quinta-feira, 26 de julho de 2018

O Pão (Continuação 7)
A pesca era outra safa para apaziguar a fome, mas havia já muitos meses que o ti Simão tinha que fazer mais de vinte quilómetros para tentar apanhar peixe para a refeição. Nos sítios onde normalmente os apanhava, que eram a ribeira e os barrancos, nesse ano não fora possível porque não chovera e, tanto uma como outros, estavam mais secos que um pau. Quando a ribeira tinha água à farta os barrancos corriam, era quase sempre fácil apanhar peixe para comer. Ainda antes do início da primavera, as pardelhas, as bogas, as paxonas, e outros peixes pequenos a que o ti Simão já ouvira chamar saramugos, começavam a entrar para os barrancos. Nessa época o ti Simão colocava em sítios estratégicos, normalmente nos correntes, alguns côvados de cana que atempadamente construíra. Não necessitavam de ser iscados. Os correntes eram estreitos e chatos, o que permitia colocar os côvados onde a veia de água fosse mais forte e tapar o resto com algumas fiadas de pedras, levando a que a possibilidade de os peixes passarem ao lado do côvado fossem muito reduzidas. Na ribeira, também era possível utilizar esta estratégia mas, devido à sua maior dimensão, só lá mais para o fim da primavera, quando o caudal fosse mais reduzido. Antes disso, na ribeira, só com um tresmalho ou  uma tarrafa, e isso eram peças de luxo que o ti Simão não tinha. Por vezes também armava côvados nos pegos mais fundos da ribeira, mas nesse caso tinham que ser iscados. Para esta modalidade o ti Simão tinha dois côvados que fizera em verga porque, para pescar ao fundo, os achava mais eficientes do que os de cana. Iscava-os com tremoços doces e algum milho se o tinha. Prendia-os com uma corda de junça e atava-lhe uma pedra para fazer peso e os manter no fundo do pego. Mas o peixe que apanhava desta forma era sempre pouco. No rio resultava muito melhor.
Uma vez chegado o verão, quando os pegos da ribeira começavam a baixar, era altura de pôr em pática outras estratégias. Primeiro, quando os pegos ainda tivessem bastante água, o ti Simão começava por apanhar os peixes à lapa Nestes casos procurava sempre os pegos onde houvesse mais pedras atenxadiças, desde que tivesse esconderijos onde os peixes se acolhiam. Em pegos onde não existiam esconderijos naturais, o ti Simão chegava a colocar pedras e fazer lapas artificiais onde os peixes se pudessem esconder, para depois, sorrateiramente, meter lá a mão e trinca-los. No fim do verão, quando o pego já tivesse pouca água, antes que secasse ou que as garças começassem a sua própria pescaria, era a altura de fazer a razia total aos peixes que tinham tido a sorte de iludir os pescadores até então. O ti Simão era raro usar esta técnica, só recorrendo a ela em casos excecionais. Tratava-se de embarbascar o pego. Era uma conjugação simples de determinadas plantas que, deitadas na água em certa quantidade, tinham a propriedade de deixarem os peixes tão zonzos, que se apanhavam à mão. A mistura era feita com uma planta chamada brabasco e crescia em muitos locais em abundância significativa. O ti Simão apanhava-a já depois de seca, pisava-a com uma pedra até ficar bem moída, misturando-a depois com munha de centeio e um pouco de água. Fazia pequenas bolas com a mistura, que depois atirava para a água. Algumas horas depois, todos os peixes do pego andavam à tona de água, tão bêbados, que era só apanhá-los e metê-los no cesto. Não era das coisas que mais agradava ao ti Simão, porque ficava com a sensação incómoda de estar a agir à falsa-fé; de ser uma luta desigual e da qual não havia qualquer possibilidade de salvação para os desgraçados dos peixes. Mas nesse ano nada disso tinha acontecido. Mesmo nos pegos de nascente que ainda tinham alguma água, os peixes tinham sido literalmente dizimados no ano anterior, e como nesse ano a ribeira e barrancos não voltaram a correr, não houve repovoamento com peixe de entrada.
A ausência de chuva fizera com que não houvesse pisca de água. Até mesmo os moirais tinham que percorrer grandes distâncias para encontrar na ribeira pegos com alguma água para os animais beberem.
Ao ti Simão restava a hipótese do rio para tentar apanhar algum peixe para comer e que era onde se havia entretido nesse ano, praticamente desde o inicio do verão, com meia dúzia de côvados de verga. Saía de casa logo de manhã. Levava o burro e as duas cabras e passava por lá o dia. Atava o burro e as cabras para pastarem, num local onde pudessem chegar  às sombras, e ia aos canaviais colher carriços para lhes reforçar a alimentação. Fazia uns cestinhos e umas canastras; recolhia verga nos freixos junto ao rio para fazer novos côvados; dormia uma folga, e à tardinha retirava os côvados da água para recolher o peixe e voltava a lança-los de novo à água. Antes de regressar ao Monte, por vezes já a caminho do mesmo, fazia uma paragem para procurar um sítio para armar a rateirinha.
Nesse verão, depois de muito magicar, tinha descoberto uma forma de apanhar peixe mais facilmente e em maior quantidade do que nos côvados. Era uma experiência que não conseguia pôr em prática sozinho e um dia, enquanto estava à folga junto ao poço do vinagre com o Dias do Marmeleiro, expôs-lhe a ideia e convidou-o para o ajudar a fazer a experiência. A questão é que era um sistema que dava muito nas vistas e era impossível fazê-lo pela calada,. Depois de discutir o assunto, decidiram dar conhecimento aos guardas do posto da Grandaça, que ficava bem perto do local escolhido. Quando lhes falaram nisso, e depois de explicar que não iriam usar qualquer rede e que seria tudo feito com ideias, o comandante do posto deu-lhes autorização para a pescaria. Pareceu-lhes que o cabo Rocha nem por sonhos acreditava que fossem apanhar qualquer peixe, porque lhes disse com ar de gozo:
- E não se esqueçam de nos trazer depois um cestinho de peixe!
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça...
(continua) 

