sábado, 21 de julho de 2018

O Pão  (Continuação 5)

– Logo vês… um panito tenho eu que arranjar! Não levou o burro, porque sabia que a carga que se propunha trazer não ia pesar-lhe. Pôs uma talega vazia a tiracolo e ainda lusco-fusco, abalou a caminho de Alcoutim. Chegou quase três horas depois e dirigiu-se para a porta da Câmara. Não foi sequer dos primeiros a chegar. Sentados no chão e encostados às paredes à volta, havia já mais de vinte pessoas, que como ele haviam decidido passar a noite junto à Camara, para garantir que ficavam na frente da bicha para a atribuição das senhas. Havia gente um pouco de todo o lado. Muitos da freguesia de Alcoutim, mas também de outras partes do concelho. Alguns tinham saído de casa nesse dia à hora do almoço. O ti Simão ia metendo conversa com um e com outro, principalmente com aqueles que conhecia mais mal. O objetivo era apalpar o terreno, para pôr em prática a ideia que tinha em mente. A maioria era gente cuja sorte não era muito diferente da sua, e que como ele estavam também mais tesos que um carapau. Mas havia alguns que, pelo que se apercebeu, tinham dinheiro suficiente para comprar pão. Era o caso de um homem que se queixava de que, mesmo tendo dinheiro, as senhas a que tinha direito eram sempre poucas para comprar a farinha que precisava. Quando o ouviu queixar-se, o ti Simão saiu-se com esta:
 - Bom… parece que se juntou a fome à vontade de comer! Você não pode comprar mais farinha porque, embora tenha dinheiro para isso, faltam-lhe senhas, e eu vou receber senhas que não posso usar, porque não tenho dinheiro. Então, se você quiser, fazemos um trato: eu dou-lhe a minha senha da farinha e você dá-me um pão cozido em troca.
– Negócio fechado - retorquiu o homem, estendendo a mão ao ti Simão que a apertou com genica. – Quando recebermos as senhas amanhã, vai comigo até ao meu Monte e trás o panito de volta, que a minha patroa cozeu hoje a amassadura. - O ti Simão ainda franziu a testa quando soube que o homem morava nas Soudes, mas não deu parte de fraco. Estava feito… palavra de homem não volta atrás! Ainda era um esticão dum cabrão da Palmeira até ás Soudes, seguramente quase três horas para cada lado, mas tempo era coisa que não lhe faltava. Por volta das duas da tarde, depois de ter palmilhado mais de cinquenta quilómetros a butes à conta do pão, estava de regresso a casa. A fome tinha sido aliviada por uma barrigada e figos lampos, que apanhou numa corga de figueiras perto do moinho da Cortelha. Mais contente que uma pega sem rabo, tinha dado a boa nova à mulher: conseguira arranjar um pão em troca da senha. Como o fulano das Soudes com quem negociara, lhe tinha dito que a mulher cozera nessa tarde, tinha resolvido ir logo recolher o pão. Dissera à ti Domingas para não dizer nada aos filhos, porque lhes queria fazer uma surpresa. Principalmente o pequeno Martinho, havia já algum tempo que inquiria frequentemente:
 - Quando é que temos pão outra vez pai? - Ia ser hoje. Havia tanto tempo que ninguém comia uma côdea de pão naquela casa, que lhe apetecia mesmo poder finalmente oferecer uma refeição em condições aos filhos. A ti Domingas havia muito que andava a queixar-se que a caroca e a pardês, as duas galinhas mais velhas que tinha, já não punham ovos em condições. Dizia que de vez em quando punham ovos que mais pareciam de rola, que nem gema tinham, e que mais dia menos dia cortava-lhes o cachaço. Lembrando-se disso, o ti Simão sugeriu à mulher que matasse uma delas para fazer um guisado para esse dia. A outra ficava ainda para acudir a alguma falta. O ti Simão esfregava as mãos de contente. Ia ser um dia de festa. Porra, que já era tempo de se matar a fome em condições, pelo menos por um dia. Desde o início do ano que as coisas estavam difíceis no que tocava ao panito. O último pão que a mulher cozera com farinha da sua própria colheita, tinha sido ainda antes do Natal do ano anterior. Daí para a frente, conseguira de longe a longe cozer uma amassadura, quando era possível arranjar algum dinheiro que lhe permitisse comprar uns quilos de farinha através das senhas. E não tinha sido mais de meia dúzia de vezes, nos últimos nove meses. Para dizer que não tinham passado mal, era mentira. A fome tinha-os apoquentado por muitas vezes, principalmente a ele e à mulher, que sempre que a comida era pouca procuravam minimizar a fome dos filhos, ficando eles próprios muitas vezes com a barriga a dar estralos. Ainda assim a situação nem de perto tinha sido tão má como a que acontecia em muitas casas do Monte, onde a fominha era negra dia sim, dia sim. 
Costuma dizer-se que a fome aguça o engenho e o ti Simão fazia jus ao dito. Dotado de uma boa dose de astúcia e habilidade, liberto do trabalho do campo que lhe deixara tempo para dar e vender, o ti Simão empenhara-se a fundo em acarear para comer. Explorava ao pormenor todas as possibilidades de resgatar da natureza o alimento para matar a fome à família. Quando no início do ano viu o estado em que as sementeiras ficaram, apercebera-se de imediato do que aí vinha, e o mau tempo não o apanhou descalço. Ainda antes do Natal instruiu a mulher para, á medida que as galinhas fossem agarrando no choco, deitar duas ou três em cima das respetivas linhadas de ovos. Os pintos criavam-se à perna solta e sempre eram uma garantia de alimento; quando fosse necessário, matariam um para comer. Embora nem tudo tivesse corrido bem com as duas cabras que tinha, já que uma delas maleou a poucos dias de criar, a outra pariu dois chibos que o ti Simão trocou três meses depois por dois bácoros pequenos. Seriam também engordados à perna solta e permitiam-lhe fazer mais um varal de chouriças, carne de conserva, presunto, e toucinho para substituir o azeite nos cozinhados. Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade---
Continua.

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