Tinham combinado encontrar-se no largo, ao pé do forno
do Monte, e o Zé depois de comer a ceia encaminhou-se para lá. A noite estava
limpa. No céu, sem um bico de nuvem, a lua cheia derramava
uma luz tão clara que, em campo aberto,
seria perfeitamente possível ver um vulto em movimento a mais de um quilometro
de distância. Na rua não se via vivalma.
Das chaminés subiam colunas de fumo, tão
direitinhas, tão direitinhas, que confirmavam a ausência de um simples bafo de vento. Por um ou outro postigo aberto, viam-se tremelicar as luzes mortiças dos candeeiros a petróleo. Na noite gelada, o silêncio era
apenas quebrado pelo ladrar compassado de um ou outro cão. Ao longe, para os
lados da Corga da Burra, começaram a ouvir-se os gritos agoirentos de um mocho.
Sem saber bem porquê, o Zé arrepiava-se todo quando ás vezes andava de noite
sozinho na rua e ouvia um mocho a cantar. Se calhar era porque algumas pessoas velhas
do Monte, diziam que os mochos cantavam quando aberruntavam gente morta!
Ao pensar nisso, não pôde evitar um dos
tais arrepios enquanto o mocho continuava com a sua gritaria que, no silêncio
da noite, podia ouvir-se a quilómetros de distância: uíu!…uíu!… uíu!… úúúúuuuu…
úúúúuuuu… uíu!…uíu!
- Pássaro dum
cabrão que não se cala! - Ia sentar-se no pial
do forno à espera que o Manel chegasse quando, com um enorme salto, saiu um
gato disparado de dentro do forno roçando ainda no ombro do Zé, enquanto no ar
ficava pairando a poeira da cinza que levantou ao saltar do forno. O Zé deu
instintivamente um salto para o lado, enquanto sentia um arrepio dos pés à
cabeça, sitio onde pareceu demorar-se mais, dando-lhe a impressão de ter ficado
com os cabelos em pé.
– Gato dum cabrão… filho da puta que me fez apanhar
medo! - Já não se sentou. Rodou à
volta do monte disposto a ir à casa do Manel, mas não chegou lá porque o
encontrou também já a caminho do local combinado. Saíram do Monte e
afastaram-se o suficiente para não serem reconhecidos caso alguém os visse. Atravessando
as raciadas, contornaram a povoação
passando a cerca de cem metros das casas, no limite da mesma. Desceram ao
Barranco do Deserto, passaram a Cerca das Oliveiras e dirigiram-se ao Cerrinho
da Chã. Pelo caminho, sentindo-se agora bastante mais foito na companhia do Manel, o Zé foi-lhe contando o cagaço que o gato lhe tinha pregado.
Com uma gargalhada abafada, para não chamar a atenção de alguém que
eventualmente estivesse nas proximidades, o Manel exclamou:
- Porra, porra,
que é preciso ter cagufo! Estava mais
que visto que saltava um gato de dentro do forno. As mulheres cozeram hoje e a
cinza ainda deve estar quentinha. Está um cabrão dum frio, que até um gajo lhe
apetecia meter-se dentro do forno… quanto mais um gato!
Já a meio da soalheira, enquanto subiam para o
Cerrinho da Chã, o voo rasante de uma ave noturna, que o Manel de imediato
disse ser um latibó, lançou a
conversa sobre o mocho, que já havia algum tempo que tinha deixado de se ouvir.
O Manel confirmou: - quando os mochos cantavam assim, era sinal que tinha morrido
alguém, ou ia a morrer. Garantido que ou já estava morto, ou estava acabando! Já tinha ouvido dizer à
avó, à ti Balbina e a mais uma catrafada de
gente velha.
– Mas aqui no Monte não morreu ninguém… –
disse o Zé, sem no entanto conseguir evitar novo arrepio. E já o Manel
argumentava:
- Não morreu
aqui, mas morreu de certeza noutro lado; talvez no Balurco ou além p'rá Corte! Esses bichos têm um instinto tão fino, tão fino, que são capaz de aberruntar gente morta até sabe-se lá
onde. Como iam passando junto a um chaparreiro,
o Zé bateu com os cotromelos dos
dedos três vezes no pé da árvore, enquanto exclamava:
- Óstia! Que o Diabo seja surdo e mudo. Se tem que morrer alguém, pelo menos
que seja lá bem longe!
O Manel contou
ainda que nesse campo havia outros pássaros que também eram meios maniversos. Era o caso das corujas que estavam sempre à espera que
morresse alguém, para irem ao cemitério mamar
o azeite dos candeeiros que as pessoas punham lá para alumiar as sepulturas.
– Nas igrejas então é um ver se te avias… o padre
ou o sacristão põem o azeite nos candeeiros durante o dia, e elas limpam-no à noite! – continuava o Manel.
- Já pouco à vontade o Zé retorquiu:
- Porra… vamos lá
mudar a merda da conversa, se não esta noite já não durmo descansado! - Tinham acabado
de chegar ao bico do cerro e pararam
na eira do lavrador Afonso. Sentaram-se no chão junto à eira, no palheiro do lado norte, e ficaram um
pouco em silêncio, a estudar a área circundante, para decidirem a melhor forma
de executar o plano. Estavam a cerca de cento e cinquenta metros da ferroveira do ti Romão, mais coisa menos coisa, debaixo da qual
estava o acampamento dos ciganos. A alfarrobeira era uma árvore enorme, com uma copa que abarcava uma área suficiente para levar
quase uma quarta de semente. À sua
volta, várias oliveiras também de grande porte formavam um maciço que encobria
por completo o acampamento. Do sítio onde estavam, num plano mais elevado,
dominava-se por completo toda a área envolvente. As labaredas da fogueira, que
se adivinhava enorme pela luz que projetava em redor, apenas eram visíveis
pelas luzernas que se escapavam
através da folhagem densa das árvores. No silêncio da noite era possível
identificar, na conversação que faziam,
várias conversas cruzadas, levando a crer que se tratava de um grupo de pessoas
bastante grande. O Zé pareceu-lhe ouvir algumas vozes familiares, mas não
conseguiu identificar de quem. Depois
de discutirem alguns aspetos, o Manel sentenciou:
- Bom… joga-se
uma pedra e esperamos um pouco até jogar outra, para eles não saberem de que
lado é que elas vêm. Eu jogo as primeiras cinco e depois jogas tu. Arranjamos
duas ou três mais compridinhas para zunirem.
Não chegam tão longe, mas fazem uma zunida
que eles até se arrepiam…” a mai grossa é
c’mó pitrol”. Com ataques de risa silenciosos... (continua)
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