E agora? Como é que iam aguentar até ao ano
seguinte sem farinha para cozer uma única amassadura? A colheita do ano
anterior esgotara-se havia muito, porque pouco sobrara depois de pôr de lado
alguns alqueires de trigo e aveia para a sementeira que infelizmente resultara
na colheita que agora se via. O ti Simão tinha até pedido emprestados ao
lavrador Teixeira três alqueires de cevada
branca para semear e essa então não dera uma única espiga. Nesse ano teria
que voltar a empenhar-se outra vez
com o lavrador, e não seria só com a cevada branca. Iria precisar de pedir ao
lavrador toda a semente emprestada. Dez ou doze alqueires de trigo, sete ou
oito de aveia, três ou quatro de cevada, três ou quatro de tremoços e pelo
menos meio alqueire de centeio. A única coisa que não seria necessário pedir,
era a semente de linho. Tinha ainda dois litros de linhaça que a ti Domingas guardara para fazer algum emprasto ou outra mezinha,
com que pudesse acudir a alguma maleita
inesperada. Era semente velha e não a mais adequada para semear, mas dava para
desenrascar. Se tudo corresse bem, aquelas quantidades de semente deveriam
chegar. Se o triguinho desse pelo menos cinco sementes tinha um moio de colheita, o que quase lhe
garantia farinha para o ano, além de palha para as bestas. A aveia e cevada
garantia-lhe palha e grão para os
animais, os tremoços para ajudar a engordar o porco e o centeio destinava-se a
fornecer palha para encher os colchões da cama e fazer atilhos para na altura
da aceifa atar os molhos, quando a seara não tinha tamanho suficiente para
fazer os atilhos com a própria palha. Está bem que tinha que pagar depois ao
lavrador, o que ia logo à partida desfalcar
a colheita. Com a aveia, a cevada, o
centeio e os tremoços não havia problema. Dava menos à bicharada e estava
resolvido. Nada tinha ele agora para lhes dar e tinham que se aguentar!. O pior
era o raio do trigo! Pagar a dívida e deixar o suficiente para a sementeira
seguinte, limpava-lhe quase metade da colheita, o que significava que as
dificuldades iam continuar no ano seguinte. Embora ficasse quase despenado, para não ficar com fama de
mau paguilha, era melhor acertar logo as contas com o lavrador
Teixeira e voltar a pedir novo empréstimo quando precisasse. Mas logo se via! Como
dizia a ti Chica, enquanto o pau vai e
vem descansam as costas, e não valia pena preocupar-se agora com isso. Em
tempos achara piada quando ouvia a ti Chica, a mulher mais velha do Monte,
fazer certas comparações. Quando queria dizer que uma coisa era muito grande, a
ti Chica usava invariavelmente o mesmo dito:
- “Conho… que é quase do tamanho dum dia sem
pão!” Agora entendia melhor o alcance
dos ditos da velha. Um dia sem pão era um dia de fome, e os dias de fome
eram grandes! Custavam a passar. Custavam a passar; tinham já sido muitos e não
sabia quantos mais teriam que ser ainda. Puta
de vida… sorte dum cabrão! Mas quem havia de dizer que o raio do panito fazia tanta falta? Mas fazia. Sem pão, não havia
refeição! Para comer umas sopas, era preciso pão; para uma açorda, era preciso
pão; para um gaspacho, era preciso pão; para umas migas, era preciso pão… era
preciso pão para tudo! Nem que fosse para comer umas azeitonas; um bocado de
toucinho; de chouriça; de queijo, e por aí fora. As poucas refeições onde se
podia dispensar o pão, também não estavam ao alcance de toda a gente. Eram as
que não podiam ser tiradas diretamente da terra, como a massa ou o arroz por
exemplo, mas para as adquirir era preciso dinheiro, que também não havia. Uma
vez por outra, ainda vá lá… agora para matar a fome no dia a dia, estava fora de questão.
O fim do verão tinha chegado e com ele a aproximação da época da nova sementeira. As canículas tinham previsto para o próximo ano uma mudança radical do tempo. Quisesse Deus que fossem tão certeiras para o bem, como haviam sido para o mal. Renascia uma nova esperança. Ainda não tinha chegado o fim de setembro e o tempo já estava mudado.
A primeira quinzena
do mês das canículas não podia ter tido melhor previsão. O ti Sequeira
garantira que o próximo ano iria ser chuvoso e o ti Simão só esperava que ele
estivesse certo, como acontecera no ano anterior.
Logo no dia um de agosto, o primeiro dia das
canículas, tinha chuvinhado por duas
vezes. Como o primeiro representa o ano
inteiro, as coisas não podiam ter começado melhor. As canículas voltaram a
prever água para os meses de março e abril e novamente para o fim do ano. O ti
Sequeira estava radiante. O próximo ano ia ser um ano de fartura. Estava
particularmente contente com a previsão para o mês de abril, porque como se dizia, em abril, águas mil. Era a altura em
que as searas estavam a engradecer e
em que a chuva era mais benéfica. O ti Simão começava a estar mais confiante. Ainda havia muita lã que tingir até tudo
entrar nos eixos, mas as coisas
pareciam bem encaminhadas. As bagas das travisqueiras
engradeciam à carreira e muitas
estavam já vermelhas, o que apontava para uma época de sementeira mais temporoa nesse ano. Os jarros também
estavam nesse ano muito adiantados para a época. O ti Simão tinha mesmo
encontrado uma raboleira deles já com
candeias. Quando partiu algumas candeias, ficou mais contente que uma
pega sem rabo: nenhuma tinha menos de sete ou oito sementes. Segundo
os antigos, o número de sementes das
candeias dos jarros coincidia quase infalivelmente com o número de sementes que
as searas iam dar na colheita desse ano. Permitisse Deus que assim fosse,
porque os últimos tempos tinham sido duros
de roer, e já era altura de as coisas começarem a encarrilar. Já havia passado
muita fome com a mulher para...
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário