O Zé conhecia o terreno
como as palmas das suas mãos e sabia que estava ali uma cova. Era um sítio de onde
tinham arrancado pedras para fazer a cabeceira
da eira, ou alguns dos galinheiros e pocilgos
de pedra solta que estavam próximos
do local. Mas naquela altura não havia tempo para pensar. Quando o terreno lhe faltou debaixo dos pés,
lembrou-se da puta da cova!
Aterrou do outro lado do buraco e arrabolou uns bons metros pela ladeira
abaixo. Mas se muito depressa caiu, mais
depressa se levantou. Agora que a distância que o separava do Manel
aumentara significativamente com este contratempo, continuou correndo atrás dele enquanto repetia
sucessivamente - “espera aí pá!… espera aí pá!... espera por mim caralho!”. - O Manel só parou na cerca
das oliveiras, já bem perto do Barranco do Deserto. Olhou para trás pela
primeira vez e, numa afegada que
demonstrava bem que não estava menos escalfado
do que o Zé, lançou-lhe um -“onde é que
ficas-te"?
– Onde é que fiquei, o cacete!… não viste o estalégaço que eu caí? - retorquiu o Zé com algum ressentimento. Parou, e ainda com a respiração ofegante arregaçou as calças até aos joelhos e as mangas do pulôver de lã que a mãe lhe tinha feito à entrada do inverno e ficou a observar as pernas e braços doridos. Depois de um rápido exame e enquanto o Manel ria descontroladamente, praguejou um - “cabrã de Deus… que fiquei com os joelhos e os braços todos escalavrados!” - Rapidamente o Manel mudou a conversa para o outro tema:
– Onde é que fiquei, o cacete!… não viste o estalégaço que eu caí? - retorquiu o Zé com algum ressentimento. Parou, e ainda com a respiração ofegante arregaçou as calças até aos joelhos e as mangas do pulôver de lã que a mãe lhe tinha feito à entrada do inverno e ficou a observar as pernas e braços doridos. Depois de um rápido exame e enquanto o Manel ria descontroladamente, praguejou um - “cabrã de Deus… que fiquei com os joelhos e os braços todos escalavrados!” - Rapidamente o Manel mudou a conversa para o outro tema:
- Porra… já viste
que os gajos tinham uma espingarda?
– E tu já viste
se eles calham a virar o canudo para onde a gente estava e amandar uma faísca? –
ripostou o Zé. Com ar de conhecedor, o Manel desvalorizava o risco de tal
hipótese:
– Dalém não havia grande problema… era muito longe e o chumbo quando chegava onde a gente estava, já não trazia força.
– Dalém não havia grande problema… era muito longe e o chumbo quando chegava onde a gente estava, já não trazia força.
– Quem sabe lá… nunca fiando! - ripostou o Zé em tom duvidoso - Olha se a gente apanha com dois ou três bagos
de chumbo p’las nalgas….
- Xóstia! –
exclamou o Manel, enquanto levava a mão ao
cu das calças e acoçava com energia, como se
de repente tivesse sido atingido por bagos de chumbo imaginários. Continuaram
as piadas e, enquanto riam com gargalhadas abafadas, começaram a dirigir-se
para o Monte.
O Zé pareceu-lhe
ver um vulto deslizar na sombra projetada pelas paredes escuras de pedra, junto
ao boqueirão do palheiro do Ti Serafim, mas não teve a certeza se era gente.
Entraram no Monte e dirigiram-se para a casa da Ti Balbina, local onde era
costume muitas pessoas do Monte juntarem-se para fazer serão. Debaixo da enorme
chaminé, ardia um convidativo fogarelo.
À volta, várias pessoas do Monte tinham esgotado a lotação das cadeiras. O
Manel sentou-se num cepo de chaparreiro e
o Zé numa faxina de lenha, que junto
à chaminé aguardavam a sua vez de serem queimados, e ficaram a ouvir as
conversas. Havia sempre quem contasse histórias interessantes; coisas do outro tempo, judiarias e fenezas de
homens valentes, dificuldades e histórias de tempos malinos; do tempo da fome,
da guerra de Espanha e até da de
França, das mondas e acefas no Alentejo, etc., etc.
Por várias vezes o
Zé pareceu-lhe ver na cara da Ti Balbina
um sorriso manhoso e trocista, quando olhava de relance para ele e para
o Manel. Agora, juntando dois com mais
dois, começava a fazer-se luz sobre o que se tinha passado. Recordando o
vulto fugidio, na sombra da parede do palheiro do Ti Serafim, tinha agora a
certeza de que não era outra coisa senão a Ti Balbina que tinha ido a mijar ou arrear o calhau à Porta da Ombria, e que tinha visto o estrafego todo do sítio donde estava.
Aquela parte do Monte, a que chamavam o Cerro e onde ambos moravam próximo da
casa da Ti Balbina, era bastante alta ultrapassando mesmo a altura do
Cerrinho da Chã. Á luz clara da lua, a Ti Balbina vira-os a jogar pedras aos
ciganos, da eira do lavrador Afonso, vira-os fugir, vira a carvandela que ele tinha dado e estivera a observá-los da sombra,
quando pararam junto ao Barranco do Deserto, a cerca de cem metros do local
onde ela se encontrava. Não devia ter ouvido a maior parte da conversa entre
ele e o Manel, nem percebido patavina
daquilo que diziam, porque estavam a falar relativamente baixo, mas com certeza
que os tirara pela pinta, e quando se
foi embora sabia perfeitamente quem eles eram. Se alguma dúvida restasse, tinha
sido desfeita quando chegaram juntos pouco depois a casa dela.
Procuraram não dar nas vistas, mas havia sempre os
olhares furtivos entre os dois e os sorrisos mal disfarçados, quando se
lembravam de um ou outro pormenor da aventura. O Manel soltou mesmo uma valente
carcachada quando viu o Zé a coçar nas
canelas, por se lembrar da queda que
ele deu. A gargalhada soou despropositada e espantou toda a gente, já que não
tinha havido qualquer garçola ou dito que a justificasse. A mãe do
Manel, que também lá estava a fazer serão, tinha-lhe deitado um olhar
reprovador e dito:
- Moço dum cabrão, parece que é parvo!
- Foi demais para o Zé. Começou a rir também à gargalhada e não conseguindo controlarem-se, saíram os dois fugindo para a rua, perante os olhares espantados de quem estava ao serão. Só a Ti Balbina sabia o que se passava. A cabrona da velha deve ter-se chibado e, além de toda a gente ter ficado a saber, a coisa deve também ter chegado aos ouvidos do pai e da mãe do Zé ainda nessa noite.
- Moço dum cabrão, parece que é parvo!
- Foi demais para o Zé. Começou a rir também à gargalhada e não conseguindo controlarem-se, saíram os dois fugindo para a rua, perante os olhares espantados de quem estava ao serão. Só a Ti Balbina sabia o que se passava. A cabrona da velha deve ter-se chibado e, além de toda a gente ter ficado a saber, a coisa deve também ter chegado aos ouvidos do pai e da mãe do Zé ainda nessa noite.
Mas agora estava
feito e não havia como mudar as coisas. Que tinham procedido mal e ganho um par de galhetas bem dadas não havia dúvida
nenhuma, e aquela ia servir-lhe de lição. Procurou animar-se. Também que raio…
ninguém se tinha aleijado, ou melhor, ninguém além dele, que ainda lhe doíam os
joelhos como o caraças! Por outro
lado embora tivesse culpas no cartório
porque, como diz o ditado, “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à
porta”, restava o consolo de saber que não tinha jogado uma única pedra. E
depois, pensando bem, até houve momentos que tiveram a sua graça, pensou o Zé,
enquanto pela primeira vez desde esse dia de manhã, lhe aflorava um leve
sorriso aos lábios.
FIM
José Manuel Simão
Maio de 2015
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