O Pão (Continuação 5)
– Logo vês… um panito tenho eu que arranjar! Não
levou o burro, porque sabia que a carga que se propunha trazer não ia
pesar-lhe. Pôs uma talega vazia a tiracolo e ainda lusco-fusco, abalou a
caminho de Alcoutim. Chegou quase três horas depois e dirigiu-se para a porta da
Câmara. Não foi sequer dos primeiros a chegar. Sentados no chão e encostados às
paredes à volta, havia já mais de vinte pessoas, que como ele haviam decidido
passar a noite junto à Camara, para garantir que ficavam na frente da bicha
para a atribuição das senhas. Havia gente um pouco de todo o lado. Muitos da
freguesia de Alcoutim, mas também de outras partes do concelho. Alguns tinham
saído de casa nesse dia à hora do almoço. O ti Simão ia metendo conversa com um
e com outro, principalmente com aqueles que conhecia mais mal. O objetivo era apalpar o terreno, para pôr em prática a
ideia que tinha em mente. A maioria era gente cuja sorte não era muito
diferente da sua, e que como ele estavam também mais tesos que um carapau. Mas havia alguns que, pelo que se
apercebeu, tinham dinheiro suficiente para comprar pão. Era o caso de um homem
que se queixava de que, mesmo tendo dinheiro, as senhas a que tinha direito
eram sempre poucas para comprar a farinha que precisava. Quando o ouviu
queixar-se, o ti Simão saiu-se com esta:
- Bom… parece
que se juntou a fome à vontade de comer! Você não pode comprar mais farinha
porque, embora tenha dinheiro para isso, faltam-lhe senhas, e eu vou receber
senhas que não posso usar, porque não tenho dinheiro. Então, se você quiser, fazemos um trato: eu dou-lhe a minha
senha da farinha e você dá-me um pão cozido em troca.
– Negócio fechado
- retorquiu o homem, estendendo a mão ao ti Simão que a apertou com genica. – Quando
recebermos as senhas amanhã, vai comigo até ao meu Monte e trás o panito de
volta, que a minha patroa cozeu hoje
a amassadura. - O ti Simão ainda franziu a testa quando soube que o homem
morava nas Soudes, mas não deu parte de
fraco. Estava feito… palavra de homem
não volta atrás! Ainda era um esticão dum cabrão da Palmeira até ás Soudes,
seguramente quase três horas para cada lado, mas tempo era coisa que não lhe
faltava. Por volta das duas da tarde, depois de ter palmilhado mais de cinquenta quilómetros a butes à conta do pão, estava de regresso a casa. A fome tinha
sido aliviada por uma barrigada e
figos lampos, que apanhou numa corga de
figueiras perto do moinho da Cortelha. Mais
contente que uma pega sem rabo, tinha dado a boa nova à mulher: conseguira
arranjar um pão em troca da senha. Como o fulano das Soudes com quem negociara,
lhe tinha dito que a mulher cozera nessa tarde, tinha resolvido ir logo
recolher o pão. Dissera à ti Domingas para não dizer nada aos filhos, porque
lhes queria fazer uma surpresa. Principalmente o pequeno Martinho, havia já algum tempo que inquiria frequentemente:
- Quando
é que temos pão outra vez pai? - Ia ser hoje. Havia tanto tempo que ninguém
comia uma côdea de pão naquela casa, que lhe apetecia mesmo poder finalmente
oferecer uma refeição em condições aos filhos. A ti Domingas havia muito que
andava a queixar-se que a caroca e a pardês, as duas galinhas mais velhas que
tinha, já não punham ovos em condições. Dizia que de vez em quando punham ovos
que mais pareciam de rola, que nem gema tinham, e que mais dia menos dia cortava-lhes
o cachaço. Lembrando-se disso, o ti Simão sugeriu à mulher que matasse uma
delas para fazer um guisado para esse dia. A outra ficava ainda para acudir a
alguma falta. O ti Simão esfregava as mãos de contente. Ia ser um dia de festa.
Porra, que já era tempo de se matar a fome em condições, pelo menos por um dia.
Desde o início do ano que as coisas estavam difíceis no que tocava ao panito. O
último pão que a mulher cozera com farinha da sua própria colheita, tinha sido
ainda antes do Natal do ano anterior. Daí para a frente, conseguira de longe a
longe cozer uma amassadura, quando era possível arranjar algum dinheiro que lhe
permitisse comprar uns quilos de farinha através das senhas. E não tinha sido
mais de meia dúzia de vezes, nos últimos nove meses. Para dizer que não tinham
passado mal, era mentira. A fome tinha-os apoquentado por muitas vezes,
principalmente a ele e à mulher, que sempre que a comida era pouca procuravam
minimizar a fome dos filhos, ficando eles próprios muitas vezes com a barriga a dar estralos. Ainda assim a
situação nem de perto tinha sido tão má como a que acontecia em muitas casas do
Monte, onde a fominha era negra dia
sim, dia sim.
Costuma dizer-se que a fome
aguça o engenho e o ti Simão fazia jus ao dito. Dotado de uma boa dose de
astúcia e habilidade, liberto do trabalho do campo que lhe deixara tempo para dar e vender, o ti Simão
empenhara-se a fundo em acarear para comer. Explorava ao pormenor todas as
possibilidades de resgatar da natureza o alimento para matar a fome à família.
Quando no início do ano viu o estado em que as sementeiras ficaram,
apercebera-se de imediato do que aí vinha, e o mau tempo não o apanhou descalço. Ainda antes do Natal instruiu a mulher
para, á medida que as galinhas fossem agarrando
no choco, deitar duas ou três em cima das respetivas linhadas de ovos. Os pintos criavam-se à perna solta e sempre eram uma garantia de alimento; quando fosse
necessário, matariam um para comer. Embora nem tudo tivesse corrido bem com as
duas cabras que tinha, já que uma delas maleou
a poucos dias de criar, a outra pariu
dois chibos que o ti Simão trocou três meses depois por dois bácoros pequenos. Seriam também
engordados à perna solta e
permitiam-lhe fazer mais um varal de chouriças, carne de conserva, presunto, e
toucinho para substituir o azeite nos cozinhados. Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade---
Continua.
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