domingo, 22 de julho de 2018


O Pão (Continuação 6)
Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade, começou a embarbilhá-los para os impedir de mamar a toda a hora e garantir que no início e no fim do dia, quando ordenhava as cabras, retirava uma maior quantidade de leite. Além da pequena quantidade que todos os dias consumiam, a ti Domingas conseguia ainda fazer dois queijinhos diários, que depois punha a secar num caniço de canas finas, que tinha na cozinha dependurado ao telhado.
Mas onde o ti Simão era um ás, era na arte da caça e da pesca, que lhe haviam garantido alimento durante uma grande parte do ano. Havia muito que perdera a conta ao número de coelhos que apanhara nesse ano, com a rateira que tinha mandado fazer ao ferreiro da aldeia do Pereiro. Bastava-lhe dar uma volta e examinar com cuidado veredas, espojeiros e caganiçais, para escolher com uma precisão quase infalível o local para enterrar o ferro que, no dia seguinte de manhã, tinha um coelho bem trincado pelo meio ou pelo cachaço. Só na atura da criação o ti Simão avagava um bocado. Não gostava de apanhar coelhas prenhas, ou que tivessem criação na caçapeira. Era bem melhor deixá-los crescer, que depois tinham tempo de ajustar contas
Com as perdizes, o tempo da criação era também sagrado. Nunca passaria pela cabeça ao ti Simão roubar um ninho de perdiz, ou apanhá-la no ninho, embora fosse a coisa mais simples  de fazer. Bastaria  um pequeno bocado de fio de sapateiro ou, na sua ausência, arrancar algumas sedas do rabo de uma besta, para fazer uma pequena trela em traça e armá-la com um nó corredio à entrada do ninho, que pouco depois a perdiz estaria lá enforcada. Havia várias razões para o ti Simão não fazer isso. Por um lado, não dava luta… não tinha ciência; era apanhar o bicho à falsa-fé! Por outro, se apanhasse a perdiz no ninho, comia apenas uma; se deixasse deitá-la a monte, poderia muito bem, com um pouco de sorte, apanhar cinco ou seis perdizes daquela criação alguns meses mais tarde. Quanto muito tirava meia dúzia de ovos a um ninho, para a ti Domingas pôr dentro dos folares da Pascoa. Mas este ano nem isso, porque a falta de farinha não permitira esse luxo. Assim, fazia a época do perdigão nos finais de abril, princípio de maio e as perdizes só começava a apanhá-las lá para o fim do verão. 
A caça ao perdigão era uma das artes que mais agradava ao ti Simão. Não só pela luta que dava mas também por ser praticamente inofensiva para a população de perdizes porque, mesmo apanhando o perdigão, a perdiz sozinha tirava e criava os perdigotos. A época estendia-se normalmente entre meados de abril e meados de maio, altura em que as perdizes começavam o choco e estavam deitadas em cima dos ovos. Era a época de cantar ao perdigão. A arte consistia em imitar o canto de uma perdiz, usando para o efeito um pequeno chamariz, a que na região se dava o nome de recaimo. Era um pequeno instrumento com cerca de dez centímetros de comprimento, feito artesanalmente de um bocado de madeira de nespereira ou de laranjeira. O bocado de madeira maciça era trabalhado até ficar afunilado nas duas extremidades e escavado ao centro para fazer uma caixa de ressonância, para dentro da qual convergiam dois pequenos tubos feitos de uma pena de grifo, um dos quais tapado com cera numa das extremidades. O recaimo do ti Simão tinha sido feito por ele próprio e usava-o com uma perícia tal, que muito raramente os perdigões desconfiavam do logro. Escolhia o local num pontalinho e fazia a taimeira com mato e arbustos verdes para se esconder. À volta fazia pequenos valados também com arbustos, deixando nalguns locais um pequeno espaço para o perdigão passar. Era nesse preciso local que o ti Simão colocava os aboízes, um tipo de armadilhas totalmente artesanais, bastando para construí-las cerca de cinquenta ou sessenta centímetros de fio de sapateiro para cada uma. O resto era feito com pauzinhos com os quais montava um mecanismo simples, sobre o qual era colocado o fio com um laço de correr. Quando o perdigão pisava os pauzinhos, o mecanismo era acionado por uma vara de esteva que tinha sido dobrada para fazer mola, e à qual estava atada a outra ponta do fio. Uma vez acionado o mecanismo, a vara soltava-se e com o impulso fechava o laço que prendia o perdigão pelas patas. O ti Simão saía então da taimeira, recolhia o perdigão, e voltava a montar o aboíz. Em dias de sorte, quando os bichos estavam mesmo destemidos, chegava a apanhar três ou quatro. Muitas vezes, quando estavam mais foitos, aproximavam-se dois ou três ao mesmo tempo e nessa altura era quase certo que se enfelpavam a guerrear. Embora fosse engraçado vê-los guerrear, o ti Simão não gostava que eles viessem em grupo, porque quando caísse o primeiro, os outros cavavam-nas e por vezes ficavam de tal forma trilhados que daí para o futuro desconfiavam facilmente da marosca e passavam a ser bastante mais cautelosos. Por vezes ficavam tão escarmentados, que tornava-se mesmo difícil conseguir que voltassem a aproximar-se da taimeira. Ficavam cantando a algumas dezenas de metros, empoleirados numa pedra, e para o lado da taimeiratá queta Bia!
A época melhor para apanhar as perdizes, era no fim do verão, quando as figueiras dessem a segunda camada de figos. Nessa altura, as perdizes da criação já não faziam praticamente diferença das velhas. Só os mais entendidos, como o ti Simão, lhe sabiam ver a diferença, pela cor de algumas penas. O ti Simão tinha meia dúzia de esparrelões, que ele próprio tinha feito para apanhar perdizes. Por vezes armava-lhe também loisas, que davam igualmente para apanhá-las, e em ambos os casos os figos serviam de isco. Após recolher todos os figos que eventualmente estivessem caídos no chão, debaixo das figueiras, montava as armadilhas. Embora as esparrelas de perdiz como o ti Simão lhe chamava, fossem mais práticas e fiáveis, muitas vezes usava também as loisas. Bastavam duas pedras e quatro pauzinhos com determinadas caraterísticas. Uma pedra era a chamada loisa e a outra o banquete. A armadilha montava-se com um bocadinho de cana a que era dado o nome de canilha, e três pauzinhos para armar o mecanismo (o pingalhete e as armas). Quando a perdiz fosse apanhar o figo que servia de isco era obrigada a acionar o mecanismo que, deixando subitamente de suportar a pedra da loisa, fazia com que a mesma caísse em cima da perdiz, que ficava debaixo da mesma. Estas mesmas artes, em dimensões mais reduzidas, eram também usadas para apanhar todo o tipo de passarada. Em tempos de menor necessidade, era atividade quase exclusiva dos gaiatos e jovens mas, agora, com a fominha a apertar, era também prática dos mais velhos e o ti Simão não era exceção.
A pesca era outra safa para apaziguar a fome...
(Continua)

sábado, 21 de julho de 2018

O Pão  (Continuação 5)

– Logo vês… um panito tenho eu que arranjar! Não levou o burro, porque sabia que a carga que se propunha trazer não ia pesar-lhe. Pôs uma talega vazia a tiracolo e ainda lusco-fusco, abalou a caminho de Alcoutim. Chegou quase três horas depois e dirigiu-se para a porta da Câmara. Não foi sequer dos primeiros a chegar. Sentados no chão e encostados às paredes à volta, havia já mais de vinte pessoas, que como ele haviam decidido passar a noite junto à Camara, para garantir que ficavam na frente da bicha para a atribuição das senhas. Havia gente um pouco de todo o lado. Muitos da freguesia de Alcoutim, mas também de outras partes do concelho. Alguns tinham saído de casa nesse dia à hora do almoço. O ti Simão ia metendo conversa com um e com outro, principalmente com aqueles que conhecia mais mal. O objetivo era apalpar o terreno, para pôr em prática a ideia que tinha em mente. A maioria era gente cuja sorte não era muito diferente da sua, e que como ele estavam também mais tesos que um carapau. Mas havia alguns que, pelo que se apercebeu, tinham dinheiro suficiente para comprar pão. Era o caso de um homem que se queixava de que, mesmo tendo dinheiro, as senhas a que tinha direito eram sempre poucas para comprar a farinha que precisava. Quando o ouviu queixar-se, o ti Simão saiu-se com esta:
 - Bom… parece que se juntou a fome à vontade de comer! Você não pode comprar mais farinha porque, embora tenha dinheiro para isso, faltam-lhe senhas, e eu vou receber senhas que não posso usar, porque não tenho dinheiro. Então, se você quiser, fazemos um trato: eu dou-lhe a minha senha da farinha e você dá-me um pão cozido em troca.
– Negócio fechado - retorquiu o homem, estendendo a mão ao ti Simão que a apertou com genica. – Quando recebermos as senhas amanhã, vai comigo até ao meu Monte e trás o panito de volta, que a minha patroa cozeu hoje a amassadura. - O ti Simão ainda franziu a testa quando soube que o homem morava nas Soudes, mas não deu parte de fraco. Estava feito… palavra de homem não volta atrás! Ainda era um esticão dum cabrão da Palmeira até ás Soudes, seguramente quase três horas para cada lado, mas tempo era coisa que não lhe faltava. Por volta das duas da tarde, depois de ter palmilhado mais de cinquenta quilómetros a butes à conta do pão, estava de regresso a casa. A fome tinha sido aliviada por uma barrigada e figos lampos, que apanhou numa corga de figueiras perto do moinho da Cortelha. Mais contente que uma pega sem rabo, tinha dado a boa nova à mulher: conseguira arranjar um pão em troca da senha. Como o fulano das Soudes com quem negociara, lhe tinha dito que a mulher cozera nessa tarde, tinha resolvido ir logo recolher o pão. Dissera à ti Domingas para não dizer nada aos filhos, porque lhes queria fazer uma surpresa. Principalmente o pequeno Martinho, havia já algum tempo que inquiria frequentemente:
 - Quando é que temos pão outra vez pai? - Ia ser hoje. Havia tanto tempo que ninguém comia uma côdea de pão naquela casa, que lhe apetecia mesmo poder finalmente oferecer uma refeição em condições aos filhos. A ti Domingas havia muito que andava a queixar-se que a caroca e a pardês, as duas galinhas mais velhas que tinha, já não punham ovos em condições. Dizia que de vez em quando punham ovos que mais pareciam de rola, que nem gema tinham, e que mais dia menos dia cortava-lhes o cachaço. Lembrando-se disso, o ti Simão sugeriu à mulher que matasse uma delas para fazer um guisado para esse dia. A outra ficava ainda para acudir a alguma falta. O ti Simão esfregava as mãos de contente. Ia ser um dia de festa. Porra, que já era tempo de se matar a fome em condições, pelo menos por um dia. Desde o início do ano que as coisas estavam difíceis no que tocava ao panito. O último pão que a mulher cozera com farinha da sua própria colheita, tinha sido ainda antes do Natal do ano anterior. Daí para a frente, conseguira de longe a longe cozer uma amassadura, quando era possível arranjar algum dinheiro que lhe permitisse comprar uns quilos de farinha através das senhas. E não tinha sido mais de meia dúzia de vezes, nos últimos nove meses. Para dizer que não tinham passado mal, era mentira. A fome tinha-os apoquentado por muitas vezes, principalmente a ele e à mulher, que sempre que a comida era pouca procuravam minimizar a fome dos filhos, ficando eles próprios muitas vezes com a barriga a dar estralos. Ainda assim a situação nem de perto tinha sido tão má como a que acontecia em muitas casas do Monte, onde a fominha era negra dia sim, dia sim. 
Costuma dizer-se que a fome aguça o engenho e o ti Simão fazia jus ao dito. Dotado de uma boa dose de astúcia e habilidade, liberto do trabalho do campo que lhe deixara tempo para dar e vender, o ti Simão empenhara-se a fundo em acarear para comer. Explorava ao pormenor todas as possibilidades de resgatar da natureza o alimento para matar a fome à família. Quando no início do ano viu o estado em que as sementeiras ficaram, apercebera-se de imediato do que aí vinha, e o mau tempo não o apanhou descalço. Ainda antes do Natal instruiu a mulher para, á medida que as galinhas fossem agarrando no choco, deitar duas ou três em cima das respetivas linhadas de ovos. Os pintos criavam-se à perna solta e sempre eram uma garantia de alimento; quando fosse necessário, matariam um para comer. Embora nem tudo tivesse corrido bem com as duas cabras que tinha, já que uma delas maleou a poucos dias de criar, a outra pariu dois chibos que o ti Simão trocou três meses depois por dois bácoros pequenos. Seriam também engordados à perna solta e permitiam-lhe fazer mais um varal de chouriças, carne de conserva, presunto, e toucinho para substituir o azeite nos cozinhados. Quando os chibos tinham pouco mais de um mês de idade---
Continua.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Pão (continuação 4)

