sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 5)

Quando o gajo dissera “vamos dar um paseo… até Huelva”, embora acreditasse que a frase tinha sido dita com segundas intenções, talvez quisesse apenas dizer que se não colaborasse o levavam para a cadeia de  Huelva. À partida não deveria haver razões de maior para se preocupar mas, de qualquer forma, sendo conhecedor do que se passava em Espanha desde que começara o alziamento, a alusão ao paseo, mesmo naquelas condições, era sempre motivo de preocupação. Quantos e quantos desgraçados é que, mesmo injustamente, tinham já sido fuzilados só porque um sacana de um falangista qualquer, à falsa fé, decidia “tirá-los de circulação”? Mas não sendo espanhol, esse cenário era uma coisa mais que remota. Mesmo que o engalfetassem não estava muito preocupado, porque alguém mexeria depois os cordelinhos para o tirar da prisão quanto antes. Por outro lado também não estava a ver que justificação poderiam dar para o prender, uma vez que não tinha sido apanhado com qualquer carga de contrabando.
Procurava ainda adivinhar um motivo para o terem caçado.  Seria alguém que o tinha amesiado? Algum grupo concorrente, que queria afastá-lo para dominar o negócio do contrabando na zona? Mas se fosse isso, porque tinham deixado os outros irem embora? E mais importante ainda, porque é que não tinham antes apreendido as cargas, e evitado a entrada do café no mercado? Foi interrompido pelo que seguramente seria o chefe dos seus captores, que lhe disse sem mais rodeios:
- Ilberto português… passas-te dez cargas de café; vamos apreender-te o dinheiro da venda! Entregas o dinheiro e podes ir à tua vida. Caso contrário vais bater com os ossos na cadeia de Huelva durante uns tempos, e podes ter a certeza de que nem o major Gomez te livra de passares lá uma temporada. Apresenta-me menos de três contos e vais ver o que te passa!
- Cum caraças! Então a coisa era outra e o motivo era o dinheiro? Grandes cabrões! - Agora começava a perceber porque tinham deixado os outros ir embora. De imediato percebeu que não havia volta a dar e nem valia a pena negar fosse o que fosse. A operação tinha sido bem montada; aliás… bem montada de mais para seu gosto! Notava-se que tinha havido uma preparação fora do comum. Os gajos, a avaliar pelo que tinha sido dito, andavam seguramente a investiga-lo havia algum tempo. Sabiam perfeitamente quem ele era; os contactos que tinha na zona e até a ligação ao major Gomez de Ayamonte. Sabiam que era ele que transportava o dinheiro e até a quantia exata que tinha recebido com a venda das dez cargas de café.
Fazendo bom uso da sua fama de ser mais fino que o azeite, o Ilberto encenou um pequeno sorriso e, com ar de admiração, disse para os seus captores: 
- Sim senhor… tiro-vos o chapéu e dou-vos os meus parabéns pelo trabalho que acabam de fazer! Acreditem que não era qualquer um que conseguia fazê-lo. – Olhando para o que reconhecera já como chefe do grupo, continuou:
- Estamos em campos opostos, mas ambos damos o nosso melhor naquilo que fazemos. Na parte que me toca acredito que o meu trabalho não prejudica ninguém e que pelo contrário ajuda e dá de comer a muita gente que doutra forma estariam na miséria. E não são só os meus homens e as suas famílias, mas também, direta ou indiretamente, muitas outras pessoas e famílias aqui em Espanha. Também sei que o contrabando prejudica o Estado na cobrança dos impostos e que o vosso trabalho é evitar que isso aconteça.
- O chefe do grupo, sem dizer palavra, escutava-o com uma expressão que ao Ilberto lhe pareceu mais branda e algo divertida.
 – É verdade que sou eu o responsável e que todos os homens do meu grupo trabalham para mim – continuava o Ilberto, enquanto desapertava a correia e desabotoava as  marcas da brigalhera, para   baixar um pouco as calças e tirar o dinheiro que tinha escondido na algibeira “secreta”, no  interior das mesmas.
– É verdade que tenho aqui três contos de réis que recebi da venda do café, mais trezentas pesetas para pagar o comer aos meus homens durante a viagem – disse enquanto estendia a mão com o dinheiro para o seu captor.
- És um pássaro fino Ilberto português… és um pássaro fino! O homem tinha razão… mas não vai ser isso que te livra de sofreres as consequências do trabalho que fazes - disse enquanto ia contando as notas que o Ilberto lhe tinha passado para a mão, sem no entanto especificar a que homem se referia. Terminada a contagem pegou nas trezentas pesetas que o Ilberto referira como sendo para a alimentação e devolveu-lhas de novo, enquanto lhe dizia com palavras carregadas de cinismo: 
- Toma… leva o dinheiro que trazias para a bucha e alimenta bem os teus homens, que vão precisar de estar em forma na próxima vez que nos encontrar-mos. - Sem mais demora,  deu ordem de retirada aos seus homens, enquanto acenava com a mão ao Ilberto em modo de despedida, sem lhe dirigir qualquer palavra mais.
Tempos depois daquele primeiro encontro, o Ilberto confirmaria que a promessa do falangista - como passara a referi-lo sempre que falava dele – não tinha sido bluf. Mas também o Ilberto não tinha ignorado o aviso e desde esse dia tomara outras precauções. Tinham-no apanhado descalço na primeira vez e palmado o dinheiro todo mas, desde então, passou a dividi-lo em quantias variáveis, que distribuía depois por quatro ou cinco dos seus homens. A partir daí  tinha sido um pouco o jogo do gato e do rato. Por  vezes tinham sorte e conseguiam safar-se; outras eram apanhados um ou dois dos seus homens, umas vezes com dinheiro, outras sem nada e as coisas mantinham-se nesse pé. Por estranho que parecesse ao Ilberto, embora fosse bem mais fácil para os carabineiros deitarem-lhe a luva quando ainda transportavam as cargas, continuaram a não se cruzar com eles, pelo menos os de Gibraleón.
Certo dia, numa das passagens que esporadicamente fazia por Ayamonte...
(continua)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 4)

Caminhavam havia mais de quatro horas e segundo os cálculos do Ilberto não faltaria muito para deixarem Tariquejo para trás. Como estavam a aproximar-se dos arredores da povoação, seguiam em silêncio e  com um intervalo de cerca de cem metros entre cada homem, como o próprio  Ilberto exigia sempre que cruzavam zonas que considerava perigosas. Seguia e quarto lugar no grupo, e parou para mijar a cerca de vinte metros antes de chegar a uma pequena cabana que estava mesmo junto ao caminho e que provavelmente servia para o dono da horta ao lado se abrigar e guardar alguns instrumentos agrícolas, tendo sido alcançado nesse preciso local pelo Faustino, que seguia na retaguarda do grupo. 
Foi nesse momento que os carabineiros saíram de dentro da cabana onde estavam escondidos e lhes gritaram a ordem de paragem. O Ilberto, pela proximidade a que foram surpreendidos, nem sequer tentou fugir. Estavam campo aberto, sem qualquer vegetação, e sabia que se arriscava a levar um tiro porque aquela distância dificilmente falhariam e ele dificilmente lhes conseguiria escapar. Pelo contrário, o Faustino, moço novo sem medo e com sangue na guelra, cavou-as sem pensar duas vezes. Para espanto do Ilberto não houve tiros, mas de imediato um dos cinco homens foi no encalço do fugitivo.
Segundo o próprio Faustino admitiu mais tarde, o tipo aproximou-se com uma rapidez e uma facilidade  que o deixaram pasmado, e se a perseguição tivesse durado mais uns minutos, seguramente que se teria visto em papos de aranha com o gajo. Surpresa maior teve o Ilberto, quando de repente um dos quatro homens que lhe tinham deitado a luva gritou para o que perseguia o Faustino : compañhero, viene… es este o cabrón! De imediato o que ia no encalço do Faustino abandonou a perseguição e regressou para junto do grupo. 
De repente, o Ilberto fugiu-lhe o sangue das algibeiras: acabara de reconhecer o que gritara! Na sua frente estavam três carabineiros fardados, um sargento e dois praças, e o quarto, à civil, era nem mais nem menos do que um dos dois gajos que estavam na taberna do Paco. O que perseguira o Faustino vinha agora chegando junto deles e o Ilberto confirmou, já sem qualquer surpresa, que era o outro tipo da taberna.
