O PÃO
Meteu a mão pelo
postigo aberto e puxou a tramela da
porta, enquanto olhava para trás e dizia para as duas crianças que o seguiam:
- Fechem os
olhos… só os abrem quando eu mandar!
Empurrou a porta
que se abriu de par em par e
desviou-se para o lado para as duas crianças passarem. Encostou-se à ombreira da porta e, rindo com gosto,
deu a esperada autorização:
- Podem abrir os
olhos! - Seguiu-se um curto silêncio, logo interrompido pela voz ansiosa do
pequeno Martinho:
– Onde é que está
a coisa pai? - Estava parado entremeio da porta com a irmã, enquanto
ambos percorriam com olhar inquiridor a pequena divisão da cozinha.
– Em cima da mesa não está nada… continuava o
pequeno Martinho, enquanto o pai os afastara de repente para o lado, entrara de
roldão e ficara especado no meio de casa. O Ti Simão não queria acreditar! Abria e
fechava a boca, como um peixe fora de água, antes de conseguir articular
palavra.
– Não pode ser… sumiu-se! – exclamou, enquanto de olhos esbugalhados olhava à sua
volta e até para o telhado da pequena
divisão, como se o que procurava pudesse pairar junto ao mesmo. Correu para a
pequena mesa de madeira, enquanto a apontava com o dedo e dizia:
- Pu-lo
aqui in’dagora… dexi-o aqui em cima! Palmaram-me
o pão… limparam-mo! Abriu a gaveta da
pequena mesa e espreitou, como se tivesse esperança de que alguém lho tivesse
escondido, só por judiaria. A voz
avolumou-se, enquanto cerrava os punhos e gritava completamente fora de si:
- Ah macago na hóstia, que eu mato o cabrão ou a puta que me roubou o pão… dou
cabo deles! - Assustado com a explosão de raiva do pai, o pequeno Martinho
choramingava encolhido junto à parede, enquanto a Dolores, meia dúzia de anos
mais velha que o irmão e quase a entrar na adolescência, olhava também assovacada para o pai. Nunca o tinha
visto assaganhado daquela forma: cara
encarnada como um tomate, veias do pescoço dilatadas, branco dos olhos raiado
de sangue, rangia os dentes e despejava um chorrilho de ameaças, enquanto de
braços tesos e estendidos para a frente abria e fechava as mãos, como se
estivesse a apertar o gasganhol ao
autor do roubo do pão.
– Se lhe
ponho as unhas em cima… se lhe deito as mãos ás goelas… faço-lhe deitar um palmo de língua fora; esmigalho-lhe a
cabeça… tarrinco-lhe os ossos!
Quando ouviu o lavarito, a Ti Domingas tinha acabado de
apanhar a galinha caroca mais velha,
que já tinha a sentença lida. Nesse
dia de manhã, nem a tinha apanhado como fez com as outras para verificar se
tinha ovo. Todos os dias, logo de manhanita,
procedia ao mesmo ritual: destapava a porta do galinheiro, apanhava as galinhas
uma a uma e metia-lhes o dedo maminho
no cu, para ver se tinham ovo. As que
tivessem ficavam encerradas até largarem o respetivo, não fosse dar-se o caso
de alguma ir pôr por fora. As que não
tinham ovo eram soltas para irem procurar a respetiva alimentação onde muito
bem entendessem. Cada uma desenrascava-se como podia: sementes, formigas,
gafanhotos e outras coisas menos nobres que encontravam nas estrumeiras ou nos cagadoiros, tudo servia para encher o papo. No dia anterior não
tinha mesmo escapado um escarapão pequeno que
a ti Domingas tinha matado com uma cana, quando o encontrou dentro do linheiro dos ovos, e que jogara
depois para a estrumeira.
Largou a galinha,
soltou um “ai Jasus… q’ué que saria”,
e correu para casa. Entrou esbaforida
e enquanto olhava à sua volta ainda em sobressalto, inquiria o ti Simão:
- Oh homem…o que
é que foi? Que espalhafato é esse? Santiss’me Sacramento, que pensei que se
tinha dado uma desgraça!
– O pão… o mé pão…ai se eu sonho quem foi! – continuava o ti Simão. Na rua tinha-se juntado um magote de gente que acudira aos gritos do ti Simão. A ti Donisa e mais cinco ou seis mulheres que estavam com ela no forno
do monte, algumas vizinhas que estavam por perto; meia dúzia de gaiatos, e até
o ti Sequeira que tinha chegado manquejando,
encostado ao cajado, com uma desenvoltura
que havia muito tempo que ninguém lhe via.
- Oh, valha-me
Deus… mas quem é que mexia no pão?
Não seria algum bicho… algum cão ou
algum gato? – comentava a ti Domingas com pouca convicção.
– Qual bicho, nem merda! – explodiu o ti
Simão. - Não foi cão que a porta estava fechada e com a tramela bem entregue. Um
gato não era capaz de saltar p’lo postigo
com um pão inteiro nos dentes… nem levantá-lo do chão, quanto mais saltar p’lo postigo! Quando muito ratava-lhe um
pedaço.
O ti Simão ia-se
acalmando pouco a pouco. Tinha saído para a rua e sentara-se no pial junto à
porta, visivelmente escreçoado,
enquanto no grupo que se juntara na rua, se continuavam a discutir hipóteses e
a lançar palpites. A meia voz, numa espécie de cisma consigo próprio, o ti
Simão ia comentando:
– Puta de sorte… hóstia dum cabrão, que quanto mais magro está o cão mais se lhe
acolhem as pulgas. Mas para que é uma criatura
sofrer tanto nesta vida… cabrã de
Deus! Cabisbaixo, numa dolorosa resignação, o ti Simão entrou numa cisma
profunda, fazendo para si próprio uma retrospetiva dos últimos tempos.
Havia vários anos que as coisas vinham correndo
mal, mas lá tinha ido apelando e conseguido
arranjar sustento para matar a fome à família durante a maior parte do ano. As courelas que tinha eram poucas e ruins e nas sementeiras dos últimos
anos, raramente tinha conseguido que pagassem
com mais de duas ou três sementes. Mal dava para fazer pão metade do ano,
mas o ti Simão não era homem de baixar os braços e não havia trabalho que lhe
metesse medo. Fosse ele aparecendo! Durante todo o ano aplicava ou vendia a
força dos braços onde fosse necessário, de forma a arranjar uns cobres que lhe
permitissem comprar umas arrobas de farinha, uns litrinhos de azeite, e outros
bens quando fosse possível. Começava a
sua própria sementeira... (continua)
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