Já havia passado muita fome com a mulher para minimizarem a dos filhos, e tinham passado momentos maus de tragar. Muito maus mesmo!
 Até para quem tinha dinheiro as coisas se tinham complicado. Depois da revolta militar que três ou quatro anos antes tinha acabado com a rebaldaria, como o ti Simão tinha ouvido o lavrador Teixeira apregoar, os novos homens do governo estavam fazendo um Estado Novo. Mas a verdade é que a muitas das coisas novas, havia bastante gente que não estava a achar muita graça. De repente, ter dinheiro deixou de ser sinónimo de se comprar o que muito bem apetecia, porque a maioria dos bens de consumo passaram a ser racionados. Já não se comprava a quantidade de coisas que se queria, mas sim aquela que era autorizada. Para adquirir o que lhes estava destinado, as pessoas tinham que apresentar na altura da compra as respetivas senhas. Sem elas nada feito. As senhas eram distribuídas em Alcoutim, na Câmara Municipal, onde as pessoas formavam enormes bichas para as receberem. Por vezes era necessário esperar umas boas horas na bicha, até chegar a sua vez. Dois meses antes, o ti Simão tinha-se descuidado a ir um pouco mais tarde e quando chegou, ás oito da manhã, já havia uma bicha para as senhas da farinha, que o fez esperar cinco horas até chegar a sua vez. Mas as surpresas não ficaram por aí. A senha para dez quilos de farinha tinha que ser aviada em Giões, porque as senhas para os pontos de venda mais perto, tinham-se já esgotado. Decidiu ir logo de caminho buscar a farinha. Para a mulher não ficar em fezes, mandou-lhe recado pelo ti Soares a dizer que ia logo a Giões e que ia chegar bem tarde. Montou-se outra vez acavalo no burro e abalou a caminho de Giões. Apanhou o caminho direito à Corte Tabelião, passou por Santa Marta e pelo Coito; cortou direito ao Tesouro, passou pelos Farelos e chegou a Giões já perto das seis da tarde. Aviou os dez quilos de farinha que meteu nos dois sacos de linho, tão brancos como o precioso produto que guardavam, atou-os em alforge e pô-los em cima do burro. Pelo menos dava para continuar a ir acavalo. Tomou agora o caminho do Viçoso, passou pelas Velhas, Alcaria Cova, Silveira, e Fonte de Zambujo. Cortou ao lado da Casa dos Martinses direito à Gafeirosa e, já muito perto da meia-noite, chegou à Palmeira de onde tinha saído às cinco da manhã. Tinham passado quase vinte horas desde que saíra de casa até chegar novamente com os dez quilinhos de farinha. 
Por todos os Montes por onde passara, e tinham sido muitos, sempre a mesma desolação. Numa altura em que as debulhas deviam estar no forte, as eiras desertas mostravam que as colheitas tinham sido iguais um pouco por todo o lado. De medas ou calcadoiros, nem rasto! Aqui e ali vira uma ou outra eira com pequenos vestígios de palha, mas a maior parte delas nem tinham sido embonicadas nesse ano. Os solos continuava tapados com o palhiço de tremoços, com que haviam sido protegidos no ano anterior, no final da época das debulhas.
Embonicar a eira era uma coisa chata mas, por estranho que pareça, era coisa que o ti Simão gostava de fazer. Se calhar não era pelo trabalho em si, mas pelo que o mesmo representava, uma vez que marcava o início da debulha e a aproximação da altura em que se enchia o “celeiro” e reinava alguma abundância.
Recordava os dias em que, de manhã bem cedinho, ajudava algum vizinho ou recebia ajuda para preparar a sua própria eira. Era um trabalho em que normalmente havia entreajuda e que podia ser feito de duas maneiras: com as bestas, ou com gado de pata miúda. No caso do ti Simão, assim como da maioria da gente do monte, o solo da eira era feito com as bestas, porque ovelhas e cabras em número suficiente para fazer aquele trabalho, só o lavrador é que as tinha. Assim, além dos dois animais que possuía, era necessário reunir para o efeito mais cinco ou seis, que eram pedidos emprestados aos vizinhos, que por sua vez davam também uma ajudinha. No dia anterior, tudo tinha sido atempadamente preparado. Para junto da eira, carregavam-se duas ou três gorpelhas de barro joeirado, que iria ser usado para reforçar o solo e tapar algum buraco que tivesse surgido, de forma a restaurar completamente o solo da eira. Haviam igualmente trazido quatro ou cinco caminhos de água, carregada com o burro numas zangarilhas, em cântaros de zinco, e posteriormente despejada em dornas e alguidares de barro junto à eira. Depois de molhar bem o chão e espalhar uma certa quantidade de barro, punham-lhe as bestas em cima. Andavam a rodar ininterruptamente em cima da eira, por vezes durante horas, dirigidas pelos homens, que de vez em quando se revezavam. Ao mesmo tempo e onde ainda fosse necessário, iam-lhe adicionando pequenas quantidades de barro em pó, que seguidamente ogavam com água, Quando o solo da eira adquiria a consistência desejada, retiravam os animais, deixavam secá-lo e estava pronto a ser embonicado, para proteção final e evitar que rachasse. Para o efeito, tinham já sido apanhadas uma boa quantidade de bostas de vaca, que depois de bem diluídas em água, serviam para besuntar todo o solo da eira, usando para  o efeito uma vassoura de rama de xolgaço verde. Terminado todos os procedimentos, a eira estava pronta para a debulha.