As ideias na cabeça do Ilberto andavam num raboliço. Mas que porra dum cabrão é que se tinha passado ali… que merda era aquela? Não havia qualquer dúvida de que o queriam a ele e só a ele. Só isso explicava que tivessem deixado passar os primeiros três homens do grupo dele e muito provavelmente todos os do outro grupo porque, ou muito se enganava, ou os sacanas tinham vindo de carro e já lá estavam quando passaram os seus primeiros homens. A interrupção da perseguição ao Faustino, se os restantes não chegassem, era por si só motivo mais que suficiente para fundamentar essa suspeita. 
O Ilberto, homem experiente na vida de contrabandista, conhecedor dos meandros  e rotinas da fiscalização e controlo por parte das autoridades espanholas à atividade do contrabando, era foito por natureza e nunca conhecera o medo no exercício da sua profissão. Sabia os riscos que corria e assumia-os, mas não facilitava. Nem o facto de ter as costas quentes com a proteção de uma alta patente da Guarda Civil, que engraçara com ele vá lá saber-se porquê e que inclusive já o safara a ele e a alguns dos seus homens de vários apertos, fazia com que se descuidasse no cumprimento das “regras”. O seu código de conduta incluía, entre muitas outras coisas, o respeito pelas autoridades, a precaução e descrição levadas ao extremo, e principalmente o respeito absoluto pelo alheio e pela propriedade privada de todos os lugares por onde passavam. Os seus homens, era mais certo estarem dois dias sem ingerir qualquer alimento, do que apanharem um simples figo numa figueira, para matarem a fome. As regras estavam estabelecidas, eram conhecidas por todos, e quem as quebrasse pura e simplesmente deixava o grupo para sempre!
Mas agora começava e estar deveras preocupado. Apercebera-se já de que quem mexia ali os cordelinhos eram os dois gajos à civil. Falavam com uma autoridade e arrogância de tal ordem, que era claramente visível que infundiam respeito ou até receio aos  carabineiros.O próprio sargento notava-se que estava meio assovacado. Talvez fossem oficiais, falangistas, ou o diabo a quatro; o certo é que havia ali qualquer coisa que lhe estava a escapar. 
O que tinha mandado parar a perseguição ao Faustino e que parecia ser o chefe, dirigiu-se por fim ao Ilberto:
 - Bom… vamos lá despachar isto que não tenho muito tempo para perder. As coisas são simples e só dependem de ti: ou correm bem e segues o caminho para Portugal, ou correm mal e vamos dar um paseo… até Huelva! 
- O coração do Ilberto deu um pulo e começou a galopar como uma besta espantada.
- O que é que aquele cabrão estava a insinuar? Seria possível que o tivessem confundido com alguém e que aquilo fosse algo mais grave que o contrabando e que tivesse a ver com política? 
- Sabia que não estava comprometido a esse nível, porque mesmo em Portugal procurava não se envolver em merdas dessas, que davam sempre mau resultado. A exceção tinha sido a ajuda pontual a pouco mais de meia dúzia de homens, que ajudara a passar para irem a salto para França. E mesmo nesses casos, tinha-os levado apenas até aos arredores de Villarrasa, na margem esquerda do Rio Tinto, porque não gostava de aventurar-se em coisas que não dominava e zonas que não conhecia bem. Aí tinha-os deixado a cargo do José Andrés, o passador “profissional", que se encarregaria de os fazer chegar a França.
Passada a surpresa do primeiro momento, começara rapidamente a acalmar-se, até porque já notara um sorriso gosão na cara do sacana do falangista, ou lá o que o gajo fosse, que seguramente quisera acagaçá-lo com a alusão ao paseo. Agora, com a cabeça mais fria, interpretava já a frase num sentido “mais à português”. Quando o gajo dissera “vamos dar um paseo… até Huelva”...
(Continua)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 3)
Embora ainda não se tivesse decidido, andava há muito a matutar numa ideia que não havia meio de lhe sair da cabeça. A cisma tinha começado logo no dia das sortes, quando se desimaginou do sonho de ser guarda. A ideia tinha surgido pouco depois de ter embarcado em Vila Real no gasolina, com destino a Alcoutim. Enquanto subia o rio Guadiana, o Zé ia observando os muitos postos da Guarda Fiscal que estavam localizados num plano mais elevado, nas zonas sobranceiras da margem direita do rio. Observou igualmente que na margem esquerda, os postos dos Carabinerios eram em bastante menor número e deu consigo a pensar que os contrabandistas, uma vez passado o rio, talvez tivessem a vida um pouco mais facilitada no lado espanhol.
 De repente surgiu-lhe a ideia: então e se falasse com o Ilberto, para ele lhe dar trabalho na quadrilha de contrabandistas? Era arriscado para caraças, mas quem tem medo não come uvas! Agora, que a possibilidade de ser guarda tinha ido para o maneta, a única hipótese que conseguia lombrigar para mudar de vida, era meter-se no contrabando porque, à do lavrador, era garantido que não passava da cepa torta. O maior problema seria mesmo convencer o Ilberto a dar-lhe trabalho porque, segundo se dizia à boca pequena, o Ilberto era extremamente rigoroso na seleção dos seus homens, e o Zé sabia que não tinha propriamente fama de homem valente. Mas não perdia nada em tentar… o não já ele tinha certo!
Tinha sido a insistência do Faustino e do Cavaco, também eles membros do grupo de contrabandistas do Ilberto, que intercederam pelo Zé junto do chefe e que o convenceram a dar-lhe uma oportunidade. Quando falaram com ele para lhe encarecer o amigo, o Ilberto primeiro escangalhou-se rindo, para lhes dizer depois:
- O Zé Casemiro? Então mas vocês estão parvos? Pensam que eu não tenho amizade ao dinheiro? Devia ser bonito, na primeira vez que a guarda se metesse a rabo dele e ouvisse um tiro… ainda a bala não tinha tido tempo de sair da espingarda e já ele se tinha cagado na carga!
– O Faustino e o Cavaco concordaram com ele, mas apresentaram-lhe um argumento que deixou o Ilberto a pensar:
 -  O Zé até podia ser fraco; abandonar a carga ao mais pequeno sinal de perigo e fazer trinta por uma linha, mas uma coisa era certa: para a guarda lhe pôr as unhas em cima… só morto! Eles bem tinham visto naquele dia, na Casa Nova, o que o Zé era capaz de fazer quando sentia o rabinho apertado!
O Ilberto não deu logo o braço a torcer, mas ficou pensando no assunto. Em boa verdade, a rapidez do Zé podia vir a ser-lhe útil. 
Nos últimos tempos, tinha-lhe surgido um problema grave quando iam para os lados Gibraleón, que por sinal era precisamente a região onde tinha agora os principais clientes do negócio do contrabando. Primeiro tinha começando por estranhar a facilidade com que se movimentavam sem serem praticamente incomodados pelos carabineiros, enquanto transportavam as cargas. Quando ocasionalmente apareciam faziam meia dúzia de tiros, provavelmente para o ar, mas ficavam-se por aí e nem fugiam atrás deles para tentar apanhar as cargas! Aquilo cheirou-lhe a esturro, porque não era nem um pouco mais ou menos o que acontecia por regra. O Ilberto ficou desde logo desconfiado de que os carabineiros não queriam apanhá-los por qualquer motivo que não entendia, mas como ainda não tinha havido azar, foi ficando mais descansado.
A explicação tinha vindo uma noite, da pior forma possível para o Ilberto. Nessa semana, fiando-se um pouco na facilidade com que entravam em Gibraleón, jogou forte e tinha trazido mais quatro homens além dos cinco que era habitual. Como de costume, não teve qualquer problema e entregara dez cargas de café que lhe tinham rendido a bonita quantia de três contos de réis. Finalizado o negócio e como era hábito, meteu o dinheiro numa algibeira cosida dentro das calças. 
Durante o dia, para não dar nas vistas, cada um tinha ido para seu lado, mas à tardinha tinham-se juntado na taberna do Paco onde ficaram até ao cair da noite, altura em que estava combinado iniciarem o regresso. Tinham combinado que regressariam em dois grupos de cinco, seguindo a mesma rota, com uma hora de intervalo. O Ilberto tinha desconfiado de dois gajos sentados ao balcão que, ainda que estivessem à civil, ninguém lhe tirava da cabeça que não eram carabineiros. Altos e secos de carnes tinham, enfiadas na cabeça, cada um a sua gorra das que habitualmente eram usadas pelos pescadores, mas que ao Ilberto deixaram o incómodo pressentimento de que não jogavam com os cortes de cabelo à escovinha que ambos usavam. 
Ficou um pouco mais descansado quando os camaradas do primeiro grupo começaram a sair e os tipos não lhes deram qualquer atenção, continuando a falar entre si, cada um com o seu copo de vinho á frente. Achou estranho que se entretecem a sorver o mesmo copo de vinho durante mais de uma hora. Por precaução decidiu sair em último lugar e ficou mais tranquilo ao verificar que os tipos não tiveram qualquer reação quando os seus quatro camaradas de grupo começaram a sair. Cerca de cinco minutos depois de todos terem deixado a taberna, levantou-se e dirigiu-se ao balcão para pagar a conta. Estranhou a rapidez com que ambos emborcaram os copos de vinho e saíram para a rua imediatamente atrás de si. Parou para lhes estudar a reação, mas os gajos tinham passado sem lhe dar qualquer atenção, entrado num carro que tinham no outro lado da rua e arrancado em seguida. Mais descansado reuniu-se ao seu grupo que o esperava nos arrebaldes, já fora de Gibraleón. Na rota a utilizar no regresso a casa, passariam entre San Bartolomé de la Torre e Tariquejo, cortariam por cima de S. Silvestre de Guzmán e, uma vez alcançado o rio Guadiana, fariam a travessia a seguir à curva do Pontal, um pouco abaixo do Posto da Grandaça.
Caminhavam havia mais de quatro horas e, segundo os cálculos do Ilberto, não faltaria muito para deixarem Tariquejo para trás...
(Continua)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 2)
Depois de pegar na lebre pelas patas de trás e de lhe dar duas ou três taloucadas por detrás das orelhas com a mão em cutelo, como tantas vezes vira o pai fazer quando apanhava uma lebre ou um coelho vivo com a rateira, meteu a lebre no saco e abalou para o Monte, sem se aperceber sequer que tinha sido gozado pelos camaradas. Mais contente do que uma pega sem rabo ia feito à procura da malta, mas antes passou por casa para mostrar a lebre ao pai e à mãe. Foram eles que lhe abriram os olhos
- “Pailão dum cabrão!… não vês que só queriam fazer pouco de ti? Não lhe levas nada a lebre. A lebre come a gente…eles ficam fazendo cruzes, que é para não quererem ser espertos e fazer os outros parvos!” 
– O Zé deixou a lebre em casa e saiu disparado á cata dos camaradas. Encontrou-os ao pé do fogo, em casa do Lopes, mortos de festa. Mal o Zé entrou, por entre gargalhadas do grupo, o Lopes perguntou:
 - Então e os gambuzinos… apanhas-te muitos? 
- Mas para espanto de todos e contrariamente ao que esperavam, o Zé não vinha zangado! Apresentou-se mesmo com um sorriso de orelha a orelha, enquanto dizia para o grupo:
- Venham a vê-lo… está lá em minha casa! É um librão que nem um chibato, mas naquele não metem vocês o dente!
 - Dito isto, virou as costas e foi-se embora. De inicio não quiseram crer, mas a curiosidade foi mais forte e o Beatriz resolveu ir espreitar pelo postigo da casa do Zé. Era verdade: estiraçado em cima da pequena mesa da cozinha, lá estava o bicho! O Zé não tinha exagerado… parecia mesmo um chibato!
***
Vários meses haviam passado desde o dia da “caçada” na Casa Nova. A vida não estava fácil em lado nenhum. A Guerra na Europa estava no auge e Portugal  seguia uma política de zig-zag, enquanto o regime se mantinha de pedra e cal. Trabalho não havia. Emprego muito menos! O Zé, que sabia ler e escrever razoavelmente, ainda tinha sonhado em poder entrar para a Guarda, mas o sonho morreu no dia em que foi tirar sorte, quando lhe disseram que tinha ficado livre à tropa e lhe entregaram um papel para ir à Câmara de Alcoutim pagar as taxas. Sorte macaca… não indo à tropa, não podia ir para a Guarda!
Já havia tempos, desde que começara a conversar com a Maria Adelina, que magicava no mesmo assunto: ir para a guarda e ficar com um ordenado certo, que lhe ia permitir viver mais desafogado, deixar de estar ás tenças do pai e da mãe e dar outras condições de vida à Maria Adelina, quando se juntasse com ela. 
Tal como ele, a Maria Adelina labutava no campo de sol a sol. A monda, nos meses de fevereiro e março, ia fazê-la para os barros de Beja, integrando um rancho de moças e de mulheres que todos os anos, na mesma altura, partiam para o Alentejo, quase sempre a pé, com pouco mais do que a roupa que tinham vestida. Pouco tempo depois do regresso, quando a derrenguera da monda ainda mal desaparecera, era altura de voltar à carga, desta vez na ceifa à do lavrador Teixeira. Durante o resto do ano, trabalhava pontualmente à do lavrador, sempre que a chamassem, fosse qual fosse a tarefa: apanhar o mato novo do alqueve, apanha da azeitona, da amêndoa, da alfarroba e pouco mais, porque tudo o resto era feito pelas criadas da casa.
O Zé, por seu lado, quase poderia dizer-se que trabalhava à do lavrador desde que se lembrava de ser gente! Ainda gaiato, já por lá andava estrebuchando. O tempo para a brincadeira e para andar na retoiça com os outros gaiatos, praticamente o Zé não chegara a conhecê-lo. Começara por andar de zagal com o ti Eduardo, o moiral do lavrador, mal completara seis anos. Aos nove tinha passado para moço dos porcos, e a partir dos doze para moço das vacas. Aos dezasseis anos tomara posse, pela primeira vez, de uma parelha para lavrar ao lado dos ganhões mais experientes. 
A época da lavoura (que começava a preparar-se ainda no mês de setembro com a desmoita, o gradear, carregar e esborralhar o esterco, e enregar) tinha o seu início propriamente dito pela feira da praia, em meados do mês de outubro, quando se iniciava a sementeira. Atrás da sementeira vinha o alqueve e depois o atalho. Antes da ceifa, era ainda necessário cavar o milho nas várzeas do rio e da ribeira, cavar e desencaldeirar a vinha, cavar as figueiras e por aí fora. Depois da ceifa e do carrego da colheita para a eira, vinha uma das tarefas que mais amargava: a debulha e o carrego da palha para o palheiro.
Era demais para o Zé! Quando começou a conversar com a Adelina, tinha decidido mudar de vida. Havia de ter um emprego, uma coisa onde ganhasse a vida e, mais importante que tudo, uma casa e uns pedaços de terra seus para fabricar. Não tinha que estar às tenças de ninguém! A Adelina não precisaria mais de ir para a monda, nem de andar ajudiando com o corpo à do lavrador.  Poderia até comprar-lhe roupas novas e coisas bonitas, para não andar à vergonha das outras. Mas primeiro precisava de ter um raio dum emprego e ganhar dinheiro; só depois juntariam os trapinhos!
Durante muitos anos o Zé Casimiro tinha-se concertado para fazer as ditas temporadas e trabalhos à do lavrador Teixeira mas, além do trabalho amargar, não ganhava nem para mandar cantar um cego! Nesse ano, quando perdeu a esperança de ir para a Guarda, tinha-se recusado a trabalhar mais para o lavrador. O pai e a mãe bem lhe tinham moído a caganita:  que não tinham que lhe dar a fazer; que aquilo não era vida que chegasse a netos; que tinham seis bocas para alimentar e que não estavam para sustentar madraços, e que toma abaixo, e que toma acima...! Invariavelmente o Zé ripostava:
- Se for preciso passar fome, passo…mas pelo menos é uma fome descansada! Para a do Sr. Teixeira é que eu não vou a trabalhar mais, porque não me dá na gana! 
