sexta-feira, 15 de junho de 2018

Os Ciganos (continuação 2)
Nesse dia a Marília tinha passado pelo caminho, junto das ferroveiras, numa das suas voltas pelo Monte. Deu educadamente as boas tardes e toda a gente retribuiu no mesmo tom mas, quando a Marília ia extrepondo e já não o podia ouvir, o ti Jacinto disse para o Lourenço, um moço que ia já nesse ano tirar sorte e que  tinha seguido com olhos gulosos a marcha da Marília:
 - Ó Lourenço… não tens ouvido dizer que quem xaringa uma cigana morre de pau feito? - Perante o coro de gargalhadas que foram emitidas por todos os presentes, o Lourenço, na sua atrapalhação por ter sido apanhado em falso, desculpava-se dizendo que não estava a olhar para a cigana com as ideias que o ti Jacinto insinuava. Este, para satisfação geral dos presentes, continuou ainda atazanando a cabeça ao Lourenço por um bom pouco:
- Queres-me dizer a mim que nã tavas galando a cigana?
– Não estava não senhor…
- Ah pois não!… eu não vi que tavas luzindo o olho quando ela passou!
Quando o grupo da Marília estava no Monte, era costume ela ir pedir, acompanhada pelos filhos e todas as mulheres lhe davam qualquer coisa, por muito pouco que tivessem também. Muitas delas pouco mais tinham do que a cigana, mas arranjavam sempre alguma coisinha para lhe dar: um cascote de pão, umas azeitonas, um bocado de toucinho, dois ou três ovos, um pedaço de queijo, alguma hortaliça ou fruta… havia sempre qualquer coisa. O Zé lembrava-se de um dia, em que depois de terem almoçado sobrara apenas metade de um pão. A mãe, que só no dia seguinte iria cozer a amassadura semanal, tinha dito:
- Condutem com o pão, que tem que dar para hoje e para o café de amanhã de manhã. - Pouco depois aparecera a Marília a pedir, e o Zé ficou de boca aberta ao ver mãe pegar numa faca, partir o resto do pão ao meio e entregar uma das partes à Marília. Assim que esta se foi embora, o Zé questionou de imediato a mãe:
 - Se só tínhamos aquele bocado de pão até amanhã, porque é que deu tanto à cigana?
– Porque a gente ainda tinha metade de um pão e ela não tinha nenhum!
 – Pois… e agora como é que este cascote dá para a merendinha, para a ceia e para o café de amanhã?
– Não se come merendinha e faz-se a ceia mais cedo – voltara a responder a mãe, com toda a naturalidade do mundo.
– Mas mesmo assim… como é que o pão dá para a gente os cinco?
– Guarda-se para o café de amanhã, que eu à tarde faço umas papas de milho para a ceia, e já não é preciso pão.
- Bom…não valia a pena mais conversa; o que não tem remédio remediado está. E pensando bem, não era assim tão mau como isso. Bem pior deviam estar os ciganos. Se a Marília não arranjasse mais pão e tivesse que dividir aquele cascote por eles todos, não dava a migalha cada um. Ele ainda tinha as papas para substituir o pão… muitos daqueles ciganos, se calhar ainda nunca tinham comido umas papas de milho! - O Zé dirigiu-se para a rua à procura de camaradas para a brincadeira e sentiu-se de repente estranhamente satisfeito por a mãe ter dado metade do pão que tinham à cigana.
Muitas vezes a Marília nem precisava de dar a volta completa ao Monte para arranjar alimento para toda a família. Havia um carinho muito especial por aquela cigana. As mulheres  comentavam:
 - Coitada…tão nova e já com três filhos! - A Carmencita também era muito bonita. Tinha uns olhos cinzentos e grandes, que acentuavam ainda mais a melancolia do seu rosto. Fora do seu círculo familiar era uma criança extremamente reservada, sendo raras as vezes que o Zé lhe tinha ouvido a voz, contrastando nesse aspeto com a mãe, que parecia uma gralha, sempre a falar, irradiando alegria e boa disposição. Lembrava-se de uma única exceção com a Carmencita; nessa vez tinha-a visto rir e falar p’los cotovelos.  Tinha sido alguns meses atrás, numa tarde de início de verão. Estava brincando na rua com o António, o Luís, a Rita e a Filomena, quando a Marília apareceu com os filhos. Ficou na cavaqueira com algumas mulheres que estavam junto ao forno público tendendo mais uma amassadura de pão para cozer, depois de já terem retirado uma fornada. Por uma questão de economia de lenha e também de entreajuda entre si, as mulheres do Monte costumavam combinar-se, em grupos de três ou quatro, para cozerem o pão no mesmo dia. Desta forma, depois de cozer uma fornada de pão, seria necessário meter uma quantidade mínima de lenha no forno, até o mesmo atingir novamente a temperatura ideal para nova fornada.
 Nesse dia estavam a jogar à pata choca, com uns ovos de pardal que ele e o Luís tinham arranjado no telhado da escola. Durante toda primavera e até mesmo verão adentro, o telhado da escola era uma fonte inesgotável de ovos de pardal. Por muitos que lhes roubassem, os cabrões dos pardais voltavam a fazer novos ninhos e a pôr mais ovos. O Zé achava aquilo estranho; ou os bichos eram muito tortos ou eram muito parvos. Mas porque raio é que só faziam os ninhos no telhado da escola, se ele era exatamente igual a todos os outros telhados do Monte, onde os bichos não faziam um único ninho?  Era infalível! Bem no início da primavera era vê-los a acartar pastos secos, penas de galinha, bocadinhos de tecido e outros desperdícios que arrebanhavam nas estrumeiras e enfiarem-se com eles debaixo das telhas, onde faziam os ninhos. Haviam canais que estavam cheios de baixo a cima, e de vez em quando a malta fazia por lá uma razia. Descalçavam os sapatos, se os tinham... (continua)


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