Havia quase três semanas que em casa do ti Simão se tinha comido a última côdea de pão. Dinheiro, nem um tostão para mandar cantar um cego. Dois dias antes, à tardinha, o ti Simão tinha dito à mulher:
- Esta noite vou dormir a Alcoutim, à porta da Câmara, para amanhã apanhar senha para farinha. -  A ti Domingas  tinha retorquido com ironia:
 - E com que dinheiro é que queres comprar a farinha… com os canos do cu? - Mas o ti Simão não se desmanchou.
 – Logo vês… um panito tenho eu que arranjar!
(continua)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Pão (Continuação 3)

E agora? Como é que iam aguentar até ao ano seguinte sem farinha para cozer uma única amassadura? A colheita do ano anterior esgotara-se havia muito, porque pouco sobrara depois de pôr de lado alguns alqueires de trigo e aveia para a sementeira que infelizmente resultara na colheita que agora se via. O ti Simão tinha até pedido emprestados ao lavrador Teixeira três alqueires de cevada branca para semear e essa então não dera uma única espiga. Nesse ano teria que voltar a empenhar-se outra vez com o lavrador, e não seria só com a cevada branca. Iria precisar de pedir ao lavrador toda a semente emprestada. Dez ou doze alqueires de trigo, sete ou oito de aveia, três ou quatro de cevada, três ou quatro de tremoços e pelo menos meio alqueire de centeio. A única coisa que não seria necessário pedir, era a semente de linho. Tinha ainda dois litros de linhaça que a ti Domingas guardara para fazer algum emprasto ou outra mezinha, com que pudesse acudir a alguma maleita inesperada. Era semente velha e não a mais adequada para semear, mas dava para desenrascar. Se tudo corresse bem, aquelas quantidades de semente deveriam chegar. Se o triguinho desse pelo menos cinco sementes tinha um moio de colheita, o que quase lhe garantia farinha para o ano, além de palha para as bestas. A aveia e cevada garantia-lhe palha e grão para os animais, os tremoços para ajudar a engordar o porco e o centeio destinava-se a fornecer palha para encher os colchões da cama e fazer atilhos para na altura da aceifa atar os molhos, quando a seara não tinha tamanho suficiente para fazer os atilhos com a própria palha. Está bem que tinha que pagar depois ao lavrador, o que ia logo à partida desfalcar a colheita.  Com a aveia, a cevada, o centeio e os tremoços não havia problema. Dava menos à bicharada e estava resolvido. Nada tinha ele agora para lhes dar e tinham que se aguentar!. O pior era o raio do trigo! Pagar a dívida e deixar o suficiente para a sementeira seguinte, limpava-lhe quase metade da colheita, o que significava que as dificuldades iam continuar no ano seguinte. Embora ficasse quase despenado, para não ficar com fama de mau paguilha, era melhor acertar logo as contas com o lavrador Teixeira e voltar a pedir novo empréstimo quando precisasse. Mas logo se via! Como dizia a ti Chica, enquanto o pau vai e vem descansam as costas, e não valia pena preocupar-se agora com isso. Em tempos achara piada quando ouvia a ti Chica, a mulher mais velha do Monte, fazer certas comparações. Quando queria dizer que uma coisa era muito grande, a ti Chica usava invariavelmente o mesmo dito:
- “Conho… que é quase do tamanho dum dia sem pão!” Agora entendia melhor o alcance dos ditos da velha. Um dia sem pão era um dia de fome, e os dias de fome eram grandes! Custavam a passar. Custavam a passar; tinham já sido muitos e não sabia quantos mais teriam que ser ainda. Puta de vida… sorte dum cabrão! Mas quem havia de dizer que o raio do panito fazia tanta falta? Mas fazia. Sem pão, não havia refeição! Para comer umas sopas, era preciso pão; para uma açorda, era preciso pão; para um gaspacho, era preciso pão; para umas migas, era preciso pão… era preciso pão para tudo! Nem que fosse para comer umas azeitonas; um bocado de toucinho; de chouriça; de queijo, e por aí fora. As poucas refeições onde se podia dispensar o pão, também não estavam ao alcance de toda a gente. Eram as que não podiam ser tiradas diretamente da terra, como a massa ou o arroz por exemplo, mas para as adquirir era preciso dinheiro, que também não havia. Uma vez por outra, ainda vá lá… agora para matar a fome no dia a dia, estava fora de questão.

O fim do verão tinha chegado e com ele a aproximação da época da nova sementeira. As canículas tinham previsto para o próximo ano uma mudança radical do tempo. Quisesse Deus que fossem tão certeiras para o bem, como haviam sido para o mal. Renascia uma nova esperança. Ainda não tinha chegado o fim de setembro e o tempo já estava mudado.
A primeira quinzena do mês das canículas não podia ter tido melhor previsão. O ti Sequeira garantira que o próximo ano iria ser chuvoso e o ti Simão só esperava que ele estivesse certo, como acontecera no ano anterior.
Logo no dia um de agosto, o primeiro dia das canículas, tinha chuvinhado por duas vezes. Como o primeiro representa o ano inteiro, as coisas não podiam ter começado melhor. As canículas voltaram a prever água para os meses de março e abril e novamente para o fim do ano. O ti Sequeira estava radiante. O próximo ano ia ser um ano de fartura. Estava particularmente contente com a previsão para o mês de abril, porque como se dizia, em abril, águas mil. Era a altura em que as searas estavam a engradecer e em que a chuva era mais benéfica. O ti Simão começava a estar mais confiante. Ainda havia muita lã que tingir até tudo entrar nos eixos, mas as coisas pareciam bem encaminhadas. As bagas das travisqueiras engradeciam à carreira e muitas estavam já vermelhas, o que apontava para uma época de sementeira mais temporoa nesse ano. Os jarros também estavam nesse ano muito adiantados para a época. O ti Simão tinha mesmo encontrado uma raboleira deles já com candeias. Quando partiu algumas candeias, ficou mais contente que uma pega sem rabo: nenhuma tinha menos de sete ou oito sementes. Segundo os antigos, o número de sementes das candeias dos jarros coincidia quase infalivelmente com o número de sementes que as searas iam dar na colheita desse ano. Permitisse Deus que assim fosse, porque os últimos tempos tinham sido duros de roer, e já era altura de as coisas começarem a encarrilar. Já havia passado muita fome com a mulher para...
 (continua)