- Embora ainda não se tivesse decidido, havia muito que andava a matutar numa ideia que não havia meio de lhe sair da cabeça...
(Continua)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018


O Contrabandista (continuação 1)
O Zé virou a cabeça por cima do ombro para olhar de relance para o caminho e o coração ia-lhe parando. À curva tinha assomado nem mais nem menos do que uma patrulha da guarda! Se a arma tivesse sido disparada, o tiro dificilmente teria sido mais rápido do que o Zé. Barimbou-se na espingarda e desalvorou ao pontal abaixo, direito ao Barranco das Covas, pulando valados e estevas p’lo bico. Atrás de si ouvia gritar: - páára!... páára!… nem que eu corra três dias atrás de ti… eu apanho-te! – Deves apanhar mas há-de ser letche – pensava o Zé enquanto continuava a correr em direção ás Ervenhitas. Sabia que pôr-lhe as unhas em cima, não punham… ainda estava para nascer o primeiro que o apanhasse na carreira! E tinha razão, ou pelo menos da fama não se livrava. Era outra das suas particularidades porque, nas redondezas, não se dava notícia de ninguém que fugisse mais do que ele.
O Zé agora só pensava numa coisa: tinha que os despistar! Se os sacanas fossem tão teimosos como lhe quiseram fazer crer quando disseram que o apanhavam, nem que corressem atrás dele três dias a fio, tinham muito terreno que palmilhar. Era possível que lhe seguissem o rasto e o Zé só esperava que nenhum deles fosse a peça do “Descalço”, que além fugir que nem um galgo, tinha ainda fama de seguir o rasto duma pessoa com tanta eficácia como um podengo segue um coelho. Então, não fosse o diabo tecê-las, mais valia prevenir que remediar. A tirada ia ser grande! O Zé sempre ouvira o avô dizer que o seguro e o prevenir eram gêmeos. Invariavelmente o avô acrescentava depois: “o seguro morreu de velho e o prevenir é já muito, muito velhinho… mas ainda é vivo!”.
Nos cercados da Casa Nova, ao grupo do Beatriz do Lopes e do Cachopa, para fazer a festa,  juntaram-se os dois guardas que não eram outros senão o Faustino e o Cavaco, um com uma farda do pai, outro com a de um tio. O nengargado do Zé, nem tinha tido tempo de reparar que as fardas era uma da Guarda Republicana e outra da Guarda Fiscal. O grupo planeara tudo ao pormenor para fazer a parte ao Zé. O Cavaco e o Faustino iriam adiante, por outo caminho; levariam as fardas dos familiares escondidas dentro duma saca e, depois de as vestirem, agachavam-se perto do sítio onde o Zé ia ficar a fazer a porta às lebres. O resto do grupo iria para os cercados, fora de vista do Zé. Algum tempo depois o Lopes puxaria uma orelha à cadela para ela ganir, de forma que o Zé ouvisse e pensasse que estava a latir atrás duma peça de caça, ao mesmo tempo que lhe gritavam a avisar que ia uma lebre direito a ele. Os gritos seriam também o sinal para o Cavaco e o Faustino começarem a aproximar-se pelo caminho. Deveriam ir conversando para que a sua aproximação fosse  detetada, mas entendida pelo Zé como pura casualidade. Inicialmente e por estar à espera de ver assomar a lebre a todo o momento, embora fosse motivo de preocupação, o Zé não iria dar grande importância ao facto de estarem a aproximar-se pessoas. Iria pensar que era gente que vinha dos Montes do Rio ou de qualquer faiana do campo. Não se enganaram.
Só souberam depois: o Zé correu umas dezenas de quilómetros! Houve quem o visse passar à Várzea da Malhada na Ribeira da Foupana, em direção à Tenência; foi visto perto da Corte Velha e, já quase noite cerrada, alguém afiançou que tinha passado à Alcaria Cova. O certo é que só no outro dia os camaradas lhe puseram a vista em cima.
Durante algum tempo o Zé andou diferente com eles. A brincadeira pareceu-lhe mal, e durante uns tempos mal lhes dirigia a palavra. Mas todos eles sabiam que a zanga não duraria muito. Tinham crescido juntos e sabiam que o Zé não era de guardar rancores.
Alguns anos antes, ainda uns gazopos, tinham-lhe feito outra parte, mas dessa vez foi o Zé Casimiro que ficou a rir-se deles. Sabendo que o Zé as cortava à noite e que quando escurecia era incapaz de andar sozinho fora do Monte, tinham-se combinado para lhe fazer uma judiaria. Numa noite do mês de janeiro, com um escuro que nem um bréu, tinham convidado o Zé para irem à lebre ao gambuzino, para os cercados dos Guerreirinhos. Ao Zé, como era o mais novo, tocou-lhe a ficar com a saca. Ao fundo do cercado, ao pé do barranco, tinha sido deixado uma buraca na parede, junto ao chão, possivelmente para escoamento da água. Foi nesse local, no lado de fora do cercado, que deixaram o Zé com a saca aberta junto ao buraco da parede. O resto do grupo iriam começar lá no cerro a fazer barulho para espantar as lebres que por ali andassem. Como explicaram ao Zé, com um pouco de sorte, uma delas iria a correr para sair do cercado pelo buraco e ficaria dentro da saca! Como é obvio nenhum deles acreditava que pudessem apanhar coisa nenhuma e, depois de fingirem que andavam a bater o terreno, maquinaram-se para o Monte e deixaram o Zé sozinho nos cercados dos Guerreirinhos. Mas a verdade é que ás vezes há coisas do Diabo, e andava mesmo por ali uma lebre que, para fugir do cercado, teve a infeliz ideia de passar pelo buraco e acabou dentro da saca do Zé. Imediatamente este se pôs a gritar: - apanhei um!... apanhei um gambusino! - Mas como resposta teve apenas o silêncio da noite. No estado de euforia em que se encontrava, o Zé nem se lembrou que estava sozinho a mais de um quilómetro do Monte. Depois de pegar na lebre pelas patas de trás e de lhe dar duas ou três taloucadas por detrás das orelhas...
(Continua)

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Contrabandista

Aberta de repelão a porta rangeu nos gonzos, enquanto quem a empurrara estacou no meio de casa, proferindo apenas duas palavras: - “quero comer!...” - O tiro de uma peça não teria sido menos esperado, nem poderia ter causado maior impacto e sobressalto ás cinco pessoas que, sentadas à volta da pequena mesa, à luz trémula do candeeiro bica a petróleo, se preparavam para começar a cear. Como que impulsionadas pelo mesmo mecanismo tinham-se levantado em simultâneo, provocando um pequeno reboliço com o arrojar de cadeiras, incluindo a queda de uma delas e de um prato de esmalte ainda vazio que, caprichosamente e com um ruído metálico, ficara um pouco a bailar junto à mesa antes de se imobilizar por completo.
- Ai jasus… ai minha mãe do céu, que eu não posso crer em tal! – gritou a mulher, enquanto o marido murmurava repetidamente: - não pode ser!… não pode ser!… - Os três filhos do casal, olhando incrédulos, abriam e fechavam a boca sem articularem qualquer som. O recém-chegado, em virtude das reações que provocara, pareceu finalmente reparar que algo de anormal se passava e, enquanto a mulher começava a correr na sua direção, atirou de chofre:
 - Espere lá!... então mas que parvoeira é essa? Vocês estão bons da cabeça? - Na pequena divisão da casa do fogo, que servia também de cozinha, a luz mortiça do bica a petróleo lançava sombras fantasmagóricas nas paredes pintadas a ocre, tisnadas e amarelecidas pelo fumo. A reduzida visibilidade e a surpresa inicial, tinham feito com que só agora reparasse nas roupas pretas que todos envergavam.  De repente caiu em si!
