terça-feira, 17 de julho de 2018

O Pão (Continuação 2)
Tinham, até esse ano… porque de repente tudo se tinha complicado.
Se no ano anterior as colheitas haviam sido fracas em virtude de terem sido afetadas por uma seca já significativa, nesse ano fora a seca total e as coisas tinham descambado por completo. Por Natal não havia ainda chovido uma pinga de água. Nos últimos dias do ano o tempo mudou, e durante dois ou três dias ainda amanhecera nuvrinando, mas escampava pouco depois e não passou disso. Nem chegou a ser chuva daquela que molha parvos e enxuga velhacos, como a ti Domingas gostava de chamar-lhe. Nem um simples esgarrão de água que tivesse feito correr os canais dos telhados. Fora no entanto o suficiente para pôr alguma humidade na terra, que permitiu ás searas começarem a despontar. Mas foi sol de pouca dura e depressa o tempo levantou. De dia, um calor despropositado para a época; á noite, geadas como o ti Simão não tinha memória de ter visto. As poucas searas que vinham despontando, foram totalmente queimadas pela geada. A seca continuou, e pela Páscoa a situação era idêntica: nem pinga de água! As searas pareciam alqueives. Para todo o lado para onde se olhasse, nem um bico de erva verde.
Estava tudo perdido! Nem os santos quiseram ajudar. No Monte bem se tinha feito por isso, mas…nada! A primeira vez que as mulheres se juntaram para rezar o terço, tinha sido ainda antes de Natal. Primeiro foram sozinhas, algumas noites seguidas, mas não resultou. A ti Doniza dizia que era porque os homens não queriam saber; não tinham ido com elas e ainda por cima faziam pouco. Para os santos ajudarem, tinha que se acreditar, tinha que haver fé! Só isso explicava que, depois de rezar o terço nove noites a fio, o tempo teimasse em não mostrar bico de nuvem. Na segunda vez que rezaram o terço, já perto do Entrudo, o grupo de mulheres já contou com a presença de alguns homens. Juntavam-se todos á noite depois da ceia, no largo do Monte, e o grupo encabeçado pelo ti Soares que levava a cruz, logo seguido pela ti Doniza e mais duas ou três mulheres especialistas na reza, punha-se a caminho. Saiam do Monte e afastavam-se um ou dois quilómetros pelos caminhos das redondezas, com as mulheres da frente a desfiarem as ladainhas da reza, que em seguida era repetida pelo resto do grupo.  Mas nada tinha resultado. Se o tempo seco estava, seco ficou. Na opinião de algumas mulheres, a cruz deveria ter sido de oliveira mansa. O ti Soares tinha improvisado uma cruz com duas varas jambuzo e, na opinião delas, o facto de a cruz ser de oliveira brava, pode ter tido influência na falta de resultados. A ti Doniza continuou na dela: apontava o dedo a alguns homens que foram no grupo, e dizia que mais valia que não tivessem posto lá os pés! Na sua opinião, muitos deles tinham ido apenas para fazer vista grossa. Ela bem os tinha ouvido na galhofa lá atrás, quando deviam era estar rezando o terço.
Os homens no entanto eram na sua quase totalidade adeptos da teoria do ti Sequeira. Qual cruzes, qual rezas nem meias rezas! Não valia a pena andarem engonhando à procura de explicações, quando estava tudo mais que explicado. Quando teve conhecimento que estava a formar-se um grupo para ir rezar o terço, o ti Sequeira tinha sido bem explícito: era tempo perdido! As canículas tinham sido claras como a água. Nesse ano não ia chover antes do fim de outubro. Vá lá… com um pouco de sorte podia ser que o tempo deitasse uma pinga de água lá para a Feira da Praia, mas nunca antes disso!
A verdade é que não chovera mesmo e as coisas estavam pelas horas da morte. Nesse ano não houve searas para mondar. Da herdade do Alentejo, para onde a ti Domingas costumava ir fazer a temporada da monda, um portador trouxera recado a dizer que nesse ano não tinham trabalho para o rancho de mondadeiras, de que a ti Domingas habitualmente fazia parte. A ajuda do carvão também não estava a resultar. As dificuldades não tinham surgido só para o ti Simão. Um pouco por todo o lado os homens, sem nada para fazer na agricultura, jogaram-se quase todos ao fabrico do carvão, para procurar ganhar uns patacos. A primeira consequência foi uma escassez imediata de lenha. Quem a tinha não autorizava que outros a usassem, e quem não a tinha, como era o caso do ti Simão, via-se obrigado a procurar e arrancar arbustos em locais pouco acessíveis e quase sempre distantes. Nos barrancos, nas ribeiras e rochas à volta, não havia loendro, saíço ou tamujo que estivessem a salvo. Mas se por um lado se tornara difícil arranjar lenha para fazer o carvão, por outro a sua venda não se tornara menos difícil. O mercado ficara saturado de repente. O ti Simão, que antes saí um dia de madrugada para Vila Real ou Monte Gordo e estava de regresso no outro dia à noitinha com o carvão todo vendido, na última vez precisara de quatro dias para vender o carvão, e mesmo assim teve que o deixar quase dado. Agora era isto!
Se já não tinha havido monda nesse ano, muito menos houve aceifa. O lavrador Teixeira fez a sua só com o pessoal da casa, sem precisar de contratar mais ninguém. Depois do carrego, juntou na eira uma meda três vezes mais pequena do que as que normalmente fazia só com os arraçoamentos. Em anos normais, além do calcadoiro que fazia com a cobrança das rações a quem tinha emprestado terras, juntava mais meia dúzia de calcadoiros da sua própria colheita, que lhe rendiam moios e moios de semente.
A seara do ti Simão, nesse ano, tinha vindo toda num molhinho, debaixo do braço da ti Domingas. Parecia mentira… meses de trabalho e nem dava para encher o papo uma vez ás galinhas! E agora? Como é que iam aguentar... (continua)

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