terça-feira, 17 de julho de 2018

O Pão (Continuação 2)
Tinham, até esse ano… porque de repente tudo se tinha complicado.
Se no ano anterior as colheitas haviam sido fracas em virtude de terem sido afetadas por uma seca já significativa, nesse ano fora a seca total e as coisas tinham descambado por completo. Por Natal não havia ainda chovido uma pinga de água. Nos últimos dias do ano o tempo mudou, e durante dois ou três dias ainda amanhecera nuvrinando, mas escampava pouco depois e não passou disso. Nem chegou a ser chuva daquela que molha parvos e enxuga velhacos, como a ti Domingas gostava de chamar-lhe. Nem um simples esgarrão de água que tivesse feito correr os canais dos telhados. Fora no entanto o suficiente para pôr alguma humidade na terra, que permitiu ás searas começarem a despontar. Mas foi sol de pouca dura e depressa o tempo levantou. De dia, um calor despropositado para a época; á noite, geadas como o ti Simão não tinha memória de ter visto. As poucas searas que vinham despontando, foram totalmente queimadas pela geada. A seca continuou, e pela Páscoa a situação era idêntica: nem pinga de água! As searas pareciam alqueives. Para todo o lado para onde se olhasse, nem um bico de erva verde.
Estava tudo perdido! Nem os santos quiseram ajudar. No Monte bem se tinha feito por isso, mas…nada! A primeira vez que as mulheres se juntaram para rezar o terço, tinha sido ainda antes de Natal. Primeiro foram sozinhas, algumas noites seguidas, mas não resultou. A ti Doniza dizia que era porque os homens não queriam saber; não tinham ido com elas e ainda por cima faziam pouco. Para os santos ajudarem, tinha que se acreditar, tinha que haver fé! Só isso explicava que, depois de rezar o terço nove noites a fio, o tempo teimasse em não mostrar bico de nuvem. Na segunda vez que rezaram o terço, já perto do Entrudo, o grupo de mulheres já contou com a presença de alguns homens. Juntavam-se todos á noite depois da ceia, no largo do Monte, e o grupo encabeçado pelo ti Soares que levava a cruz, logo seguido pela ti Doniza e mais duas ou três mulheres especialistas na reza, punha-se a caminho. Saiam do Monte e afastavam-se um ou dois quilómetros pelos caminhos das redondezas, com as mulheres da frente a desfiarem as ladainhas da reza, que em seguida era repetida pelo resto do grupo.  Mas nada tinha resultado. Se o tempo seco estava, seco ficou. Na opinião de algumas mulheres, a cruz deveria ter sido de oliveira mansa. O ti Soares tinha improvisado uma cruz com duas varas jambuzo e, na opinião delas, o facto de a cruz ser de oliveira brava, pode ter tido influência na falta de resultados. A ti Doniza continuou na dela: apontava o dedo a alguns homens que foram no grupo, e dizia que mais valia que não tivessem posto lá os pés! Na sua opinião, muitos deles tinham ido apenas para fazer vista grossa. Ela bem os tinha ouvido na galhofa lá atrás, quando deviam era estar rezando o terço.
Os homens no entanto eram na sua quase totalidade adeptos da teoria do ti Sequeira. Qual cruzes, qual rezas nem meias rezas! Não valia a pena andarem engonhando à procura de explicações, quando estava tudo mais que explicado. Quando teve conhecimento que estava a formar-se um grupo para ir rezar o terço, o ti Sequeira tinha sido bem explícito: era tempo perdido! As canículas tinham sido claras como a água. Nesse ano não ia chover antes do fim de outubro. Vá lá… com um pouco de sorte podia ser que o tempo deitasse uma pinga de água lá para a Feira da Praia, mas nunca antes disso!
A verdade é que não chovera mesmo e as coisas estavam pelas horas da morte. Nesse ano não houve searas para mondar. Da herdade do Alentejo, para onde a ti Domingas costumava ir fazer a temporada da monda, um portador trouxera recado a dizer que nesse ano não tinham trabalho para o rancho de mondadeiras, de que a ti Domingas habitualmente fazia parte. A ajuda do carvão também não estava a resultar. As dificuldades não tinham surgido só para o ti Simão. Um pouco por todo o lado os homens, sem nada para fazer na agricultura, jogaram-se quase todos ao fabrico do carvão, para procurar ganhar uns patacos. A primeira consequência foi uma escassez imediata de lenha. Quem a tinha não autorizava que outros a usassem, e quem não a tinha, como era o caso do ti Simão, via-se obrigado a procurar e arrancar arbustos em locais pouco acessíveis e quase sempre distantes. Nos barrancos, nas ribeiras e rochas à volta, não havia loendro, saíço ou tamujo que estivessem a salvo. Mas se por um lado se tornara difícil arranjar lenha para fazer o carvão, por outro a sua venda não se tornara menos difícil. O mercado ficara saturado de repente. O ti Simão, que antes saí um dia de madrugada para Vila Real ou Monte Gordo e estava de regresso no outro dia à noitinha com o carvão todo vendido, na última vez precisara de quatro dias para vender o carvão, e mesmo assim teve que o deixar quase dado. Agora era isto!
Se já não tinha havido monda nesse ano, muito menos houve aceifa. O lavrador Teixeira fez a sua só com o pessoal da casa, sem precisar de contratar mais ninguém. Depois do carrego, juntou na eira uma meda três vezes mais pequena do que as que normalmente fazia só com os arraçoamentos. Em anos normais, além do calcadoiro que fazia com a cobrança das rações a quem tinha emprestado terras, juntava mais meia dúzia de calcadoiros da sua própria colheita, que lhe rendiam moios e moios de semente.
A seara do ti Simão, nesse ano, tinha vindo toda num molhinho, debaixo do braço da ti Domingas. Parecia mentira… meses de trabalho e nem dava para encher o papo uma vez ás galinhas! E agora? Como é que iam aguentar... (continua)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O pão  (Continuação 1) 
Começava a sua própria sementeira uma boa semana antes do lavrador Teixeira, para quando este começasse a dele, estar livre para se concertar à do lavrador até final da época.
O ti Simão era considerado um dos melhores semeadores da região. Sabia puxar a semente quando semeava um vale, uma botelha ou outra terra grossa, e aliviar a mão em terra mais delgada. Como resultado, quando a seara nascia, não vinha junta nem rala, mas sempre no ponto certo. Quando despontava, raramente se conhecia o local dos regos das embelgas, como acontecia com a maioria dos semeadores menos experientes. Só depois do lavrador dar a sementeira por terminada, voltava a trabalhar mais alguns dias na sua. A primeira tinha sido um pouco temporoa  e esta última muito seroida, mas paciência, não havia alternativa. Antes da sementeira já havia deitado umas boas jornas à do lavrador, na preparação das terras. Primeiro a desmoita, onde cada homem, munido de uma cavadeira de peta, arrancava pela raiz espinhos lancios, cardos, funcho, travisqueiras ou qualquer outro arbusto que tivesse escapado ao ferro da charrua na altura do alqueive ou do atalho. Terminada a desmoita era necessário gradear e por fim carregar e esborralhar o esterco. A etapa final era enrregar, mas para essa tarefa o lavrador recorria exclusivamente ao serviço de dois dos homens mais famosos da região, na arte de lavrar direito. O ti Serina que trabalhava havia muitos anos na casa do lavrador Teixeira e o Luís do Marmeleiro, um jovem que o ti Serina treinara.  Dizia com orgulho que o Luís era do melhorzinho que podia haver, e que há muito era capaz de lhe passar um bigode. Os regos, por vezes com quase duzentos metros de comprimento, pareciam que tinham sido talhados com uma corda esticada. Se a embelga tinha quatro metros numa ponta da torna, podia ter-se a certeza que na outra ponta a medida era exatamente igual. Os regos ficavam mais direitos que um fuso e dava gosto olhar para as embelgas. Era nesta altura que o ti Simão aproveitava a semana para adiantar a sua sementeira o mais que pudesse. Saía de casa de madrugada e voltava pela noite adentro. Quando finalmente terminava a época das sementeiras ficava um pouco mais liberto. Ao longo do ano era sempre solicitado para deitar mais umas peonadas á do lavrador. Fosse a roçar ou apanhar mato, podar, cavar ou desencaldeirar vinha nas várzeas da ribeira ou do rio, ajudar a dar banho ás ovelhas no dia de S. João, ajudar na debulha ou qualquer outra tarefa, como o ti Simão costumava dizer, tudo o que vinha à rede era peixe. Quando o lavrador não solicitava os seus serviços, entretinha-se a fabricar as suas terras. Tinha já uma boa mancheia de árvores plantadas, principalmente amendoeiras, alfarrobeiras, figueiras e oliveiras. Embora ainda não dessem fruto e levasse ainda uns bons anos até poder tirar proveito delas, sempre era mais uma esperança. Nas alturas em que o trabalho do campo avagava mais um bocado, o ti Simão recolhia lenha e fazia carvão para vender. Enquanto o forno de carvão estivesse a arder, o que podia levar dois ou três dias, o ti Simão não se podia ausentar do pé dele, fosse dia ou noite. Se o forno abrisse um buraco, tinha que ser tapado para evitar a entrada de ar, que iria transformar todo o carvão em cinza, se a situação não fosse corrigida. Enquanto vigiava o forno, o ti Simão entretinha-se a fazer pequenas canastras em cana, que iria depois procurar vender juntamente com o carvão, porta a porta, em Castro Marim, Vila Real ou Monte Gordo. Os quase cinquenta quilómetros que o separavam destes locais de venda, eram feitos a andar, atrás dos dois burros carregados com as sacas de carvão e as canastras de cana. Á volta, depois das vendas, já podia vir acavalo nos burros e fazer a viagem de forma bem menos cansativa. Alguns anos antes, o ti Simão tinha ido a fazer as temporadas da ceifa para o Alentejo, mas agora, desde que começara a fazer também a sua própria sementeira, ficava-se por ali. Fazia a temporada á do lavrador Teixeira, enquanto a mulher ia fazendo a sua própria ceifa. Á noitinha, depois de deixar o trabalho á do lavrador, ia atar os molhos que a ti Domingas tinha ceifado durante o dia. Por vezes, principalmente quando havia lua, pegava na foice e ceifava ainda durante algumas horas, para dar um adianto ao trabalho da mulher que, embora não ganhasse a bandeira, também raramente ficava com a argola. Depois de deixar de fazer as ceifas no Alentejo tinha ainda ido um ano fazer uma temporada a Espanha, mas jurou para nunca mais. Não por causa do trabalho, mas porque as coisas por além andavam demasiado quentes. Um dia, em Gibraleon, viu dois homens serem mortos pelos guardas, como se fossem dois coelhos. Era opinião geral que as coisas em Espanha ainda iam azedar a sério. Desta maneira, com o pouco que ia colhendo da terra e alguns tostões que ganhava a trabalhar para fora, tinha ido dando para atamancar as coisas. O porquinho que engordava e metia na salgadeira, dava-lhes para o ano se condutassem com ele. Uns ovinhos que por vezes a ti Domingas trocava por sardinhas quando tinha uma quantidade maior; o leite da cabrinha, tudo ajudava a compor as coisas. A ti Domingas também era mulher de luta. Todos os anos ia fazer a temporada da monda ao Alentejo, o que lhes dava também a possibilidade de ganharem mais um dinheirito extra. Um ano, à volta, depois de terminada a temporada da monda, a ti Domingas tinha ficado uma semana a trabalhar na Mina de S. Domingos com mais duas camaradas. Apanhavam seixos brancos para umas alcofas de empreita e transportavam-nos para a fabrica de enxofre. Mas o trabalho, além de má de roer, era muito mal pago e depressa se barimbaram no ofício. Nos últimos anos, com uma achega daqui, outra dali, embora malamente, as coisas tinham-se ido equilibrando. Tinham, até esse ano… porque de repente tudo se tinha complicado... (Continua)

