O Pão (continuação 4)
Já havia passado muita fome com a mulher para minimizarem a dos
filhos, e tinham passado momentos maus de tragar. Muito maus mesmo!
Até para quem tinha dinheiro as coisas se
tinham complicado. Depois da revolta militar que três ou quatro anos antes
tinha acabado com a rebaldaria, como
o ti Simão tinha ouvido o lavrador Teixeira apregoar, os novos homens do
governo estavam fazendo um Estado Novo. Mas a verdade é que a muitas das coisas
novas, havia bastante gente que não estava a achar muita graça. De repente, ter
dinheiro deixou de ser sinónimo de se comprar o que muito bem apetecia, porque
a maioria dos bens de consumo passaram a ser racionados. Já não se comprava a
quantidade de coisas que se queria, mas sim aquela que era autorizada. Para
adquirir o que lhes estava destinado, as pessoas tinham que apresentar na
altura da compra as respetivas senhas. Sem elas nada feito. As senhas eram
distribuídas em Alcoutim, na Câmara Municipal, onde as pessoas formavam enormes
bichas para as receberem. Por vezes era necessário esperar umas boas horas na
bicha, até chegar a sua vez. Dois meses antes, o ti Simão tinha-se descuidado a ir um pouco mais tarde e quando chegou, ás
oito da manhã, já havia uma bicha para as senhas da farinha, que o fez esperar cinco horas até chegar a
sua vez. Mas as surpresas não ficaram por aí. A senha para dez quilos de
farinha tinha que ser aviada em Giões, porque as senhas para os pontos de venda
mais perto, tinham-se já esgotado. Decidiu ir logo de caminho buscar a farinha. Para a mulher não ficar em fezes, mandou-lhe recado pelo
ti Soares a dizer que ia logo a Giões e que ia chegar bem tarde. Montou-se
outra vez acavalo no burro e abalou a
caminho de Giões. Apanhou o caminho direito à Corte Tabelião, passou por Santa
Marta e pelo Coito; cortou direito ao Tesouro, passou pelos Farelos e chegou a
Giões já perto das seis da tarde. Aviou os dez quilos de farinha que meteu nos
dois sacos de linho, tão brancos como o precioso produto que guardavam, atou-os
em alforge e pô-los em cima do burro. Pelo menos dava para continuar a ir
acavalo. Tomou agora o caminho do Viçoso, passou pelas Velhas, Alcaria Cova,
Silveira, e Fonte de Zambujo. Cortou ao lado da Casa dos Martinses direito à
Gafeirosa e, já muito perto da meia-noite, chegou à Palmeira de onde tinha
saído às cinco da manhã. Tinham passado quase vinte horas desde que saíra de
casa até chegar novamente com os dez quilinhos de farinha.
Por todos os Montes por onde passara, e tinham sido muitos, sempre a mesma desolação. Numa altura em que as debulhas deviam estar no forte, as eiras desertas mostravam que as colheitas tinham sido iguais um pouco por todo o lado. De medas ou calcadoiros, nem rasto! Aqui e ali vira uma ou outra eira com pequenos vestígios de palha, mas a maior parte delas nem tinham sido embonicadas nesse ano. Os solos continuava tapados com o palhiço de tremoços, com que haviam sido protegidos no ano anterior, no final da época das debulhas.
Por todos os Montes por onde passara, e tinham sido muitos, sempre a mesma desolação. Numa altura em que as debulhas deviam estar no forte, as eiras desertas mostravam que as colheitas tinham sido iguais um pouco por todo o lado. De medas ou calcadoiros, nem rasto! Aqui e ali vira uma ou outra eira com pequenos vestígios de palha, mas a maior parte delas nem tinham sido embonicadas nesse ano. Os solos continuava tapados com o palhiço de tremoços, com que haviam sido protegidos no ano anterior, no final da época das debulhas.
Embonicar a eira
era uma coisa chata mas, por estranho que pareça, era coisa que o ti Simão
gostava de fazer. Se calhar não era pelo trabalho em si, mas pelo que o mesmo
representava, uma vez que marcava o início da debulha e a aproximação da altura
em que se enchia o “celeiro” e reinava alguma abundância.
Recordava os dias
em que, de manhã bem cedinho, ajudava algum vizinho ou recebia ajuda para
preparar a sua própria eira. Era um trabalho em que normalmente havia
entreajuda e que podia ser feito de duas maneiras: com as bestas, ou com gado de pata
miúda. No caso do ti Simão, assim como da maioria da gente do monte, o solo
da eira era feito com as bestas, porque ovelhas e cabras em número suficiente
para fazer aquele trabalho, só o lavrador é que as tinha. Assim, além dos dois
animais que possuía, era necessário reunir para o efeito mais cinco ou seis, que
eram pedidos emprestados aos vizinhos, que por sua vez davam também uma
ajudinha. No dia anterior, tudo tinha sido atempadamente preparado. Para junto
da eira, carregavam-se duas ou três gorpelhas
de barro joeirado, que iria ser
usado para reforçar o solo e tapar algum buraco que tivesse surgido, de forma a
restaurar completamente o solo da eira. Haviam igualmente trazido quatro ou
cinco caminhos de água, carregada com
o burro numas zangarilhas, em cântaros de zinco, e posteriormente despejada em dornas e alguidares de
barro junto à eira. Depois de molhar bem o chão e espalhar uma certa quantidade
de barro, punham-lhe as bestas em cima. Andavam a rodar ininterruptamente em cima
da eira, por vezes durante horas, dirigidas pelos homens, que de vez em quando
se revezavam. Ao mesmo tempo e onde ainda fosse necessário, iam-lhe
adicionando pequenas quantidades de barro em pó, que seguidamente ogavam com água, Quando o solo da eira
adquiria a consistência desejada, retiravam os animais, deixavam secá-lo e
estava pronto a ser embonicado, para proteção
final e evitar que rachasse. Para o efeito, tinham já sido apanhadas uma boa
quantidade de bostas de vaca, que depois
de bem diluídas em água, serviam para besuntar
todo o solo da eira, usando para o
efeito uma vassoura de rama de xolgaço
verde. Terminado todos os procedimentos, a eira estava pronta para a debulha.
Havia quase três
semanas que em casa do ti Simão se tinha comido a última côdea de pão.
Dinheiro, nem um tostão para mandar
cantar um cego. Dois dias antes, à tardinha, o ti Simão tinha dito à
mulher:
- Esta noite vou
dormir a Alcoutim, à porta da Câmara, para amanhã apanhar senha para farinha. - A
ti Domingas tinha retorquido com ironia:
- E com que dinheiro é que queres comprar a
farinha… com os canos do cu? - Mas o ti
Simão não se desmanchou.
– Logo vês… um panito tenho eu que arranjar! (continua)
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