terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Ciganos (continuação 5)
Viu-o a olhar na sua direção e percebeu que ele estava a equacionar essa hipótese. Acabou por não o fazer. Não o fez, provavelmente por se ter apercebido de que não valia a pena, porque nada iria demover os ciganos da decisão que já tinham tomado. Para alívio do Zé, o pai voltou a iniciar a marcha e deixaram para trás os ciganos que continuaram a ultimar os preparativos para a partida. 
Mas o alívio foi sol de pouca dura. Uma culpa e uma angústia imensa iam-se apoderando dele. A voz do pai, que tinha começado com um “tás a ver a merda que fizeram?” e continuado com a aplicação de uma das maiores lições de moral de que se lembrava, soava-lhe estranhamente longínqua. As ameaças do - “se voltas a fazer outra pirraça destas… levas tamanha a b’fatada, que andas de raboleta na minha frente”, - nem de perto feriam tanto como os seus comentários e perguntas:
 - se a gente tivesse na pele deles, gostavas que nos fizessem o mesmo?  Já viste que esta desgraçada desta gente teve que se ir embora por causa vossa?
 -  Sim. Era verdade! Iam-se embora por causa deles. Agora tinha consciência da belhoreta que tinham feito. A cigana Marília já não iria pedir à volta do Monte. Se calhar no outro Monte para onde iam, não lhe davam tanta coisa para comer, e nesse caso a  Carmencita   e os irmãos até podiam passar fome. A Carmencita já não ia brincar com ele e os outros moços, como tinham feito naquela tarde em que jogaram à pata choca. É certo que agora não poderiam jogar aquele jogo, porque não havia ovos de pardais, mas havia sempre outros jogos que poderiam jogar: ao apanha, ao arrabenta, ao palito, à pedra, ao zangro, à cabra cega, à calha, e por aí fora. Mas o que mais o arrepiava, era pensar nas consequências que podia ter havido, se a coisa corre para o torto. Se uma daquelas pedras pesca um pela cabeça, o mais certo era limpar-lhe o sarampo! Está bem que os ciganos não estavam diretamente expostos às pedras, porque não estavam em campo aberto. A enorme alfarrobeira e as oliveiras em redor ofereciam uma proteção razoável, e as pedras tinham sido todas paradas por elas.  Mas à má hora não ladra cão; uma daquelas pedras podia ter passado pelo meio das árvores, atiçar uma boguêchada numa criatura e abrir-lhe a cabeça, como a mãe tinha dito. Olha se fosse aquela última que jogaram antes de fugir, que apanhou o tronco duma árvore e lhe deu um estacaço que entoou por aquele barranco todo…
O pai tinha razão quando disse ao cigano que aquilo tinha sido obra de gaiatos; mas do que se tinha passado, o pai nem sabia da missa metade. E ainda bem que não sabia, porque se soubesse, a coisa tinha piado mais fino e não se tinha livrado duma carga de estoiros, nem que o Deus do céu viesse à terra! Mas também era natural que o cigano da barba e do cabelo picarço, não acreditasse que tivesse sido obra de gaiatos. Um gaiato nunca poderia jogar pedras com tanta força e de uma distância tão grande, a que seguramente estavam, para ele e dois ou três camaradas não os terem encontrado, nem sequer posto a vista em cima, quando foram à procura deles, como o próprio cigano dissera. Além do mais estava uma lua que nem um sol, fazendo justiça ao ditado que diz que “luar de janeiro não tem parceiro”.
 Que um gaiato nunca poderia jogar pedras com tanta força, era apenas meia verdade. O que o pai não lhe passava pela cabeça e ao cigano muito menos, é que as pedras não tinham sido jogadas à mão, mas sim com uma funda! Poucos seriam os adultos, mesmo os de braço mais rijo, que conseguiam jogar á mão uma pedra que ultrapassasse á vontade a marca dos cem metros. Pois bem… aquelas tinham sido jogadas de uma distância  acima dos cento e cinquenta metros!
***
Tudo tinha começado no dia anterior, quando o Manel lhe apareceu à noitinha ao pé com uma funda novazinha que fizera nessa tarde, com um pedaço de linho que tinha ganfiado à mãe, duma das meadas que  ela já tinha passado pelo sedeiro e que estavam prontas para serem fiadas. Todo contente, o Manel confidenciara-lhe que ainda não estreara a funda; que ia fazê-lo nessa noite e que o Zé tinha que ir com ele.
– Então e porque não a experimentamos já? -  tinha perguntado ao Manel, que retorquiu de forma enigmática:
- Não… ninguém pode ver-nos jogar pedras com a funda!
- Mas porquê? - voltara a perguntar, admirado com tanto segredo. Com um sorriso de triunfo, o Manel passou a explicar: nessa tarde tinha chegado ao Monte uma mancheia de ciganos e tinham, como era hábito, montado o acampamento debaixo da ferroveira do ti Romão. Pois bem… a ideia era nessa noite, quando todos estivessem à roda do fogo, subirem os dois até ao Cerrinho da Chã e mandarem-lhe umas quantas pedradas com a funda. Sem pensar duas vezes, o Zé atirou com um - “cabrão seja quem se arrepender”! - Não ia haver problema. Sempre queria ver se o Manel era capaz de jogar pedras tão longe como se gavava. O Cerrinho da Chã ficava a mais de cem metros do Barranco do Monte, e o Zé previa que as pedras fossem cair na zona do barranco. A alfarrobeira, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos, ficava ainda do outro lado do barranco, a uns bons quarenta ou cinquenta metros. As pedras não deviam chegar lá, mas os ciganos iam ouvi-las cair no barranco. Apanhariam um bom cagaço e ele e o Manel uma barrigada de rir.
Tudo correu como haviam planeado. Tinham combinado encontrar-se no largo... (continua)

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