O Pão (Continuação 7)
A pesca era outra safa
para apaziguar a fome, mas havia já muitos meses que o ti Simão tinha que
fazer mais de vinte quilómetros para tentar apanhar peixe para a refeição. Nos
sítios onde normalmente os apanhava, que eram a ribeira e os barrancos, nesse ano não fora possível
porque não chovera e, tanto uma como outros, estavam mais secos que um pau. Quando a ribeira tinha água à farta os barrancos corriam, era quase sempre fácil apanhar peixe para comer.
Ainda antes do início da primavera, as pardelhas, as bogas, as paxonas, e
outros peixes pequenos a que o ti Simão já ouvira chamar saramugos, começavam a
entrar para os barrancos. Nessa época
o ti Simão colocava em sítios estratégicos, normalmente nos correntes, alguns
côvados de cana que atempadamente construíra. Não necessitavam de ser iscados.
Os correntes eram estreitos e chatos,
o que permitia colocar os côvados onde a veia
de água fosse mais forte e tapar o resto com algumas fiadas de pedras, levando a que a possibilidade de os peixes
passarem ao lado do côvado fossem muito reduzidas. Na ribeira, também era
possível utilizar esta estratégia mas, devido à sua maior dimensão, só lá mais
para o fim da primavera, quando o caudal fosse mais reduzido. Antes disso, na
ribeira, só com um tresmalho ou uma
tarrafa, e isso eram peças de luxo que o ti Simão não tinha. Por vezes também
armava côvados nos pegos mais fundos
da ribeira, mas nesse caso tinham que ser iscados. Para esta modalidade o ti
Simão tinha dois côvados que fizera em verga porque, para pescar ao fundo, os
achava mais eficientes do que os de cana. Iscava-os com tremoços doces e algum
milho se o tinha. Prendia-os com uma corda de junça e atava-lhe uma pedra para fazer peso e os manter no fundo do pego. Mas o peixe que apanhava desta
forma era sempre pouco. No rio resultava muito melhor.
Uma vez chegado o
verão, quando os pegos da ribeira começavam a baixar, era altura de pôr em
pática outras estratégias. Primeiro, quando os pegos ainda tivessem bastante
água, o ti Simão começava por apanhar os peixes à lapa Nestes casos procurava sempre os pegos onde houvesse mais
pedras atenxadiças, desde que tivesse
esconderijos onde os peixes se acolhiam. Em pegos onde não existiam
esconderijos naturais, o ti Simão chegava a colocar pedras e fazer lapas artificiais onde os peixes se
pudessem esconder, para depois, sorrateiramente, meter lá a mão e trinca-los. No fim do verão, quando o
pego já tivesse pouca água, antes que secasse ou que as garças começassem a sua
própria pescaria, era a altura de fazer a razia total aos peixes que tinham
tido a sorte de iludir os pescadores até então. O ti Simão era raro usar esta
técnica, só recorrendo a ela em casos excecionais. Tratava-se de embarbascar o pego. Era uma conjugação simples de determinadas plantas que,
deitadas na água em certa quantidade, tinham a propriedade de deixarem os
peixes tão zonzos, que se apanhavam à mão. A mistura era feita com uma planta
chamada brabasco e crescia em muitos
locais em abundância significativa. O ti Simão apanhava-a já depois de seca,
pisava-a com uma pedra até ficar bem moída, misturando-a depois com munha de centeio e um pouco de água.
Fazia pequenas bolas com a mistura, que depois atirava para a água. Algumas
horas depois, todos os peixes do pego andavam à tona de água, tão bêbados, que
era só apanhá-los e metê-los no cesto. Não era das coisas que mais agradava ao
ti Simão, porque ficava com a sensação incómoda de estar a agir à falsa-fé; de
ser uma luta desigual e da qual não havia qualquer possibilidade de salvação
para os desgraçados dos peixes. Mas nesse ano nada disso tinha acontecido.
Mesmo nos pegos de nascente que ainda
tinham alguma água, os peixes tinham sido literalmente dizimados no ano
anterior, e como nesse ano a ribeira e barrancos não voltaram a correr, não
houve repovoamento com peixe de entrada.
A ausência de
chuva fizera com que não houvesse pisca
de água. Até mesmo os moirais tinham que percorrer grandes distâncias para
encontrar na ribeira pegos com alguma água para os animais beberem.
Ao ti Simão
restava a hipótese do rio para tentar apanhar algum peixe para comer e que era onde
se havia entretido nesse ano, praticamente desde o inicio do verão, com meia
dúzia de côvados de verga. Saía de casa logo de manhã. Levava o burro e as duas
cabras e passava por lá o dia. Atava o burro e as cabras para pastarem, num
local onde pudessem chegar às sombras, e
ia aos canaviais colher carriços para
lhes reforçar a alimentação. Fazia uns cestinhos e umas canastras; recolhia
verga nos freixos junto ao rio para fazer novos côvados; dormia uma folga, e à
tardinha retirava os côvados da água para recolher o peixe e voltava a
lança-los de novo à água. Antes de regressar ao Monte, por vezes já a caminho
do mesmo, fazia uma paragem para procurar um sítio para armar a rateirinha.
Nesse verão,
depois de muito magicar, tinha descoberto uma forma de apanhar peixe mais
facilmente e em maior quantidade do que nos côvados. Era uma experiência que
não conseguia pôr em prática sozinho e um dia, enquanto estava à folga junto ao
poço do vinagre com o Dias do Marmeleiro, expôs-lhe a ideia e convidou-o para o
ajudar a fazer a experiência. A questão é que era um sistema que dava muito nas vistas e era impossível
fazê-lo pela calada,. Depois de
discutir o assunto, decidiram dar conhecimento aos guardas do posto da
Grandaça, que ficava bem perto do local escolhido. Quando lhes falaram nisso, e
depois de explicar que não iriam usar qualquer rede e que seria tudo feito com ideias, o comandante do
posto deu-lhes autorização para a pescaria. Pareceu-lhes que o cabo Rocha nem
por sonhos acreditava que fossem apanhar qualquer peixe, porque lhes disse com
ar de gozo:
- E não se
esqueçam de nos trazer depois um cestinho de peixe!
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de
baraçinha de junça...
(continua)