quinta-feira, 26 de julho de 2018

O Pão (Continuação 7)
A pesca era outra safa para apaziguar a fome, mas havia já muitos meses que o ti Simão tinha que fazer mais de vinte quilómetros para tentar apanhar peixe para a refeição. Nos sítios onde normalmente os apanhava, que eram a ribeira e os barrancos, nesse ano não fora possível porque não chovera e, tanto uma como outros, estavam mais secos que um pau. Quando a ribeira tinha água à farta os barrancos corriam, era quase sempre fácil apanhar peixe para comer. Ainda antes do início da primavera, as pardelhas, as bogas, as paxonas, e outros peixes pequenos a que o ti Simão já ouvira chamar saramugos, começavam a entrar para os barrancos. Nessa época o ti Simão colocava em sítios estratégicos, normalmente nos correntes, alguns côvados de cana que atempadamente construíra. Não necessitavam de ser iscados. Os correntes eram estreitos e chatos, o que permitia colocar os côvados onde a veia de água fosse mais forte e tapar o resto com algumas fiadas de pedras, levando a que a possibilidade de os peixes passarem ao lado do côvado fossem muito reduzidas. Na ribeira, também era possível utilizar esta estratégia mas, devido à sua maior dimensão, só lá mais para o fim da primavera, quando o caudal fosse mais reduzido. Antes disso, na ribeira, só com um tresmalho ou  uma tarrafa, e isso eram peças de luxo que o ti Simão não tinha. Por vezes também armava côvados nos pegos mais fundos da ribeira, mas nesse caso tinham que ser iscados. Para esta modalidade o ti Simão tinha dois côvados que fizera em verga porque, para pescar ao fundo, os achava mais eficientes do que os de cana. Iscava-os com tremoços doces e algum milho se o tinha. Prendia-os com uma corda de junça e atava-lhe uma pedra para fazer peso e os manter no fundo do pego. Mas o peixe que apanhava desta forma era sempre pouco. No rio resultava muito melhor.
Uma vez chegado o verão, quando os pegos da ribeira começavam a baixar, era altura de pôr em pática outras estratégias. Primeiro, quando os pegos ainda tivessem bastante água, o ti Simão começava por apanhar os peixes à lapa Nestes casos procurava sempre os pegos onde houvesse mais pedras atenxadiças, desde que tivesse esconderijos onde os peixes se acolhiam. Em pegos onde não existiam esconderijos naturais, o ti Simão chegava a colocar pedras e fazer lapas artificiais onde os peixes se pudessem esconder, para depois, sorrateiramente, meter lá a mão e trinca-los. No fim do verão, quando o pego já tivesse pouca água, antes que secasse ou que as garças começassem a sua própria pescaria, era a altura de fazer a razia total aos peixes que tinham tido a sorte de iludir os pescadores até então. O ti Simão era raro usar esta técnica, só recorrendo a ela em casos excecionais. Tratava-se de embarbascar o pego. Era uma conjugação simples de determinadas plantas que, deitadas na água em certa quantidade, tinham a propriedade de deixarem os peixes tão zonzos, que se apanhavam à mão. A mistura era feita com uma planta chamada brabasco e crescia em muitos locais em abundância significativa. O ti Simão apanhava-a já depois de seca, pisava-a com uma pedra até ficar bem moída, misturando-a depois com munha de centeio e um pouco de água. Fazia pequenas bolas com a mistura, que depois atirava para a água. Algumas horas depois, todos os peixes do pego andavam à tona de água, tão bêbados, que era só apanhá-los e metê-los no cesto. Não era das coisas que mais agradava ao ti Simão, porque ficava com a sensação incómoda de estar a agir à falsa-fé; de ser uma luta desigual e da qual não havia qualquer possibilidade de salvação para os desgraçados dos peixes. Mas nesse ano nada disso tinha acontecido. Mesmo nos pegos de nascente que ainda tinham alguma água, os peixes tinham sido literalmente dizimados no ano anterior, e como nesse ano a ribeira e barrancos não voltaram a correr, não houve repovoamento com peixe de entrada.
A ausência de chuva fizera com que não houvesse pisca de água. Até mesmo os moirais tinham que percorrer grandes distâncias para encontrar na ribeira pegos com alguma água para os animais beberem.
Ao ti Simão restava a hipótese do rio para tentar apanhar algum peixe para comer e que era onde se havia entretido nesse ano, praticamente desde o inicio do verão, com meia dúzia de côvados de verga. Saía de casa logo de manhã. Levava o burro e as duas cabras e passava por lá o dia. Atava o burro e as cabras para pastarem, num local onde pudessem chegar  às sombras, e ia aos canaviais colher carriços para lhes reforçar a alimentação. Fazia uns cestinhos e umas canastras; recolhia verga nos freixos junto ao rio para fazer novos côvados; dormia uma folga, e à tardinha retirava os côvados da água para recolher o peixe e voltava a lança-los de novo à água. Antes de regressar ao Monte, por vezes já a caminho do mesmo, fazia uma paragem para procurar um sítio para armar a rateirinha.
Nesse verão, depois de muito magicar, tinha descoberto uma forma de apanhar peixe mais facilmente e em maior quantidade do que nos côvados. Era uma experiência que não conseguia pôr em prática sozinho e um dia, enquanto estava à folga junto ao poço do vinagre com o Dias do Marmeleiro, expôs-lhe a ideia e convidou-o para o ajudar a fazer a experiência. A questão é que era um sistema que dava muito nas vistas e era impossível fazê-lo pela calada,. Depois de discutir o assunto, decidiram dar conhecimento aos guardas do posto da Grandaça, que ficava bem perto do local escolhido. Quando lhes falaram nisso, e depois de explicar que não iriam usar qualquer rede e que seria tudo feito com ideias, o comandante do posto deu-lhes autorização para a pescaria. Pareceu-lhes que o cabo Rocha nem por sonhos acreditava que fossem apanhar qualquer peixe, porque lhes disse com ar de gozo:
- E não se esqueçam de nos trazer depois um cestinho de peixe!
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça...
(continua) 

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