeada que fazia quando partiu correndo á’desquatro, enquanto ia pregando mais uns valentes assopros.
 Do outro lado, no acampamento, soou uma voz cristalina que o Zé identificou de imediato:
- É pá!... Esta trazia fogo nas patas!
- Porra…era o António que devia estar também com os outros moços, ao pé do fogo com os ciganos! Caraças… aumentava  muito a possibilidade de desconfiarem deles, já que os outros moços que estavam com os ciganos não iriam fazer parte dos suspeitos, quando no outro dia procurassem adivinhar quem tinham sido os engraçadinhos.  A voz cristalina do António continuava a ouvir-se dando conselhos e palpites, por sinal bastante certeiros:
 - Não vale a pena procurarem-nos no barranco, que eles não estão aí. Não ouviram a pedra vir fungando lá do outro lado? Eles estão é além na Chã…
- Nova pedra saiu da funda ainda com mais violência do que as anteriores, a avaliar pelo estralo que deu quando bateu no tronco de uma árvore, ou numa pernada grossa.
Foi a gota de água!  Ouviram-se vozes exaltadas praguejando. Aos ouvidos do Zé e do Manel chegaram com clareza as palavras “vamos à busca dele”, e também a voz inconfundível do António a perguntar:
- Então para que é a espingarda? - Nenhum dos dois teve tempo para ouvir a resposta. O Zé, que ainda continuava deitado no chão, levantou-se de um salto como se tivesse sido impelido por uma mola. Mas já o Manel, sem dizer água vai, tinha corrido quase dez metros. Como estavam praticamente no bico do cerro, bastaram três ou quatro  segundos para extraposer para o outro lado e sair da vista do acampamento. À luz clara da lua, continuaram numa carreira louca pela soalheira abaixo, em direção ao Barranco do Deserto. O Manel, que por um lado tinha partido primeiro e por outro tinha a vantagem que mais quatro anos de idade lhe davam ao comprimento das pernas, levava uns bons vinte ou trinta metros de avanço.
O Zé conhecia o terreno como as palmas das suas mãos e

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