sábado, 14 de julho de 2018

O PÃO

Meteu a mão pelo postigo aberto e puxou a tramela da porta, enquanto olhava para trás e dizia para as duas crianças que o seguiam:
- Fechem os olhos… só os abrem quando eu mandar!
Empurrou a porta que se abriu de par em par e desviou-se para o lado para as duas crianças passarem. Encostou-se à ombreira da porta e, rindo com gosto, deu a esperada autorização:
- Podem abrir os olhos! - Seguiu-se um curto silêncio, logo interrompido pela voz ansiosa do pequeno Martinho:
– Onde é que está a coisa pai? - Estava parado entremeio da porta com a irmã, enquanto ambos percorriam com olhar inquiridor a pequena divisão da cozinha.
 – Em cima da mesa não está nada… continuava o pequeno Martinho, enquanto o pai os afastara de repente para o lado, entrara de roldão e ficara especado no meio de casa. O Ti Simão não queria acreditar! Abria e fechava a boca, como um peixe fora de água, antes de conseguir articular palavra.
 – Não pode ser… sumiu-se! – exclamou, enquanto de olhos esbugalhados olhava à sua volta e até para o telhado da pequena divisão, como se o que procurava pudesse pairar junto ao mesmo. Correu para a pequena mesa de madeira, enquanto a apontava com o dedo e dizia:
 - Pu-lo aqui in’dagora… dexi-o aqui em cima! Palmaram-me o pão… limparam-mo! Abriu a gaveta da pequena mesa e espreitou, como se tivesse esperança de que alguém lho tivesse escondido, só por judiaria. A voz avolumou-se, enquanto cerrava os punhos e gritava completamente fora de si:
- Ah macago na hóstia, que eu mato o cabrão ou a puta que me roubou o pão… dou cabo deles! - Assustado com a explosão de raiva do pai, o pequeno Martinho choramingava encolhido junto à parede, enquanto a Dolores, meia dúzia de anos mais velha que o irmão e quase a entrar na adolescência, olhava também assovacada para o pai. Nunca o tinha visto assaganhado daquela forma: cara encarnada como um tomate, veias do pescoço dilatadas, branco dos olhos raiado de sangue, rangia os dentes e despejava um chorrilho de ameaças, enquanto de braços tesos e estendidos para a frente abria e fechava as mãos, como se estivesse a apertar o gasganhol ao autor do roubo do pão.
 – Se lhe ponho as unhas em cima… se lhe deito as mãos ás goelas… faço-lhe deitar um palmo de língua fora; esmigalho-lhe a cabeça… tarrinco-lhe os ossos!
Quando ouviu o lavarito, a Ti Domingas tinha acabado de apanhar a galinha caroca mais velha, que já tinha a sentença lida. Nesse dia de manhã, nem a tinha apanhado como fez com as outras para verificar se tinha ovo. Todos os dias, logo de manhanita, procedia ao mesmo ritual: destapava a porta do galinheiro, apanhava as galinhas uma a uma e metia-lhes o dedo maminho no cu, para ver  se tinham ovo. As que tivessem ficavam encerradas até largarem o respetivo, não fosse dar-se o caso de alguma ir pôr por fora. As que não tinham ovo eram soltas para irem procurar a respetiva alimentação onde muito bem entendessem. Cada uma desenrascava-se como podia: sementes, formigas, gafanhotos e outras coisas menos nobres que encontravam nas estrumeiras ou nos cagadoiros, tudo servia para encher o papo. No dia anterior não tinha mesmo escapado um escarapão pequeno que a ti Domingas tinha matado com uma cana, quando o encontrou dentro do linheiro dos ovos, e que jogara  depois para a estrumeira.
Largou a galinha, soltou um “ai Jasus… q’ué que saria”, e correu para casa. Entrou esbaforida e enquanto olhava à sua volta ainda em sobressalto, inquiria o ti Simão:
- Oh homem…o que é que foi? Que espalhafato é esse? Santiss’me Sacramento, que pensei que se tinha dado uma desgraça!
– O pão… o mé pão…ai se eu sonho quem foi! – continuava o ti Simão.  Na rua tinha-se juntado um magote de gente que acudira aos gritos do ti Simão. A ti Donisa e mais cinco ou seis mulheres que estavam com ela no forno do monte, algumas vizinhas que estavam por perto; meia dúzia de gaiatos, e até o ti Sequeira que tinha chegado manquejando, encostado ao cajado, com uma desenvoltura que havia muito tempo que ninguém lhe via.
- Oh, valha-me Deus… mas quem é que mexia no pão? Não seria algum bicho… algum cão ou algum gato? – comentava a ti Domingas com pouca convicção.
 – Qual bicho, nem merda! – explodiu o ti Simão. - Não foi cão que a porta estava fechada e com a tramela bem entregue. Um gato não era capaz de saltar p’lo postigo com um pão inteiro nos dentes… nem levantá-lo do chão, quanto mais saltar p’lo postigo! Quando muito ratava-lhe um pedaço.
O ti Simão ia-se acalmando pouco a pouco. Tinha saído para a rua e sentara-se no pial junto à porta, visivelmente escreçoado, enquanto no grupo que se juntara na rua, se continuavam a discutir hipóteses e a lançar palpites. A meia voz, numa espécie de cisma consigo próprio, o ti Simão ia comentando:
 – Puta de sorte… hóstia dum cabrão, que quanto mais magro está o cão mais se lhe acolhem as pulgas. Mas para que é uma criatura sofrer tanto nesta vida… cabrã de Deus! Cabisbaixo, numa dolorosa resignação, o ti Simão entrou numa cisma profunda, fazendo para si próprio uma retrospetiva dos últimos tempos.
Havia vários anos que as coisas vinham correndo mal, mas lá tinha ido apelando e conseguido arranjar sustento para matar a fome à família durante a maior parte do ano. As courelas que tinha eram poucas e ruins e nas sementeiras dos últimos anos, raramente tinha conseguido que pagassem com mais de duas ou três sementes. Mal dava para fazer pão metade do ano, mas o ti Simão não era homem de baixar os braços e não havia trabalho que lhe metesse medo. Fosse ele aparecendo! Durante todo o ano aplicava ou vendia a força dos braços onde fosse necessário, de forma a arranjar uns cobres que lhe permitissem comprar umas arrobas de farinha, uns litrinhos de azeite, e outros bens quando fosse possível. Começava a sua própria sementeira...  (continua)

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