***
Tudo começara um ano antes quando, nos primeiros dias do mês dos santos, tinha feito a sua estreia de contrabandista e ido pela primeira vez a Espanha com a quadrilha do Ilberto. Na altura, quem conhecia bem o Zé Casemiro, tinha-lhe custado a acreditar que o Zé se tivesse afoitado a dar aquele passo. De um modo geral era conhecido por ser um aldeaga, um fala barato, mas, mais do que a de tagarela, o que desde sempre lhe granjeara verdadeira fama era o facto de ser apontado como medroso. Ao próprio pai, com ar gozão, era comum ouvir-se-lhe:
- O m’é Zé’i?... Tem ma’i medo c’um viola! Tem medo até da assombra dele! - Que se acagaçava facilmente ninguém tinha dúvida, e muitas tinham sido as peças, pirraças e judiarias que lhe tinham feito à conta disso.
O vício e  gosto pela caça tinha sido o responsável por algumas dessas partidas. Uma das mais badaladas tinha sido a daquele dia em que a malta se havia combinado para lhe fazer uma parte. Depois de combinarem tudo entre si, chamaram o Zé e desafiaram-no para irem à caça. Segundo o Beatriz, andavam três ou quatro lebres acostumadas ás couves que o pai tinha numa cerca, no Barranco da Casa Nova. Já lhe tinham armado lá as rateiras, mas as putas das lebres parecia que tinham olhos nas patas. Andavam lá pelo meio, desbicotavam as couves todas, mas patear a rateira… tá queta Bia! A única maneira de as enganar só podia ser a tiro. As bichas tinham que estar alapardadas naqueles cercados ali à volta e não devia se muito difícil dar com elas. Fazia-se-lhes uma espreita numa porta baixa que havia junto ao caminho, ao fundo dos cercados, enquanto outros iam bater o terreno com dois ou três cães e procurar espantá-las naquela direção. Só havia um s’não: o Lopes tinha uma espingarda braba, de carregar p’la boca, e era bom atirador, mas nesse dia tinha acordado com um flato no pescoço que, embora já estivesse bastante melhor, impedia-o ainda de firmar bem a espingarda no ombro, de forma a poder atirar certeiramente. O resto da malta, bom… era melhor nem pensar nisso, que qualquer deles não acertava num cerro! Só se o Zé…
- Fico eu com a espingarda! Vou eu para lá - prontificou-se de imediato o Zé - e podem ter a certeza que se aparecer lá alguma, dá uma volta que nem um chibo… nem sabe do que morre! - Seguiram para o local onde o Zé deveria ficar a fazer a espera, a escassos cinquenta metros duma  portelinha, no caminho que vinha do Balurco e por onde, segundo o Lopes, havia fortes possibilidades de assomar uma lebre. Depois de lhe dar algumas instruções sobre a forma mais eficaz para atirar com êxito (não se podia tapar a peça de caça porque a espingarda tinha tendência a levantar o tiro), o Lopes partiu com o Beatriz e o Cachopa para começarem a bater o terreno umas centenas de metros mais acima, deixando o Zé no seu posto. Estava alerta e empenhado em fazer boa figura. Só pedia ás almas que aparecesse pelo menos uma lebre! Aos outros, que não tinham tido coragem de se oferecer para ficar com a espingarda, ia mostrar-lhes como é que se enxofra! Iam ficar a saber quem é Zé Dias!
Dez minutos depois ouviu gritar - “aí vááái …aí vááái!”- ao mesmo tempo que soava um cão latindo. Bom… na verdade parecia mais que estava ganindo, - pensou o Zé para consigo, enquanto redobrava a atenção para o local onde supostamente deveria assomar a lebre. Estava junto ao caminho, que atrás de si desaparecia numa curva a menos de cinquenta metros. Pareceu-lhe ouvir conversa nas suas costas mas, com o coração dando pulos e embizarrado como estava na portela, onde esperava a todo o momento ver aparecer a lebre, não deitou conta ao que lhe pareceu ouvir. Lá por trás do serro continuavam a ouvir-se os avisos:  - aí vááái… aí vai eeela! Parece uma cáábra!
Atrás de si, embora ainda extraposto, ouvia agora sem qualquer dúvida o som de conversa. - Porra!… óstia dum cabrão!…vinha alguém ao caminho acima! Olha que altura do caraças para aparecer gente! - O Zé virou a cabeça por cima do ombro para olhar de relance para o caminho e o coração ia-lhe parando...
(Continua)
O Pão (continuação 10)
Depois da Portela dos Pegos, onde se apartavam os caminhos das Choças e da Nora, o rasto seguia para o caminho da esquerda, direito ao Cerro da Agulha.
- Foi para o Balurco – disse o Ti Simão entredentes. Voltou novamente ao silêncio, que só quebraria um quilómetro mais à frente, quando disse de repente para a filha:
- Vê-lo? Além o cabrão!
Tinham chegado ao Barranco da Volta. Ligeiramente à direita do sítio onde o caminho cruzava o barranco, havia um pego de nascente que se mantinha com água o verão inteiro. Por serem bastante escaços, estes locais funcionavam como pequenos oásis, e eram extremamente concorridos durante todo o verão. Eram procurados não só pelas pessoas para darem de beber aos animais domésticos quando trabalhavam nas redondezas, mas principalmente por todo o tipo de aves e animais selvagens. Tal facto tornava-os por isso locais de excelência para a montagem dos mais diversos tipos de armadilhas para caçá-los. Para um leigo na matéria, tudo pareceria comum à volta do local. No entanto, a um observador treinado, bastava-lhe um olhar mais atento para ficar a saber que não era bem assim. Além dos sítios das esparrelas, das pedras dos banquetes e das loisas para a passarada miúda, que os gaiatos armavam diariamente, podiam igualmente ser localizados os vestígios de armadilhas colocadas pelos homens, para apanhar caça. Bastava um olhar, para localizar os sítios dos esparrelões, a varinha de esteva, os pauzinhos ou as forcas dos aboízes espetadas no chão, e que tinham sido armados para apanhar perdizes; as estacas dos arames e laços, as covas das rateiras para coelhos e lebres, forneciam indicadores claros de que durante a noite e nas primeiras e últimas horas do dia, o local era um autêntico campo minado. As armadilhas eram colocadas à tardinha, quando já não era previsível que se deslocassem ao local animais domésticos para beber e retiradas de manhã, antes de o local voltar a ser procurado para o mesmo fim.
Sentado no chão, à sombra dum loendreiro junto ao pego, estava a “presa” do Ti Simão. O garoto não exagerara quando descrevera a aparência do “catalão”. Cabelo e barba que havia anos não viam tesoura, descalço, roupa esfarrapada e olhar apático, desfiava uma ladainha incompreensível que lhe acentuava ainda mais a imagem de pailão. Junto dele, um varapau de jambuzo, a saca de serapilheira onde levava sabe-se lá que trogia... e em cima da saca o pão que levara sumiço. O Ti Simão aproximou-se sem dizer palavra, dobrou-se e apanhou o bordão de jambuzo. Só depois pôs os olhos no pão. Faltava-lhe um cascotinho que pela textura se via claramente ter sido partido à mão, indicador de que o pobre diabo nem uma faquinha usava. Apontando o pão com o bordão, o Ti Simão perguntou:
- De quem é aquele pão?
- É meu – respondeu o maltês começando a levantar-se.
- É teu, ou é meu? - A pergunta do Ti Simão não esperou resposta, já que coincidiu com o zunir do bordão em direção ao lombo do desgraçado maltês. O silêncio que reinara nos arredores até então, apenas quebrado pelo cantar constante e interrupto de algumas cigarras, camufladas nos troncos de árvores ou arbustos nas proximidades, foi de súbito quebrado por uma gritaria infernal, saída de três bocas e por motivos diferentes. Rolas, cotovias, picanços e outra passarada que estavam pousados na proximidade do pego, esperando que os intrusos deixassem o local, para irem beber, voaram assustados e em simultâneo num bater de asas barulhento. As cigarras calaram-se. O Ti Simão gritava enraivecido:
- Filho d’puta, qu’é  limp’t o sebo! Sacana de merda que eu mato-te! Queres mais pão? Toma lá outro! - O cacete que o Ti Simão segurava com as duas mãos subia e descia com rapidez, produzindo um som cavo quando atingia o alvo. O desgraçado maltês rebolava pelo chão numa gritaria medonha:
- Ai ói!.. .ai ói! ...deixe-me!... ai minha mãe! ai ói!
- A pequena Dolores, numa gritaria, chorava e puxava o pai, tentando desviá-lo do maltês, já com a  cabeça e cara ensanguentadas.
