segunda-feira, 16 de julho de 2018

O pão  (Continuação 1) 
Começava a sua própria sementeira uma boa semana antes do lavrador Teixeira, para quando este começasse a dele, estar livre para se concertar à do lavrador até final da época.
O ti Simão era considerado um dos melhores semeadores da região. Sabia puxar a semente quando semeava um vale, uma botelha ou outra terra grossa, e aliviar a mão em terra mais delgada. Como resultado, quando a seara nascia, não vinha junta nem rala, mas sempre no ponto certo. Quando despontava, raramente se conhecia o local dos regos das embelgas, como acontecia com a maioria dos semeadores menos experientes. Só depois do lavrador dar a sementeira por terminada, voltava a trabalhar mais alguns dias na sua. A primeira tinha sido um pouco temporoa  e esta última muito seroida, mas paciência, não havia alternativa. Antes da sementeira já havia deitado umas boas jornas à do lavrador, na preparação das terras. Primeiro a desmoita, onde cada homem, munido de uma cavadeira de peta, arrancava pela raiz espinhos lancios, cardos, funcho, travisqueiras ou qualquer outro arbusto que tivesse escapado ao ferro da charrua na altura do alqueive ou do atalho. Terminada a desmoita era necessário gradear e por fim carregar e esborralhar o esterco. A etapa final era enrregar, mas para essa tarefa o lavrador recorria exclusivamente ao serviço de dois dos homens mais famosos da região, na arte de lavrar direito. O ti Serina que trabalhava havia muitos anos na casa do lavrador Teixeira e o Luís do Marmeleiro, um jovem que o ti Serina treinara.  Dizia com orgulho que o Luís era do melhorzinho que podia haver, e que há muito era capaz de lhe passar um bigode. Os regos, por vezes com quase duzentos metros de comprimento, pareciam que tinham sido talhados com uma corda esticada. Se a embelga tinha quatro metros numa ponta da torna, podia ter-se a certeza que na outra ponta a medida era exatamente igual. Os regos ficavam mais direitos que um fuso e dava gosto olhar para as embelgas. Era nesta altura que o ti Simão aproveitava a semana para adiantar a sua sementeira o mais que pudesse. Saía de casa de madrugada e voltava pela noite adentro. Quando finalmente terminava a época das sementeiras ficava um pouco mais liberto. Ao longo do ano era sempre solicitado para deitar mais umas peonadas á do lavrador. Fosse a roçar ou apanhar mato, podar, cavar ou desencaldeirar vinha nas várzeas da ribeira ou do rio, ajudar a dar banho ás ovelhas no dia de S. João, ajudar na debulha ou qualquer outra tarefa, como o ti Simão costumava dizer, tudo o que vinha à rede era peixe. Quando o lavrador não solicitava os seus serviços, entretinha-se a fabricar as suas terras. Tinha já uma boa mancheia de árvores plantadas, principalmente amendoeiras, alfarrobeiras, figueiras e oliveiras. Embora ainda não dessem fruto e levasse ainda uns bons anos até poder tirar proveito delas, sempre era mais uma esperança. Nas alturas em que o trabalho do campo avagava mais um bocado, o ti Simão recolhia lenha e fazia carvão para vender. Enquanto o forno de carvão estivesse a arder, o que podia levar dois ou três dias, o ti Simão não se podia ausentar do pé dele, fosse dia ou noite. Se o forno abrisse um buraco, tinha que ser tapado para evitar a entrada de ar, que iria transformar todo o carvão em cinza, se a situação não fosse corrigida. Enquanto vigiava o forno, o ti Simão entretinha-se a fazer pequenas canastras em cana, que iria depois procurar vender juntamente com o carvão, porta a porta, em Castro Marim, Vila Real ou Monte Gordo. Os quase cinquenta quilómetros que o separavam destes locais de venda, eram feitos a andar, atrás dos dois burros carregados com as sacas de carvão e as canastras de cana. Á volta, depois das vendas, já podia vir acavalo nos burros e fazer a viagem de forma bem menos cansativa. Alguns anos antes, o ti Simão tinha ido a fazer as temporadas da ceifa para o Alentejo, mas agora, desde que começara a fazer também a sua própria sementeira, ficava-se por ali. Fazia a temporada á do lavrador Teixeira, enquanto a mulher ia fazendo a sua própria ceifa. Á noitinha, depois de deixar o trabalho á do lavrador, ia atar os molhos que a ti Domingas tinha ceifado durante o dia. Por vezes, principalmente quando havia lua, pegava na foice e ceifava ainda durante algumas horas, para dar um adianto ao trabalho da mulher que, embora não ganhasse a bandeira, também raramente ficava com a argola. Depois de deixar de fazer as ceifas no Alentejo tinha ainda ido um ano fazer uma temporada a Espanha, mas jurou para nunca mais. Não por causa do trabalho, mas porque as coisas por além andavam demasiado quentes. Um dia, em Gibraleon, viu dois homens serem mortos pelos guardas, como se fossem dois coelhos. Era opinião geral que as coisas em Espanha ainda iam azedar a sério. Desta maneira, com o pouco que ia colhendo da terra e alguns tostões que ganhava a trabalhar para fora, tinha ido dando para atamancar as coisas. O porquinho que engordava e metia na salgadeira, dava-lhes para o ano se condutassem com ele. Uns ovinhos que por vezes a ti Domingas trocava por sardinhas quando tinha uma quantidade maior; o leite da cabrinha, tudo ajudava a compor as coisas. A ti Domingas também era mulher de luta. Todos os anos ia fazer a temporada da monda ao Alentejo, o que lhes dava também a possibilidade de ganharem mais um dinheirito extra. Um ano, à volta, depois de terminada a temporada da monda, a ti Domingas tinha ficado uma semana a trabalhar na Mina de S. Domingos com mais duas camaradas. Apanhavam seixos brancos para umas alcofas de empreita e transportavam-nos para a fabrica de enxofre. Mas o trabalho, além de má de roer, era muito mal pago e depressa se barimbaram no ofício. Nos últimos anos, com uma achega daqui, outra dali, embora malamente, as coisas tinham-se ido equilibrando. Tinham, até esse ano… porque de repente tudo se tinha complicado... (Continua)

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