sábado, 14 de julho de 2018

O PÃO

Meteu a mão pelo postigo aberto e puxou a tramela da porta, enquanto olhava para trás e dizia para as duas crianças que o seguiam:
- Fechem os olhos… só os abrem quando eu mandar!
Empurrou a porta que se abriu de par em par e desviou-se para o lado para as duas crianças passarem. Encostou-se à ombreira da porta e, rindo com gosto, deu a esperada autorização:
- Podem abrir os olhos! - Seguiu-se um curto silêncio, logo interrompido pela voz ansiosa do pequeno Martinho:
– Onde é que está a coisa pai? - Estava parado entremeio da porta com a irmã, enquanto ambos percorriam com olhar inquiridor a pequena divisão da cozinha.
 – Em cima da mesa não está nada… continuava o pequeno Martinho, enquanto o pai os afastara de repente para o lado, entrara de roldão e ficara especado no meio de casa. O Ti Simão não queria acreditar! Abria e fechava a boca, como um peixe fora de água, antes de conseguir articular palavra.
 – Não pode ser… sumiu-se! – exclamou, enquanto de olhos esbugalhados olhava à sua volta e até para o telhado da pequena divisão, como se o que procurava pudesse pairar junto ao mesmo. Correu para a pequena mesa de madeira, enquanto a apontava com o dedo e dizia:
 - Pu-lo aqui in’dagora… dexi-o aqui em cima! Palmaram-me o pão… limparam-mo! Abriu a gaveta da pequena mesa e espreitou, como se tivesse esperança de que alguém lho tivesse escondido, só por judiaria. A voz avolumou-se, enquanto cerrava os punhos e gritava completamente fora de si:
- Ah macago na hóstia, que eu mato o cabrão ou a puta que me roubou o pão… dou cabo deles! - Assustado com a explosão de raiva do pai, o pequeno Martinho choramingava encolhido junto à parede, enquanto a Dolores, meia dúzia de anos mais velha que o irmão e quase a entrar na adolescência, olhava também assovacada para o pai. Nunca o tinha visto assaganhado daquela forma: cara encarnada como um tomate, veias do pescoço dilatadas, branco dos olhos raiado de sangue, rangia os dentes e despejava um chorrilho de ameaças, enquanto de braços tesos e estendidos para a frente abria e fechava as mãos, como se estivesse a apertar o gasganhol ao autor do roubo do pão.
 – Se lhe ponho as unhas em cima… se lhe deito as mãos ás goelas… faço-lhe deitar um palmo de língua fora; esmigalho-lhe a cabeça… tarrinco-lhe os ossos!
Quando ouviu o lavarito, a Ti Domingas tinha acabado de apanhar a galinha caroca mais velha, que já tinha a sentença lida. Nesse dia de manhã, nem a tinha apanhado como fez com as outras para verificar se tinha ovo. Todos os dias, logo de manhanita, procedia ao mesmo ritual: destapava a porta do galinheiro, apanhava as galinhas uma a uma e metia-lhes o dedo maminho no cu, para ver  se tinham ovo. As que tivessem ficavam encerradas até largarem o respetivo, não fosse dar-se o caso de alguma ir pôr por fora. As que não tinham ovo eram soltas para irem procurar a respetiva alimentação onde muito bem entendessem. Cada uma desenrascava-se como podia: sementes, formigas, gafanhotos e outras coisas menos nobres que encontravam nas estrumeiras ou nos cagadoiros, tudo servia para encher o papo. No dia anterior não tinha mesmo escapado um escarapão pequeno que a ti Domingas tinha matado com uma cana, quando o encontrou dentro do linheiro dos ovos, e que jogara  depois para a estrumeira.
Largou a galinha, soltou um “ai Jasus… q’ué que saria”, e correu para casa. Entrou esbaforida e enquanto olhava à sua volta ainda em sobressalto, inquiria o ti Simão:
- Oh homem…o que é que foi? Que espalhafato é esse? Santiss’me Sacramento, que pensei que se tinha dado uma desgraça!
– O pão… o mé pão…ai se eu sonho quem foi! – continuava o ti Simão.  Na rua tinha-se juntado um magote de gente que acudira aos gritos do ti Simão. A ti Donisa e mais cinco ou seis mulheres que estavam com ela no forno do monte, algumas vizinhas que estavam por perto; meia dúzia de gaiatos, e até o ti Sequeira que tinha chegado manquejando, encostado ao cajado, com uma desenvoltura que havia muito tempo que ninguém lhe via.
- Oh, valha-me Deus… mas quem é que mexia no pão? Não seria algum bicho… algum cão ou algum gato? – comentava a ti Domingas com pouca convicção.
 – Qual bicho, nem merda! – explodiu o ti Simão. - Não foi cão que a porta estava fechada e com a tramela bem entregue. Um gato não era capaz de saltar p’lo postigo com um pão inteiro nos dentes… nem levantá-lo do chão, quanto mais saltar p’lo postigo! Quando muito ratava-lhe um pedaço.
O ti Simão ia-se acalmando pouco a pouco. Tinha saído para a rua e sentara-se no pial junto à porta, visivelmente escreçoado, enquanto no grupo que se juntara na rua, se continuavam a discutir hipóteses e a lançar palpites. A meia voz, numa espécie de cisma consigo próprio, o ti Simão ia comentando:
 – Puta de sorte… hóstia dum cabrão, que quanto mais magro está o cão mais se lhe acolhem as pulgas. Mas para que é uma criatura sofrer tanto nesta vida… cabrã de Deus! Cabisbaixo, numa dolorosa resignação, o ti Simão entrou numa cisma profunda, fazendo para si próprio uma retrospetiva dos últimos tempos.
Havia vários anos que as coisas vinham correndo mal, mas lá tinha ido apelando e conseguido arranjar sustento para matar a fome à família durante a maior parte do ano. As courelas que tinha eram poucas e ruins e nas sementeiras dos últimos anos, raramente tinha conseguido que pagassem com mais de duas ou três sementes. Mal dava para fazer pão metade do ano, mas o ti Simão não era homem de baixar os braços e não havia trabalho que lhe metesse medo. Fosse ele aparecendo! Durante todo o ano aplicava ou vendia a força dos braços onde fosse necessário, de forma a arranjar uns cobres que lhe permitissem comprar umas arrobas de farinha, uns litrinhos de azeite, e outros bens quando fosse possível. Começava a sua própria sementeira...  (continua)

terça-feira, 10 de julho de 2018

Os Ciganos (Continuação 8)
O Zé conhecia o terreno como as palmas das suas mãos e sabia que estava ali uma cova. Era um sítio de onde tinham arrancado pedras para fazer a cabeceira da eira, ou alguns dos galinheiros e pocilgos de pedra solta que estavam próximos do local. Mas naquela altura não havia tempo para pensar. Quando o terreno lhe faltou debaixo dos pés, lembrou-se da puta da cova! 
Aterrou do outro lado do buraco e arrabolou uns bons metros pela ladeira abaixo. Mas se muito depressa caiu, mais depressa se levantou. Agora que a distância que o separava do Manel aumentara significativamente com este contratempo, continuou correndo atrás dele enquanto repetia sucessivamente - “espera aí !… espera aí!... espera por mim caralho!”. - O Manel só parou na cerca das oliveiras, já bem perto do Barranco do Deserto. Olhou para trás pela primeira vez e, numa afegada que demonstrava bem que não estava menos escalfado do que o Zé,  lançou-lhe um -“onde é que ficas-te"?
– Onde é que fiquei, o cacete!… não viste o estalégaço que eu caí? - retorquiu o Zé com algum ressentimento. Parou, e ainda com a respiração ofegante arregaçou as calças até aos joelhos e as mangas do pulôver de lã que a mãe lhe tinha feito à entrada do inverno e ficou a observar as pernas e braços doridos. Depois de um rápido exame e enquanto o Manel ria descontroladamente, praguejou um - “cabrã de Deus… que fiquei com os joelhos e os braços todos escalavrados!” - Rapidamente o Manel mudou a conversa para o outro tema:
- Porra… já viste que os gajos tinham uma espingarda?
– E tu já viste se eles calham a virar o canudo para onde a gente estava e amandar uma faísca? – ripostou o Zé. Com ar de conhecedor, o Manel desvalorizava o risco de tal hipótese:
 – Dalém não havia grande problema… era muito longe e o chumbo quando chegava onde a gente estava, já não trazia força.
– Quem sabe lá… nunca fiando! -   ripostou o Zé em tom duvidoso - Olha se a gente apanha com dois ou três bagos de chumbo p’las nalgas….
- Xóstia! – exclamou o Manel, enquanto levava a mão ao cu das calças e acoçava com energia, como se de repente tivesse sido atingido por bagos de chumbo imaginários. Continuaram as piadas e, enquanto riam com gargalhadas abafadas, começaram a dirigir-se para o Monte.
O Zé pareceu-lhe ver um vulto deslizar na sombra projetada pelas paredes escuras de pedra, junto ao boqueirão do palheiro do Ti Serafim, mas não teve a certeza se era gente. Entraram no Monte e dirigiram-se para a casa da Ti Balbina, local onde era costume muitas pessoas do Monte juntarem-se para fazer serão. Debaixo da enorme chaminé, ardia um convidativo fogarelo. À volta, várias pessoas do Monte tinham esgotado a lotação das cadeiras. O Manel sentou-se num cepo de chaparreiro e o Zé numa faxina de lenha, que junto à chaminé aguardavam a sua vez de serem queimados, e ficaram a ouvir as conversas. Havia sempre quem contasse histórias interessantes; coisas do outro tempo, judiarias e fenezas de homens valentes, dificuldades e histórias de tempos malinos; do tempo da fome, da guerra de Espanha e até da de França, das mondas e acefas no Alentejo, etc., etc.
Por várias vezes o Zé pareceu-lhe ver na cara da Ti Balbina  um sorriso manhoso e trocista, quando olhava de relance para ele e para o Manel. Agora, juntando dois com mais dois, começava a fazer-se luz sobre o que se tinha passado. Recordando o vulto fugidio, na sombra da parede do palheiro do Ti Serafim, tinha agora a certeza de que não era outra coisa senão a Ti Balbina que tinha ido a mijar ou arrear o calhau à Porta da Ombria, e que tinha visto o estrafego todo do sítio donde estava. Aquela parte do Monte, a que chamavam o Cerro e onde ambos moravam próximo da casa da Ti Balbina, era bastante alta ultrapassando mesmo a altura do Cerrinho da Chã. Á luz clara da lua, a Ti Balbina vira-os a jogar pedras aos ciganos, da eira do lavrador Afonso, vira-os fugir, vira a carvandela que ele tinha dado e estivera a observá-los da sombra, quando pararam junto ao Barranco do Deserto, a cerca de cem metros do local onde ela se encontrava. Não devia ter ouvido a maior parte da conversa entre ele e o Manel, nem percebido patavina daquilo que diziam, porque estavam a falar relativamente baixo, mas com certeza que os tirara pela pinta, e quando se foi embora sabia perfeitamente quem eles eram. Se alguma dúvida restasse, tinha sido desfeita quando chegaram juntos pouco depois a casa dela.
Procuraram não dar nas vistas, mas havia sempre os olhares furtivos entre os dois e os sorrisos mal disfarçados, quando se lembravam de um ou outro pormenor da aventura. O Manel soltou mesmo uma valente carcachada quando viu o Zé a coçar nas canelas, por se lembrar da queda que ele deu. A gargalhada soou despropositada e espantou toda a gente, já que não tinha havido qualquer garçola ou dito que a justificasse. A mãe do Manel, que também lá estava a fazer serão, tinha-lhe deitado um olhar reprovador e dito:
- Moço dum cabrão, parece que é parvo!
- Foi demais para o Zé. Começou a rir também à gargalhada e não conseguindo controlarem-se, saíram os dois fugindo para a rua, perante os olhares espantados de quem estava ao serão. Só a Ti Balbina sabia o que se passava. A cabrona da velha deve ter-se chibado e, além de toda a gente ter ficado a saber, a coisa deve também ter chegado aos ouvidos do pai e da mãe do Zé ainda nessa noite.

Mas agora estava feito e não havia como mudar as coisas. Que tinham procedido mal e ganho um par de galhetas bem dadas não havia dúvida nenhuma, e aquela ia servir-lhe de lição. Procurou animar-se. Também que raio… ninguém se tinha aleijado, ou melhor, ninguém além dele, que ainda lhe doíam os joelhos como o caraças! Por outro lado embora tivesse culpas no cartório porque, como diz o ditado, “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”, restava o consolo de saber que não tinha jogado uma única pedra. E depois, pensando bem, até houve momentos que tiveram a sua graça, pensou o Zé, enquanto pela primeira vez desde esse dia de manhã, lhe aflorava um leve sorriso aos lábios.
 