- Deixe-o, pai!... Deixe-o!... Não lhe bata mais que você mata-o, pai!
Foi a filha que o trouxe de volta à realidade. Parou de repente com a agressão, ficou a olhar uns segundos para o maltês, apanhou o pão e atirou-lhe ainda enraivecido: 
- Filho dum cabrão, que  a tua sorte foi a moça... não comias mais nenhum!
- Vamos embora, pai...vamos embora! - continuava a pequena Dolores aflita.
Atirou com o bordão para longe e, seguido de perto pela miúda, pôs-se a caminho de regresso ao monte. Antes de extraposer de vista, voltou de novo o olhar para o local do ajuste de contas. O maltês havia-se levantado, e estava de cócoras ao pé do pego lavando a cara ensanguentada.
- Vou-me caminho do bicho outra vez! Eu limpo -lhe o sebo! – rosnou dando meia volta. De imediato o caminho lhe foi barrado pela pequena Dolores, que rompeu de novo num choro aflito:
- Não pai!... não!... já lhe bateu muito... já temos o pão!... vamos embora pr’ó Monte!...
Voltou definitivamente as costas e, com o pão na mão, caminhou em direção ao Monte, seguido pela filha.

FIM

Balurco, julho de 2017
O Pão (continuação 9)
O ti Simão continuava sentado no pial, embora a ti Domingas já o tivesse chamado para casa umas poucas de vezes, e de lhe ter dito que “parecia que estava deslembrado”. Na rua as pessoas tinham dispersado havia muito, cada uma regressando aos seus afazeres. A alguns gaiatos que haviam ficado na brincadeira tinham-se entretanto juntado outros, formando nesse momento um grupo relativamente grande. Um dos mais novitos, que brincavam a poucos metros de distância num pequeno grupo, disse de repente para o que estava a seu lado:
- Não viste o catalão? Tinha umas barbas que lhe davam aqui… - exclamou o gaiato enquanto, com a mão em cutelo, tocava a meio da barriga. De imediato uma rapariguita com cerca de quatro anos, que fazia bolinhos de terra sentada no chão mesmo ao lado do ti Simão, pôs-se a apregoar com voz esganiçada:
- Eu também o vi! Eu também o vi!...
- O que é que tu viste Maria? – questionou-a o ti Simão, tomado por súbito interesse pela conversa dos gaiatos.
- Vi o velho da saca ti Simão… era um velho da saca!
O ti Simão levantou-se como que impelido por uma mola, enquanto bombardeava a gaiata com perguntas de repelão:
- Quando é que tu o vistes? Onde é que ele tava? Para onde é que ele foi?
- Vi-o inda’gora… passou lá á minha porta. Eu fugi para casa e disse á minha mãe que ia ali o velho da saca, mas ela não acreditou… não sei para onde é que ele foi! – exclamou a petiza deveras admirada por finalmente alguém adulto se mostrar interessado no seu relato.
- Eu vi para onde ele foi ti Simão – anunciou o gaiato que iniciara a conversa do catalão.
- Quando ele passou lá á nossa porta eu fugi também com a minha mana, mas depois fui-me a assomar e vi-o ir além ao pé do Poço do Lameiro… estraposeu direito à Portela dos Pegos!
Atravessando o terreiro a passo largo, o ti Simão dirigiu-se resoluto para a direção indicada como tendo sido a seguida pelo desconhecido, com a clara intenção de meter-se a rabo dele, enquanto ia dizendo a meia-voz:
- Foi aquele sacana! Está mais que visto… foi aquele filho d’puta que me limpou o pão. Mas espera lá que eu já te amanho!
Depois do pai abalar, a Dolores, que se mantivera à distância mas que não perdera palavra do que fora dito, deixou o grupo onde estava de forma despercebida, e pouco depois seguiu no encalço do pai. Quando o alcançou este ainda a mandou voltar para trás, mas vendo a determinação desta em acompanhá-lo, acabou por desistir. Antes de chegar ao sitio indicado pelos gaiatos, já o ti Simão tinha descoberto no caminho pegadas de pata descalça, classificando-as, sem grandes dúvidas, como sendo o rasto do maltês. Era seguramente um pobre diabo; um desses muitos deserdados do mundo que regularmente cruzavam os caminhos da serra, sem rumo certo, deslocando-se de povoação em povoação à procura de algo que lhes matasse a fome. Nem sempre o conseguiam, já que a solidariedade natural das gentes locais, não estando ferida de morte, estava no entanto bastante debilitada mercê dos tempos negros e malinos por que todos passavam. Na mente do ti Simão ia-se consolidando uma versão de como tudo se passara. O gajo tinha vindo pelo caminho do Barranco da Loba ou pelo da Portela da Ribeira e entrado pelo lado de baixo do Monte. Pouca gente o vira porque na hora do calor a maioria estavam recolhidos em casa. Quando passou à sua porta e viu o postigo aberto, meteu a cabeça, viu o pão em cima da mesa e não pensou duas vezes: deu-lhe a palmada! As meditações do ti Simão foram interrompidas pela pergunta da Dolores:
- Ó pai… então e se ele já lingou o pão, o que é que você lhe faz?
- O que é que eu lhe faço? Se o comeu… faz a digestão!
A filha riu-se com uma risa amarela, forçada, indicador claro do estado de nervosismo em que se encontrava. O instinto tinha-a posto no encalço do pai. Conhecia-o bem e sabia que se alcançasse o maltês, as coisas iriam ficar mesmo feias. No Monte todos lhe conheciam o feitio. Ainda há pouco, quando as pessoas se haviam juntado lá à porta ao ouvirem o lavarito, a Dolores tinha ouvido o ti Sequeira comentar:
- O Simão é um mãos abertas... o que tem não é dele; mas não lhe pisem os calos, porque quando lhe chega a mostarda ao nariz, não é flor que se cheire... têm que se pôr bem com ele!
Depois da Portela dos Pegos, onde se apartavam os caminhos das Choças e da Nora...
(continua)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Pão (continuação 8)
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça, com a qual teceram depois dois caniços de cana com cerca de dois metros de altura e comprimento suficiente para tapar o Esteiro do Vinagre de barreira a barreira. A idéia era tapar o esteiro com os caniços, quando a maré estivesse totalmente cheia e houvesse bastante peixe a circular no barranco, impedindo-os de voltarem ao rio. Depois seria só esperar que a maré vazasse e, quando estivesse escorrida, apanhar à mão os peixes que tinham ficado em seco. O grande problema seria colocar os caniços na água. Depois de discutir algumas possibilidades que foram sendo postas de parte por chegarem à conclusão de que dificilmente resultariam, chegaram a consenso sobre uma forma que lhes pareceu a mais correta. Procuraram paus um pouco mais altos que os caniços, fizeram um outro caniço com cerca de um metro de altura e, quando a maré estava vazia, colocaram-no transversalmente no esteiro enterrando-o na lama sensivelmente até meio. O caniço foi fixado com os paus que foram atanchados aos pares, um de cada lado do caniço, com intervalos de cerca de dois metros. Os peixes não entrariam quando a maré estivesse quase vazia, mas faziam-no durante mais de meia maré. A estrutura iria manter-se sem alteração três ou quatro dias, antes de tentarem a pescaria, para que os peixes se habituassem à sua presença. No dia escolhido para tapar o esteiro dormiram no local. Perto do sol posto, logo que a maré ficou escorrida, começaram a preparar a armadilha. Os dois caniços foram colocados entre os paus a uma altura suficiente para ficarem fora de água quando a maré estivesse cheia. Seguidamente foram seguros em três pontos de apoio; um ao meio do esteiro e um em cada extremidade. Foram atadas algumas pedras na base do caniço para o obrigar a descer mais rápido quando fossem soltos os pontos de apoio e o engenho ficou pronto a ser acionado. Agora seria só esperar que a maré estivesse cheia para, um pouco antes da mesma virar, soltarem os pontos de apoio e a estrutura funcionar como uma guilhotina.
Por volta das duas da manhã, pouco faltava para a maré estar apremada. A lua tinha sido cheia no dia anterior e a maré era viva, tendo subido bastante e praticamente chegado acima das barreiras. O Dias, que por conhecer melhor o ciclo das marés tinha ficado responsável por indicar a altura certa para descer o caniço, disse ao Ti Simão que estava na hora de o fazer, antes que a maré começasse a dar sinal de virar. Nessa altura, era previsível que muitos dos peixes que entretanto tinham subido para o esteiro, começassem a regressar ao rio, tornando-se por isso urgente cortar-lhes a retirada, antes que se pusessem na alheta. Posicionando-se um de cada lado do esteiro, soltaram os pontos de apoio e deixaram os caniços descerem até cruzarem-se com os que estavam no  fundo. Uma vez arreados, os caniços ficaram apenas com meio metro fora de água, medida manifestamente reduzida, como pouco depois verificaram. Logo que a maré virou e começou a descer, alguns peixes começaram a regressar ao rio, como tinham previsto. Só não tinham contado foi com o facto de o caniço não os deter, porque armavam um salto e catrapus... ficavam no outro lado! Tinham que remediar o assunto na próxima vez, acrescentando mais um bocado a altura dos caniços. Mas à medida que a maré descia, ia  diminuindo a quantidade de peixes que conseguiam transpor o caniço, sendo que quando o mesmo tinha cerca de um metro acima do nível da água, poucos eram os que conseguiam a proeza. Analisando o comportamento dos peixes enquanto a maré descia, chegaram à conclusão que se os caniços tivessem metro e meio fora de água, seriam praticamente intransponíveis, exceto por um ou outro saltor mais nervoso. Por outro lado, também quase que só os muges eram artistas a suficiente para saltar por cima dos caniços; todos os outros ou nem sequer tentavam, ou quando o faziam era tarde de mais porque a maré já descera demasiado e a barreira era agora intransponível.
Ao romper do dia, verificaram que a estrutura tinha funcionado na perfeição e que estava bem segura. Á media que a maré ia vazando começaram a ver a movimentação dos peixes, verificando com alegria que havia uma enorme quantidade deles que tinham ficado presos no esteiro. Por volta das sete da manhã, com a maré praticamente escorrida, entraram no esteiro e começaram a apanhar os peixes que saltavam na lama. Verificaram que a maioria dos muges tinham-se maquinado, pelo menos os maiores, e que só os mais pequenos não tinham saltado por cima do caniço. Em compensação havia uma enorme quantidade de barbos e de carpas; uma quantidade razoável de robalos e sáveis, e ainda bastante peixe miúdo que não conseguiam identificar as espécies. Começaram por recolher os peixes maiores, com destaque para duas carpas enormes, que rondariam os quatro a cinco quilos cada uma e que se apressaram a agachar, para o cabo Rocha nem sequer lhe dar o cheiro. Na opinião do Dias, era garantido que se o gajo as visse se cobiçava nelas. Assim era melhor nem lhe dar a hipótese de ficar luzindo o olho! – Levas barbos e carpas e já gozas! – tinha acrescentado o Dias. Depois da recolha completa, tinham enchido duas canastras que despejaram num péguinho do barranco, perto do poço do vinagre, onde lavaram o peixe para lhe retirar a lama do esteiro. Seriam perto de duas arrobas de peixe. Para partir a cara ao cabo Rocha encheram um cesto que seguidamente foram levar ao posto, e o restante dividiram-no entre os dois. Cada um se encarregaria depois de gerir a sua parte, sendo que muitos dos vizinhos de ambos seriam seguramente convidados.
***
O ti Simão continuava sentado no pial...
(continua)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O Pão (Continuação 7)
A pesca era outra safa para apaziguar a fome, mas havia já muitos meses que o ti Simão tinha que fazer mais de vinte quilómetros para tentar apanhar peixe para a refeição. Nos sítios onde normalmente os apanhava, que eram a ribeira e os barrancos, nesse ano não fora possível porque não chovera e, tanto uma como outros, estavam mais secos que um pau. Quando a ribeira tinha água à farta os barrancos corriam, era quase sempre fácil apanhar peixe para comer. Ainda antes do início da primavera, as pardelhas, as bogas, as paxonas, e outros peixes pequenos a que o ti Simão já ouvira chamar saramugos, começavam a entrar para os barrancos. Nessa época o ti Simão colocava em sítios estratégicos, normalmente nos correntes, alguns côvados de cana que atempadamente construíra. Não necessitavam de ser iscados. Os correntes eram estreitos e chatos, o que permitia colocar os côvados onde a veia de água fosse mais forte e tapar o resto com algumas fiadas de pedras, levando a que a possibilidade de os peixes passarem ao lado do côvado fossem muito reduzidas. Na ribeira, também era possível utilizar esta estratégia mas, devido à sua maior dimensão, só lá mais para o fim da primavera, quando o caudal fosse mais reduzido. Antes disso, na ribeira, só com um tresmalho ou  uma tarrafa, e isso eram peças de luxo que o ti Simão não tinha. Por vezes também armava côvados nos pegos mais fundos da ribeira, mas nesse caso tinham que ser iscados. Para esta modalidade o ti Simão tinha dois côvados que fizera em verga porque, para pescar ao fundo, os achava mais eficientes do que os de cana. Iscava-os com tremoços doces e algum milho se o tinha. Prendia-os com uma corda de junça e atava-lhe uma pedra para fazer peso e os manter no fundo do pego. Mas o peixe que apanhava desta forma era sempre pouco. No rio resultava muito melhor.
Uma vez chegado o verão, quando os pegos da ribeira começavam a baixar, era altura de pôr em pática outras estratégias. Primeiro, quando os pegos ainda tivessem bastante água, o ti Simão começava por apanhar os peixes à lapa Nestes casos procurava sempre os pegos onde houvesse mais pedras atenxadiças, desde que tivesse esconderijos onde os peixes se acolhiam. Em pegos onde não existiam esconderijos naturais, o ti Simão chegava a colocar pedras e fazer lapas artificiais onde os peixes se pudessem esconder, para depois, sorrateiramente, meter lá a mão e trinca-los. No fim do verão, quando o pego já tivesse pouca água, antes que secasse ou que as garças começassem a sua própria pescaria, era a altura de fazer a razia total aos peixes que tinham tido a sorte de iludir os pescadores até então. O ti Simão era raro usar esta técnica, só recorrendo a ela em casos excecionais. Tratava-se de embarbascar o pego. Era uma conjugação simples de determinadas plantas que, deitadas na água em certa quantidade, tinham a propriedade de deixarem os peixes tão zonzos, que se apanhavam à mão. A mistura era feita com uma planta chamada brabasco e crescia em muitos locais em abundância significativa. O ti Simão apanhava-a já depois de seca, pisava-a com uma pedra até ficar bem moída, misturando-a depois com munha de centeio e um pouco de água. Fazia pequenas bolas com a mistura, que depois atirava para a água. Algumas horas depois, todos os peixes do pego andavam à tona de água, tão bêbados, que era só apanhá-los e metê-los no cesto. Não era das coisas que mais agradava ao ti Simão, porque ficava com a sensação incómoda de estar a agir à falsa-fé; de ser uma luta desigual e da qual não havia qualquer possibilidade de salvação para os desgraçados dos peixes. Mas nesse ano nada disso tinha acontecido. Mesmo nos pegos de nascente que ainda tinham alguma água, os peixes tinham sido literalmente dizimados no ano anterior, e como nesse ano a ribeira e barrancos não voltaram a correr, não houve repovoamento com peixe de entrada.
A ausência de chuva fizera com que não houvesse pisca de água. Até mesmo os moirais tinham que percorrer grandes distâncias para encontrar na ribeira pegos com alguma água para os animais beberem.
Ao ti Simão restava a hipótese do rio para tentar apanhar algum peixe para comer e que era onde se havia entretido nesse ano, praticamente desde o inicio do verão, com meia dúzia de côvados de verga. Saía de casa logo de manhã. Levava o burro e as duas cabras e passava por lá o dia. Atava o burro e as cabras para pastarem, num local onde pudessem chegar  às sombras, e ia aos canaviais colher carriços para lhes reforçar a alimentação. Fazia uns cestinhos e umas canastras; recolhia verga nos freixos junto ao rio para fazer novos côvados; dormia uma folga, e à tardinha retirava os côvados da água para recolher o peixe e voltava a lança-los de novo à água. Antes de regressar ao Monte, por vezes já a caminho do mesmo, fazia uma paragem para procurar um sítio para armar a rateirinha.
Nesse verão, depois de muito magicar, tinha descoberto uma forma de apanhar peixe mais facilmente e em maior quantidade do que nos côvados. Era uma experiência que não conseguia pôr em prática sozinho e um dia, enquanto estava à folga junto ao poço do vinagre com o Dias do Marmeleiro, expôs-lhe a ideia e convidou-o para o ajudar a fazer a experiência. A questão é que era um sistema que dava muito nas vistas e era impossível fazê-lo pela calada,. Depois de discutir o assunto, decidiram dar conhecimento aos guardas do posto da Grandaça, que ficava bem perto do local escolhido. Quando lhes falaram nisso, e depois de explicar que não iriam usar qualquer rede e que seria tudo feito com ideias, o comandante do posto deu-lhes autorização para a pescaria. Pareceu-lhes que o cabo Rocha nem por sonhos acreditava que fossem apanhar qualquer peixe, porque lhes disse com ar de gozo:
- E não se esqueçam de nos trazer depois um cestinho de peixe!
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça...
(continua) 

domingo, 22 de julho de 2018


O Pão (Continuação 6)
Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade, começou a embarbilhá-los para os impedir de mamar a toda a hora e garantir que no início e no fim do dia, quando ordenhava as cabras, retirava uma maior quantidade de leite. Além da pequena quantidade que todos os dias consumiam, a ti Domingas conseguia ainda fazer dois queijinhos diários, que depois punha a secar num caniço de canas finas, que tinha na cozinha dependurado ao telhado.
Mas onde o ti Simão era um ás, era na arte da caça e da pesca, que lhe haviam garantido alimento durante uma grande parte do ano. Havia muito que perdera a conta ao número de coelhos que apanhara nesse ano, com a rateira que tinha mandado fazer ao ferreiro da aldeia do Pereiro. Bastava-lhe dar uma volta e examinar com cuidado veredas, espojeiros e caganiçais, para escolher com uma precisão quase infalível o local para enterrar o ferro que, no dia seguinte de manhã, tinha um coelho bem trincado pelo meio ou pelo cachaço. Só na atura da criação o ti Simão avagava um bocado. Não gostava de apanhar coelhas prenhas, ou que tivessem criação na caçapeira. Era bem melhor deixá-los crescer, que depois tinham tempo de ajustar contas
Com as perdizes, o tempo da criação era também sagrado. Nunca passaria pela cabeça ao ti Simão roubar um ninho de perdiz, ou apanhá-la no ninho, embora fosse a coisa mais simples  de fazer. Bastaria  um pequeno bocado de fio de sapateiro ou, na sua ausência, arrancar algumas sedas do rabo de uma besta, para fazer uma pequena trela em traça e armá-la com um nó corredio à entrada do ninho, que pouco depois a perdiz estaria lá enforcada. Havia várias razões para o ti Simão não fazer isso. Por um lado, não dava luta… não tinha ciência; era apanhar o bicho à falsa-fé! Por outro, se apanhasse a perdiz no ninho, comia apenas uma; se deixasse deitá-la a monte, poderia muito bem, com um pouco de sorte, apanhar cinco ou seis perdizes daquela criação alguns meses mais tarde. Quanto muito tirava meia dúzia de ovos a um ninho, para a ti Domingas pôr dentro dos folares da Pascoa. Mas este ano nem isso, porque a falta de farinha não permitira esse luxo. Assim, fazia a época do perdigão nos finais de abril, princípio de maio e as perdizes só começava a apanhá-las lá para o fim do verão. 
A caça ao perdigão era uma das artes que mais agradava ao ti Simão. Não só pela luta que dava mas também por ser praticamente inofensiva para a população de perdizes porque, mesmo apanhando o perdigão, a perdiz sozinha tirava e criava os perdigotos. A época estendia-se normalmente entre meados de abril e meados de maio, altura em que as perdizes começavam o choco e estavam deitadas em cima dos ovos. Era a época de cantar ao perdigão. A arte consistia em imitar o canto de uma perdiz, usando para o efeito um pequeno chamariz, a que na região se dava o nome de recaimo. Era um pequeno instrumento com cerca de dez centímetros de comprimento, feito artesanalmente de um bocado de madeira de nespereira ou de laranjeira. O bocado de madeira maciça era trabalhado até ficar afunilado nas duas extremidades e escavado ao centro para fazer uma caixa de ressonância, para dentro da qual convergiam dois pequenos tubos feitos de uma pena de grifo, um dos quais tapado com cera numa das extremidades. O recaimo do ti Simão tinha sido feito por ele próprio e usava-o com uma perícia tal, que muito raramente os perdigões desconfiavam do logro. Escolhia o local num pontalinho e fazia a taimeira com mato e arbustos verdes para se esconder. À volta fazia pequenos valados também com arbustos, deixando nalguns locais um pequeno espaço para o perdigão passar. Era nesse preciso local que o ti Simão colocava os aboízes, um tipo de armadilhas totalmente artesanais, bastando para construí-las cerca de cinquenta ou sessenta centímetros de fio de sapateiro para cada uma. O resto era feito com pauzinhos com os quais montava um mecanismo simples, sobre o qual era colocado o fio com um laço de correr. Quando o perdigão pisava os pauzinhos, o mecanismo era acionado por uma vara de esteva que tinha sido dobrada para fazer mola, e à qual estava atada a outra ponta do fio. Uma vez acionado o mecanismo, a vara soltava-se e com o impulso fechava o laço que prendia o perdigão pelas patas. O ti Simão saía então da taimeira, recolhia o perdigão, e voltava a montar o aboíz. Em dias de sorte, quando os bichos estavam mesmo destemidos, chegava a apanhar três ou quatro. Muitas vezes, quando estavam mais foitos, aproximavam-se dois ou três ao mesmo tempo e nessa altura era quase certo que se enfelpavam a guerrear. Embora fosse engraçado vê-los guerrear, o ti Simão não gostava que eles viessem em grupo, porque quando caísse o primeiro, os outros cavavam-nas e por vezes ficavam de tal forma trilhados que daí para o futuro desconfiavam facilmente da marosca e passavam a ser bastante mais cautelosos. Por vezes ficavam tão escarmentados, que tornava-se mesmo difícil conseguir que voltassem a aproximar-se da taimeira. Ficavam cantando a algumas dezenas de metros, empoleirados numa pedra, e para o lado da taimeiratá queta Bia!
A época melhor para apanhar as perdizes, era no fim do verão, quando as figueiras dessem a segunda camada de figos. Nessa altura, as perdizes da criação já não faziam praticamente diferença das velhas. Só os mais entendidos, como o ti Simão, lhe sabiam ver a diferença, pela cor de algumas penas. O ti Simão tinha meia dúzia de esparrelões, que ele próprio tinha feito para apanhar perdizes. Por vezes armava-lhe também loisas, que davam igualmente para apanhá-las, e em ambos os casos os figos serviam de isco. Após recolher todos os figos que eventualmente estivessem caídos no chão, debaixo das figueiras, montava as armadilhas. Embora as esparrelas de perdiz como o ti Simão lhe chamava, fossem mais práticas e fiáveis, muitas vezes usava também as loisas. Bastavam duas pedras e quatro pauzinhos com determinadas caraterísticas. Uma pedra era a chamada loisa e a outra o banquete. A armadilha montava-se com um bocadinho de cana a que era dado o nome de canilha, e três pauzinhos para armar o mecanismo (o pingalhete e as armas). Quando a perdiz fosse apanhar o figo que servia de isco era obrigada a acionar o mecanismo que, deixando subitamente de suportar a pedra da loisa, fazia com que a mesma caísse em cima da perdiz, que ficava debaixo da mesma. Estas mesmas artes, em dimensões mais reduzidas, eram também usadas para apanhar todo o tipo de passarada. Em tempos de menor necessidade, era atividade quase exclusiva dos gaiatos e jovens mas, agora, com a fominha a apertar, era também prática dos mais velhos e o ti Simão não era exceção.
A pesca era outra safa para apaziguar a fome...
(Continua)