quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Pão (Continuação 3)

E agora? Como é que iam aguentar até ao ano seguinte sem farinha para cozer uma única amassadura? A colheita do ano anterior esgotara-se havia muito, porque pouco sobrara depois de pôr de lado alguns alqueires de trigo e aveia para a sementeira que infelizmente resultara na colheita que agora se via. O ti Simão tinha até pedido emprestados ao lavrador Teixeira três alqueires de cevada branca para semear e essa então não dera uma única espiga. Nesse ano teria que voltar a empenhar-se outra vez com o lavrador, e não seria só com a cevada branca. Iria precisar de pedir ao lavrador toda a semente emprestada. Dez ou doze alqueires de trigo, sete ou oito de aveia, três ou quatro de cevada, três ou quatro de tremoços e pelo menos meio alqueire de centeio. A única coisa que não seria necessário pedir, era a semente de linho. Tinha ainda dois litros de linhaça que a ti Domingas guardara para fazer algum emprasto ou outra mezinha, com que pudesse acudir a alguma maleita inesperada. Era semente velha e não a mais adequada para semear, mas dava para desenrascar. Se tudo corresse bem, aquelas quantidades de semente deveriam chegar. Se o triguinho desse pelo menos cinco sementes tinha um moio de colheita, o que quase lhe garantia farinha para o ano, além de palha para as bestas. A aveia e cevada garantia-lhe palha e grão para os animais, os tremoços para ajudar a engordar o porco e o centeio destinava-se a fornecer palha para encher os colchões da cama e fazer atilhos para na altura da aceifa atar os molhos, quando a seara não tinha tamanho suficiente para fazer os atilhos com a própria palha. Está bem que tinha que pagar depois ao lavrador, o que ia logo à partida desfalcar a colheita.  Com a aveia, a cevada, o centeio e os tremoços não havia problema. Dava menos à bicharada e estava resolvido. Nada tinha ele agora para lhes dar e tinham que se aguentar!. O pior era o raio do trigo! Pagar a dívida e deixar o suficiente para a sementeira seguinte, limpava-lhe quase metade da colheita, o que significava que as dificuldades iam continuar no ano seguinte. Embora ficasse quase despenado, para não ficar com fama de mau paguilha, era melhor acertar logo as contas com o lavrador Teixeira e voltar a pedir novo empréstimo quando precisasse. Mas logo se via! Como dizia a ti Chica, enquanto o pau vai e vem descansam as costas, e não valia pena preocupar-se agora com isso. Em tempos achara piada quando ouvia a ti Chica, a mulher mais velha do Monte, fazer certas comparações. Quando queria dizer que uma coisa era muito grande, a ti Chica usava invariavelmente o mesmo dito:
- “Conho… que é quase do tamanho dum dia sem pão!” Agora entendia melhor o alcance dos ditos da velha. Um dia sem pão era um dia de fome, e os dias de fome eram grandes! Custavam a passar. Custavam a passar; tinham já sido muitos e não sabia quantos mais teriam que ser ainda. Puta de vida… sorte dum cabrão! Mas quem havia de dizer que o raio do panito fazia tanta falta? Mas fazia. Sem pão, não havia refeição! Para comer umas sopas, era preciso pão; para uma açorda, era preciso pão; para um gaspacho, era preciso pão; para umas migas, era preciso pão… era preciso pão para tudo! Nem que fosse para comer umas azeitonas; um bocado de toucinho; de chouriça; de queijo, e por aí fora. As poucas refeições onde se podia dispensar o pão, também não estavam ao alcance de toda a gente. Eram as que não podiam ser tiradas diretamente da terra, como a massa ou o arroz por exemplo, mas para as adquirir era preciso dinheiro, que também não havia. Uma vez por outra, ainda vá lá… agora para matar a fome no dia a dia, estava fora de questão.

O fim do verão tinha chegado e com ele a aproximação da época da nova sementeira. As canículas tinham previsto para o próximo ano uma mudança radical do tempo. Quisesse Deus que fossem tão certeiras para o bem, como haviam sido para o mal. Renascia uma nova esperança. Ainda não tinha chegado o fim de setembro e o tempo já estava mudado.
A primeira quinzena do mês das canículas não podia ter tido melhor previsão. O ti Sequeira garantira que o próximo ano iria ser chuvoso e o ti Simão só esperava que ele estivesse certo, como acontecera no ano anterior.
Logo no dia um de agosto, o primeiro dia das canículas, tinha chuvinhado por duas vezes. Como o primeiro representa o ano inteiro, as coisas não podiam ter começado melhor. As canículas voltaram a prever água para os meses de março e abril e novamente para o fim do ano. O ti Sequeira estava radiante. O próximo ano ia ser um ano de fartura. Estava particularmente contente com a previsão para o mês de abril, porque como se dizia, em abril, águas mil. Era a altura em que as searas estavam a engradecer e em que a chuva era mais benéfica. O ti Simão começava a estar mais confiante. Ainda havia muita lã que tingir até tudo entrar nos eixos, mas as coisas pareciam bem encaminhadas. As bagas das travisqueiras engradeciam à carreira e muitas estavam já vermelhas, o que apontava para uma época de sementeira mais temporoa nesse ano. Os jarros também estavam nesse ano muito adiantados para a época. O ti Simão tinha mesmo encontrado uma raboleira deles já com candeias. Quando partiu algumas candeias, ficou mais contente que uma pega sem rabo: nenhuma tinha menos de sete ou oito sementes. Segundo os antigos, o número de sementes das candeias dos jarros coincidia quase infalivelmente com o número de sementes que as searas iam dar na colheita desse ano. Permitisse Deus que assim fosse, porque os últimos tempos tinham sido duros de roer, e já era altura de as coisas começarem a encarrilar. Já havia passado muita fome com a mulher para...
 (continua)

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