Viu-o a olhar na sua direção e percebeu que ele estava a
equacionar essa hipótese. Acabou por não o fazer. Não o fez, provavelmente por se
ter apercebido de que não valia a pena, porque nada iria demover os ciganos da
decisão que já tinham tomado. Para alívio do Zé, o pai voltou a iniciar a
marcha e deixaram para trás os ciganos que continuaram a ultimar os preparativos
para a partida.
Mas o alívio foi sol de
pouca dura. Uma culpa e uma angústia imensa iam-se apoderando dele. A voz
do pai, que tinha começado com um “tás a
ver a merda que fizeram?” e continuado com a aplicação de uma das maiores
lições de moral de que se lembrava, soava-lhe estranhamente longínqua. As
ameaças do - “se voltas a fazer outra pirraça
destas… levas tamanha a b’fatada, que andas de raboleta na minha frente”, - nem de
perto feriam tanto como os seus comentários e perguntas:
- se a gente tivesse na pele deles, gostavas que nos fizessem o mesmo? Já viste que esta desgraçada desta gente teve que se ir embora por causa vossa?
- Sim. Era verdade! Iam-se embora por causa deles. Agora tinha consciência da belhoreta que tinham feito. A cigana Marília já não iria pedir à volta do Monte. Se calhar no outro Monte para onde iam, não lhe davam tanta coisa para comer, e nesse caso a Carmencita e os irmãos até podiam passar fome. A Carmencita já não ia brincar com ele e os outros moços, como tinham feito naquela tarde em que jogaram à pata choca. É certo que agora não poderiam jogar aquele jogo, porque não havia ovos de pardais, mas havia sempre outros jogos que poderiam jogar: ao apanha, ao arrabenta, ao palito, à pedra, ao zangro, à cabra cega, à calha, e por aí fora. Mas o que mais o arrepiava, era pensar nas consequências que podia ter havido, se a coisa corre para o torto. Se uma daquelas pedras pesca um pela cabeça, o mais certo era limpar-lhe o sarampo! Está bem que os ciganos não estavam diretamente expostos às pedras, porque não estavam em campo aberto. A enorme alfarrobeira e as oliveiras em redor ofereciam uma proteção razoável, e as pedras tinham sido todas paradas por elas. Mas à má hora não ladra cão; uma daquelas pedras podia ter passado pelo meio das árvores, atiçar uma boguêchada numa criatura e abrir-lhe a cabeça, como a mãe tinha dito. Olha se fosse aquela última que jogaram antes de fugir, que apanhou o tronco duma árvore e lhe deu um estacaço que entoou por aquele barranco todo…
- se a gente tivesse na pele deles, gostavas que nos fizessem o mesmo? Já viste que esta desgraçada desta gente teve que se ir embora por causa vossa?
- Sim. Era verdade! Iam-se embora por causa deles. Agora tinha consciência da belhoreta que tinham feito. A cigana Marília já não iria pedir à volta do Monte. Se calhar no outro Monte para onde iam, não lhe davam tanta coisa para comer, e nesse caso a Carmencita e os irmãos até podiam passar fome. A Carmencita já não ia brincar com ele e os outros moços, como tinham feito naquela tarde em que jogaram à pata choca. É certo que agora não poderiam jogar aquele jogo, porque não havia ovos de pardais, mas havia sempre outros jogos que poderiam jogar: ao apanha, ao arrabenta, ao palito, à pedra, ao zangro, à cabra cega, à calha, e por aí fora. Mas o que mais o arrepiava, era pensar nas consequências que podia ter havido, se a coisa corre para o torto. Se uma daquelas pedras pesca um pela cabeça, o mais certo era limpar-lhe o sarampo! Está bem que os ciganos não estavam diretamente expostos às pedras, porque não estavam em campo aberto. A enorme alfarrobeira e as oliveiras em redor ofereciam uma proteção razoável, e as pedras tinham sido todas paradas por elas. Mas à má hora não ladra cão; uma daquelas pedras podia ter passado pelo meio das árvores, atiçar uma boguêchada numa criatura e abrir-lhe a cabeça, como a mãe tinha dito. Olha se fosse aquela última que jogaram antes de fugir, que apanhou o tronco duma árvore e lhe deu um estacaço que entoou por aquele barranco todo…
O pai tinha razão
quando disse ao cigano que aquilo tinha sido obra de gaiatos; mas do que se
tinha passado, o pai nem sabia da missa
metade. E ainda bem que não sabia, porque se soubesse, a coisa tinha piado mais fino
e não se tinha livrado duma carga de estoiros,
nem que o Deus do céu viesse à terra! Mas
também era natural que o cigano da barba e do cabelo picarço, não acreditasse que tivesse sido obra de gaiatos. Um
gaiato nunca poderia jogar pedras com tanta força e de uma distância tão
grande, a que seguramente estavam, para ele e dois ou três camaradas não os
terem encontrado, nem sequer posto a
vista em cima, quando foram à procura deles, como o próprio cigano dissera.
Além do mais estava uma lua que nem um sol,
fazendo justiça ao ditado que diz que “luar
de janeiro não tem parceiro”.
Que um gaiato nunca poderia jogar pedras com
tanta força, era apenas meia verdade. O que o pai não lhe passava pela cabeça e
ao cigano muito menos, é que as pedras não tinham sido jogadas à mão, mas sim
com uma funda! Poucos seriam os adultos, mesmo os de braço mais rijo, que
conseguiam jogar á mão uma pedra que
ultrapassasse á vontade a marca dos
cem metros. Pois bem… aquelas tinham sido jogadas
de uma distância acima dos cento e
cinquenta metros!
***
Tudo tinha
começado no dia anterior, quando o Manel lhe apareceu à noitinha ao pé com uma funda novazinha que fizera nessa tarde, com um pedaço de linho que tinha ganfiado à mãe, duma das meadas que ela já tinha passado pelo sedeiro e que estavam prontas para serem fiadas. Todo contente, o Manel confidenciara-lhe
que ainda não estreara a funda; que ia fazê-lo nessa noite e que o Zé tinha que
ir com ele.
– Então e porque
não a experimentamos já? - tinha
perguntado ao Manel, que retorquiu de forma enigmática:
- Não… ninguém
pode ver-nos jogar pedras com a funda!
- Mas porquê? -
voltara a perguntar, admirado com tanto segredo. Com um sorriso de triunfo, o
Manel passou a explicar: nessa tarde tinha chegado ao Monte uma mancheia de ciganos e tinham, como era
hábito, montado o acampamento debaixo da ferroveira
do ti Romão. Pois bem… a ideia era nessa noite, quando todos estivessem à roda do fogo, subirem os dois até ao Cerrinho
da Chã e mandarem-lhe umas quantas pedradas
com a funda. Sem pensar duas vezes, o Zé atirou com um - “cabrão seja quem se arrepender”! - Não ia haver problema. Sempre
queria ver se o Manel era capaz de jogar pedras tão longe como se gavava. O Cerrinho da Chã ficava a mais
de cem metros do Barranco do Monte, e o Zé previa que as pedras fossem cair na
zona do barranco. A alfarrobeira, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos,
ficava ainda do outro lado do barranco, a uns bons quarenta ou cinquenta
metros. As pedras não deviam chegar
lá, mas os ciganos iam ouvi-las cair no barranco. Apanhariam um bom cagaço e ele e o Manel uma barrigada de rir.
Tudo correu como haviam planeado. Tinham combinado encontrar-se no largo... (continua)
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