FIM

José Manuel Simão
Maio de 2015

 
Os Ciganos (continuação 7)
Com ataques de risa silenciosos iniciaram a procura de pedras, que foram sendo rigorosamente selecionadas e colocadas num moitanito. Além das redondas para chegarem mais longe, não faltavam três ou quatro das tais compridinhas para zunirem. Reunida a quantidade que acharam ser suficiente, o Manel posicionou-se junto ás pedras, colocou uma na funda e fê-la rodar até tomar embalagem suficiente para um lançamento perfeito. Assim que a pedra foi jogada, deitaram-se de imediato no chão para não serem localizados. Do sítio onde estavam, os ciganos não conseguiam vê-los por causa das árvores, mas mesmo assim era melhor não arriscar, não fosse o Diabo tecê-las e estar algum em campo aberto, fora do acampamento, que os conseguisse lobrigar. Mas a primeira pedra não surtiu qualquer efeito. Na opinião do Manel devia ter caído no barranco, em cima dalgum moitão de areia que abafou o barulho. O facto é que ninguém pareceu ter dado conta, porque a conversa continuou animada e sem qualquer interrupção.
 Mas se ninguém do grupo deu por nada, o mesmo não se passou com as bestas dos ciganos, que estavam a algumas dezenas de metros do acampamento. Uma delas, alguns segundos depois, pregou um assopro que entoou por aquele barranco todo. Fez-se silêncio por uns segundos no acampamento, mas as conversas retomaram logo a seguir o seu ritmo normal. Os ciganos devem ter atribuído a alarme dado pelo animal, a algum bicho que passou junto dele e o assustou.
 - Já vistes as putas das bestas se são sentidas? – atalhou o Manel. – Porra… ainda dizem que as bestas dos ciganos não têm sangue na guelra!
- Deve ter sido algum macho ou mula quinzena – opinou o  Zé em voz baixa - as muares  são muito mais espantadiças do que os burros. A não ser algum burro inteiro, os outros são uns paz d’alma.
- Lá isso é verdade, – anuiu o Manel - mas os ciganos também costumam ter sempre burros inteiros, para lançamento. Mas fosse burro ou muar, o que é certo é que os bichos são muito mais espertos do que a gente. As bestas não nos estão vendo, mas sabem que a gente estamos aqui. - O Zé também não estava vendo as bestas, mas punha a cabeça em cima de um cepo, sem medo de a perder, em como naquele preciso momento todas elas estavam embizarradas a olhar naquela direção. 
Sempre lhe tinha feito espécie como é que os animais conseguiam aberruntar, com tamanha facilidade, a aproximação de uma pessoa ou de outro animal. Com o Maroto era fatal: quando em pleno campo o via virar a cabeça numa direção e afitar as orelhas num ângulo de quarenta e cinco graus, tinha a certeza de que alguma pessoa ou animal se aproximava. Muitas vezes a deteção era feita a mais de quinhentos metros de distância. O pai costumava muitas vezes  levar o Maroto quando ia armar as rateiras. Era trinta vezes melhor do que um cão: era um bom disfarce, não denunciava a presença e localizava atempadamente qualquer intruso ou presença indesejada. Muitas vezes o Zé tinha exclamado com admiração:
- Mas como é que o bicho consegue aberruntar as coisas tão longe? - Ao que o pai respondia:
 - O homem é o bicho mais parvo que há… qualquer “alimal” tem os sentidos muito mais finos que a gente.
Como não houve qualquer alarme por parte dos ciganos, o Manel levantou-se, colocou nova pedra na funda e jogou-a com gana redobrada. Desta vez sim. Até eles ouviram perfeitamente a pedra bater numa árvore. Deve ter sido perto do acampamento o e grupo também a ouviu, porque de imediato toda a gente se calou. Esquecendo-se do tempo de espera que haviam combinado, o Manel colocou outra pedra na funda, volteou-a cinco ou seis vezes para tomar embalagem e disparou-a em direção à raciada do ti Romão. De imediato se ouviu a zunida inconfundível de uma pedra das compridinhas: zrruuuuuuuuummmmmm! Desta vez a besta espantadiça não se ficou só pelo assopro. Ouviu-se nitidamente a estropeada que fazia quando partiu correndo á’desquatro, enquanto ia pregando mais uns valentes assopros.
 Do outro lado, no acampamento, soou uma voz cristalina que o Zé identificou de imediato:
- É pá!... Esta trazia fogo nas patas!
- Porra…era o António que devia estar também com os outros moços, ao pé do fogo com os ciganos! Caraças… aumentava  muito a possibilidade de desconfiarem deles, já que os outros moços que estavam com os ciganos não iriam fazer parte dos suspeitos, quando no outro dia procurassem adivinhar quem tinham sido os engraçadinhos.  A voz cristalina do António continuava a ouvir-se dando conselhos e palpites, por sinal bastante certeiros:
 - Não vale a pena procurarem-nos no barranco, que eles não estão aí. Não ouviram a pedra vir fungando lá do outro lado? Eles estão é além na Chã…
- Nova pedra saiu da funda ainda com mais violência do que as anteriores, a avaliar pelo estralo que deu quando bateu no tronco de uma árvore, ou numa pernada grossa.
Foi a gota de água!  Ouviram-se vozes exaltadas praguejando. Aos ouvidos do Zé e do Manel chegaram com clareza as palavras “vamos à busca dele”, e também a voz inconfundível do António a perguntar:
- Então para que é a espingarda? - Nenhum dos dois teve tempo para ouvir a resposta. O Zé, que ainda continuava deitado no chão, levantou-se de um salto como se tivesse sido impelido por uma mola. Mas já o Manel, sem dizer água vai, tinha corrido quase dez metros. Como estavam praticamente no bico do cerro, bastaram três ou quatro  segundos para extraposer para o outro lado e sair da vista do acampamento. À luz clara da lua, continuaram numa carreira louca pela soalheira abaixo, em direção ao Barranco do Deserto. O Manel, que por um lado tinha partido primeiro e por outro tinha a vantagem que mais quatro anos de idade lhe davam ao comprimento das pernas, levava uns bons vinte ou trinta metros de avanço.
O Zé conhecia o terreno como as palmas das suas mãos e
Os Ciganos (continuação 6)
Tinham combinado encontrar-se no largo, ao pé do forno do Monte, e o Zé depois de comer a ceia encaminhou-se para lá. A noite estava limpa. No céu, sem um bico de nuvem, a lua cheia derramava uma luz tão clara que, em campo aberto, seria perfeitamente possível ver um vulto em movimento a mais de um quilometro de distância. Na rua não se via vivalma. Das chaminés subiam colunas de fumo, tão direitinhas, tão direitinhas, que confirmavam a ausência de um simples bafo de vento. Por um ou outro postigo aberto, viam-se tremelicar as luzes mortiças dos candeeiros a petróleo. Na noite gelada, o silêncio era apenas quebrado pelo ladrar compassado de um ou outro cão. Ao longe, para os lados da Corga da Burra, começaram a ouvir-se os gritos agoirentos de um mocho. Sem saber bem porquê, o Zé arrepiava-se todo quando ás vezes andava de noite sozinho na rua e ouvia um mocho a cantar. Se calhar era porque algumas pessoas velhas do Monte, diziam que os mochos cantavam  quando aberruntavam gente morta!
Ao pensar nisso, não pôde evitar um dos tais arrepios enquanto o mocho continuava com a sua gritaria que, no silêncio da noite, podia ouvir-se a quilómetros de distância: uíu!…uíu!… uíu!… úúúúuuuu… úúúúuuuu… uíu!…uíu!
- Pássaro dum cabrão que não se cala! - Ia sentar-se no pial do forno à espera que o Manel chegasse quando, com um enorme salto, saiu um gato disparado de dentro do forno roçando ainda no ombro do Zé, enquanto no ar ficava pairando a poeira da cinza que levantou ao saltar do forno. O Zé deu instintivamente um salto para o lado, enquanto sentia um arrepio dos pés à cabeça, sitio onde pareceu demorar-se mais, dando-lhe a impressão de ter ficado com os cabelos em pé.
– Gato dum cabrãofilho da puta que me fez apanhar medo! - Já não se sentou. Rodou à volta do monte disposto a ir à casa do Manel, mas não chegou lá porque o encontrou também já a caminho do local combinado. Saíram do Monte e afastaram-se o suficiente para não serem reconhecidos caso alguém os visse. Atravessando as raciadas, contornaram a povoação passando a cerca de cem metros das casas, no limite da mesma. Desceram ao Barranco do Deserto, passaram a Cerca das Oliveiras e dirigiram-se ao Cerrinho da Chã. Pelo caminho, sentindo-se agora bastante mais foito na companhia do Manel, o Zé foi-lhe contando o cagaço que o gato lhe tinha pregado. Com uma gargalhada abafada, para não chamar a atenção de alguém que eventualmente estivesse nas proximidades, o Manel exclamou:
- Porra, porra, que é preciso ter cagufo! Estava mais que visto que saltava um gato de dentro do forno. As mulheres cozeram hoje e a cinza ainda deve estar quentinha. Está um cabrão dum frio, que até um gajo lhe apetecia meter-se dentro do forno… quanto mais um gato!
Já a meio da soalheira, enquanto subiam para o Cerrinho da Chã, o voo rasante de uma ave noturna, que o Manel de imediato disse ser um latibó, lançou a conversa sobre o mocho, que já havia algum tempo que tinha deixado de se ouvir. 
O Manel confirmou: - quando os mochos cantavam assim, era sinal que tinha morrido alguém, ou ia a morrer. Garantido que ou já estava morto, ou estava acabando! Já tinha ouvido dizer à avó, à ti Balbina e a mais uma catrafada de gente velha.
 – Mas aqui no Monte não morreu ninguém… – disse o Zé, sem no entanto conseguir evitar novo arrepio. E já o Manel argumentava:
- Não morreu aqui, mas morreu de certeza noutro lado; talvez no Balurco ou além p'rá Corte! Esses bichos têm um instinto tão fino, tão fino, que são capaz de aberruntar gente morta até sabe-se lá onde. Como iam passando junto a um chaparreiro, o Zé bateu com os cotromelos dos dedos três vezes no pé da árvore, enquanto exclamava:
- Óstia! Que o Diabo seja surdo e mudo. Se tem que morrer alguém, pelo menos que seja lá bem longe!
O Manel contou ainda que nesse campo havia outros pássaros que também eram meios maniversos. Era o caso das corujas que estavam sempre à espera que morresse alguém, para irem ao cemitério mamar o azeite dos candeeiros que as pessoas  punham lá para alumiar as sepulturas.
 – Nas igrejas então é um ver se te avias…  o padre ou o sacristão põem o azeite nos candeeiros durante o dia, e elas limpam-no à noite! – continuava o Manel. - Já pouco à vontade o Zé retorquiu:
- Porra… vamos lá mudar a merda da conversa, se não esta noite já não durmo descansado! - Tinham acabado de chegar ao bico do cerro e pararam na eira do lavrador Afonso. Sentaram-se no chão junto à eira, no palheiro do lado norte, e ficaram um pouco em silêncio, a estudar a área circundante, para decidirem a melhor forma de executar o plano. Estavam a cerca de cento e cinquenta metros da ferroveira do ti Romão, mais coisa menos coisa, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos. A alfarrobeira era uma árvore enorme, com uma copa que abarcava uma área suficiente para levar quase uma quarta de semente. À sua volta, várias oliveiras também de grande porte formavam um maciço que encobria por completo o acampamento. Do sítio onde estavam, num plano mais elevado, dominava-se por completo toda a área envolvente. As labaredas da fogueira, que se adivinhava enorme pela luz que projetava em redor, apenas eram visíveis pelas luzernas que se escapavam através da folhagem densa das árvores. No silêncio da noite era possível identificar, na conversação que faziam, várias conversas cruzadas, levando a crer que se tratava de um grupo de pessoas bastante grande. O Zé pareceu-lhe ouvir algumas vozes familiares, mas não conseguiu identificar de quem. Depois de discutirem alguns aspetos, o Manel sentenciou:

- Bom… joga-se uma pedra e esperamos um pouco até jogar outra, para eles não saberem de que lado é que elas vêm. Eu jogo as primeiras cinco e depois jogas tu. Arranjamos duas ou três mais compridinhas para zunirem. Não chegam tão longe, mas fazem uma zunida que eles até se arrepiam…” a mai grossa é c’mó pitrol”. Com ataques de risa silenciosos... (continua)