terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Ciganos (continuação 6)
Tinham combinado encontrar-se no largo, ao pé do forno do Monte, e o Zé depois de comer a ceia encaminhou-se para lá. A noite estava limpa. No céu, sem um bico de nuvem, a lua cheia derramava uma luz tão clara que, em campo aberto, seria perfeitamente possível ver um vulto em movimento a mais de um quilometro de distância. Na rua não se via vivalma. Das chaminés subiam colunas de fumo, tão direitinhas, tão direitinhas, que confirmavam a ausência de um simples bafo de vento. Por um ou outro postigo aberto, viam-se tremelicar as luzes mortiças dos candeeiros a petróleo. Na noite gelada, o silêncio era apenas quebrado pelo ladrar compassado de um ou outro cão. Ao longe, para os lados da Corga da Burra, começaram a ouvir-se os gritos agoirentos de um mocho. Sem saber bem porquê, o Zé arrepiava-se todo quando ás vezes andava de noite sozinho na rua e ouvia um mocho a cantar. Se calhar era porque algumas pessoas velhas do Monte, diziam que os mochos cantavam  quando aberruntavam gente morta!
Ao pensar nisso, não pôde evitar um dos tais arrepios enquanto o mocho continuava com a sua gritaria que, no silêncio da noite, podia ouvir-se a quilómetros de distância: uíu!…uíu!… uíu!… úúúúuuuu… úúúúuuuu… uíu!…uíu!
- Pássaro dum cabrão que não se cala! - Ia sentar-se no pial do forno à espera que o Manel chegasse quando, com um enorme salto, saiu um gato disparado de dentro do forno roçando ainda no ombro do Zé, enquanto no ar ficava pairando a poeira da cinza que levantou ao saltar do forno. O Zé deu instintivamente um salto para o lado, enquanto sentia um arrepio dos pés à cabeça, sitio onde pareceu demorar-se mais, dando-lhe a impressão de ter ficado com os cabelos em pé.
– Gato dum cabrãofilho da puta que me fez apanhar medo! - Já não se sentou. Rodou à volta do monte disposto a ir à casa do Manel, mas não chegou lá porque o encontrou também já a caminho do local combinado. Saíram do Monte e afastaram-se o suficiente para não serem reconhecidos caso alguém os visse. Atravessando as raciadas, contornaram a povoação passando a cerca de cem metros das casas, no limite da mesma. Desceram ao Barranco do Deserto, passaram a Cerca das Oliveiras e dirigiram-se ao Cerrinho da Chã. Pelo caminho, sentindo-se agora bastante mais foito na companhia do Manel, o Zé foi-lhe contando o cagaço que o gato lhe tinha pregado. Com uma gargalhada abafada, para não chamar a atenção de alguém que eventualmente estivesse nas proximidades, o Manel exclamou:
- Porra, porra, que é preciso ter cagufo! Estava mais que visto que saltava um gato de dentro do forno. As mulheres cozeram hoje e a cinza ainda deve estar quentinha. Está um cabrão dum frio, que até um gajo lhe apetecia meter-se dentro do forno… quanto mais um gato!
Já a meio da soalheira, enquanto subiam para o Cerrinho da Chã, o voo rasante de uma ave noturna, que o Manel de imediato disse ser um latibó, lançou a conversa sobre o mocho, que já havia algum tempo que tinha deixado de se ouvir. 
O Manel confirmou: - quando os mochos cantavam assim, era sinal que tinha morrido alguém, ou ia a morrer. Garantido que ou já estava morto, ou estava acabando! Já tinha ouvido dizer à avó, à ti Balbina e a mais uma catrafada de gente velha.
 – Mas aqui no Monte não morreu ninguém… – disse o Zé, sem no entanto conseguir evitar novo arrepio. E já o Manel argumentava:
- Não morreu aqui, mas morreu de certeza noutro lado; talvez no Balurco ou além p'rá Corte! Esses bichos têm um instinto tão fino, tão fino, que são capaz de aberruntar gente morta até sabe-se lá onde. Como iam passando junto a um chaparreiro, o Zé bateu com os cotromelos dos dedos três vezes no pé da árvore, enquanto exclamava:
- Óstia! Que o Diabo seja surdo e mudo. Se tem que morrer alguém, pelo menos que seja lá bem longe!
O Manel contou ainda que nesse campo havia outros pássaros que também eram meios maniversos. Era o caso das corujas que estavam sempre à espera que morresse alguém, para irem ao cemitério mamar o azeite dos candeeiros que as pessoas  punham lá para alumiar as sepulturas.
 – Nas igrejas então é um ver se te avias…  o padre ou o sacristão põem o azeite nos candeeiros durante o dia, e elas limpam-no à noite! – continuava o Manel. - Já pouco à vontade o Zé retorquiu:
- Porra… vamos lá mudar a merda da conversa, se não esta noite já não durmo descansado! - Tinham acabado de chegar ao bico do cerro e pararam na eira do lavrador Afonso. Sentaram-se no chão junto à eira, no palheiro do lado norte, e ficaram um pouco em silêncio, a estudar a área circundante, para decidirem a melhor forma de executar o plano. Estavam a cerca de cento e cinquenta metros da ferroveira do ti Romão, mais coisa menos coisa, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos. A alfarrobeira era uma árvore enorme, com uma copa que abarcava uma área suficiente para levar quase uma quarta de semente. À sua volta, várias oliveiras também de grande porte formavam um maciço que encobria por completo o acampamento. Do sítio onde estavam, num plano mais elevado, dominava-se por completo toda a área envolvente. As labaredas da fogueira, que se adivinhava enorme pela luz que projetava em redor, apenas eram visíveis pelas luzernas que se escapavam através da folhagem densa das árvores. No silêncio da noite era possível identificar, na conversação que faziam, várias conversas cruzadas, levando a crer que se tratava de um grupo de pessoas bastante grande. O Zé pareceu-lhe ouvir algumas vozes familiares, mas não conseguiu identificar de quem. Depois de discutirem alguns aspetos, o Manel sentenciou:

- Bom… joga-se uma pedra e esperamos um pouco até jogar outra, para eles não saberem de que lado é que elas vêm. Eu jogo as primeiras cinco e depois jogas tu. Arranjamos duas ou três mais compridinhas para zunirem. Não chegam tão longe, mas fazem uma zunida que eles até se arrepiam…” a mai grossa é c’mó pitrol”. Com ataques de risa silenciosos... (continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário