Os Ciganos (continuação 2)
Nesse dia a Marília
tinha passado pelo caminho, junto das ferroveiras, numa das suas voltas
pelo Monte. Deu educadamente as boas tardes e toda a gente retribuiu no mesmo
tom mas, quando a Marília ia extrepondo
e já não o podia ouvir, o ti Jacinto disse para o Lourenço, um moço que ia já
nesse ano tirar sorte e que tinha seguido com olhos gulosos a marcha da
Marília:
- Ó Lourenço… não tens ouvido dizer que quem xaringa uma cigana morre de pau feito?
- Perante o coro de gargalhadas que foram emitidas por todos os presentes, o
Lourenço, na sua atrapalhação por ter sido apanhado
em falso, desculpava-se dizendo que não estava a olhar para a cigana com as
ideias que o ti Jacinto insinuava. Este, para satisfação geral dos presentes,
continuou ainda atazanando a cabeça
ao Lourenço por um bom pouco:
- Queres-me dizer a mim que nã tavas galando a cigana?
– Não estava não
senhor…
- Ah pois não!… eu
não vi que tavas luzindo o olho
quando ela passou!
Quando o grupo da Marília
estava no Monte, era costume ela ir pedir, acompanhada pelos filhos e todas as
mulheres lhe davam qualquer coisa, por muito pouco que tivessem também. Muitas
delas pouco mais tinham do que a cigana, mas arranjavam sempre alguma coisinha para lhe dar: um cascote de pão, umas azeitonas, um
bocado de toucinho, dois ou três ovos, um pedaço de queijo, alguma hortaliça ou
fruta… havia sempre qualquer coisa. O Zé lembrava-se de um dia, em que depois
de terem almoçado sobrara apenas metade de um pão. A mãe, que só no dia
seguinte iria cozer a amassadura semanal,
tinha dito:
- Condutem com o pão, que tem que dar para
hoje e para o café de amanhã de manhã. - Pouco depois aparecera a Marília a
pedir, e o Zé ficou de boca aberta ao
ver mãe pegar numa faca, partir o resto do pão ao meio e entregar uma das
partes à Marília. Assim que esta se foi embora, o Zé questionou de imediato a
mãe:
- Se só tínhamos aquele bocado de pão até
amanhã, porque é que deu tanto à cigana?
– Porque a gente
ainda tinha metade de um pão e ela não tinha nenhum!
– Pois… e agora como é que este cascote dá para a merendinha, para a ceia e
para o café de amanhã?
– Não se come
merendinha e faz-se a ceia mais cedo – voltara a responder a mãe, com toda a
naturalidade do mundo.
– Mas mesmo assim…
como é que o pão dá para a gente os cinco?
– Guarda-se para o café de amanhã, que eu à tarde faço
umas papas de milho para a ceia, e já
não é preciso pão.
- Bom…não valia a
pena mais conversa; o que não tem remédio
remediado está. E pensando bem, não era assim tão mau como isso. Bem pior
deviam estar os ciganos. Se a Marília não arranjasse mais pão e tivesse que
dividir aquele cascote por eles
todos, não dava a migalha cada um.
Ele ainda tinha as papas para substituir o pão… muitos daqueles ciganos, se
calhar ainda nunca tinham comido umas papas de milho! - O Zé dirigiu-se para a
rua à procura de camaradas para a brincadeira e sentiu-se de repente
estranhamente satisfeito por a mãe ter dado metade do pão que tinham à cigana.
Muitas vezes a
Marília nem precisava de dar a volta completa ao Monte para arranjar alimento
para toda a família. Havia um carinho muito especial por aquela cigana. As
mulheres comentavam:
- Coitada…tão nova e já com três filhos! - A
Carmencita também era muito bonita. Tinha uns olhos cinzentos e grandes, que
acentuavam ainda mais a melancolia do seu rosto. Fora do seu círculo familiar
era uma criança extremamente reservada, sendo raras as vezes que o Zé lhe tinha
ouvido a voz, contrastando nesse aspeto com a mãe, que parecia uma gralha, sempre a falar, irradiando alegria e boa
disposição. Lembrava-se de uma única exceção com a Carmencita; nessa vez tinha-a
visto rir e falar p’los cotovelos. Tinha sido alguns meses atrás, numa tarde de
início de verão. Estava brincando na rua com o António, o Luís, a Rita e a
Filomena, quando a Marília apareceu com os filhos. Ficou na cavaqueira com algumas mulheres que
estavam junto ao forno público tendendo
mais uma amassadura de pão para cozer,
depois de já terem retirado uma fornada. Por uma questão de economia de lenha e
também de entreajuda entre si, as mulheres do Monte costumavam combinar-se, em
grupos de três ou quatro, para cozerem o pão no mesmo dia. Desta forma, depois
de cozer uma fornada de pão, seria necessário meter uma quantidade mínima de
lenha no forno, até o mesmo atingir novamente a temperatura ideal para nova
fornada.
Nesse dia
estavam a jogar à pata choca, com uns
ovos de pardal que ele e o Luís tinham arranjado no telhado da escola. Durante
toda primavera e até mesmo verão adentro,
o telhado da escola era uma fonte inesgotável de ovos de pardal. Por muitos que
lhes roubassem, os cabrões dos pardais voltavam a fazer novos ninhos e a pôr
mais ovos. O Zé achava aquilo estranho; ou os bichos eram muito tortos ou eram muito parvos. Mas porque
raio é que só faziam os ninhos no telhado da escola, se ele era exatamente
igual a todos os outros telhados do Monte, onde os bichos não faziam um único
ninho? Era infalível! Bem no início da
primavera era vê-los a acartar pastos secos, penas de galinha,
bocadinhos de tecido e outros desperdícios que arrebanhavam nas estrumeiras e enfiarem-se com eles debaixo das
telhas, onde faziam os ninhos. Haviam canais que estavam cheios de baixo a
cima, e de vez em quando a malta fazia por lá uma razia. Descalçavam os sapatos, se os tinham... (continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário