Os Ciganos
Podia ter dado mau
resultado… ai podia, podia! Mas como é que nem tinha pensado nisso na altura?
Como é que tinha sido tão parvanito
ao ponto de nem se aperceber que estavam a fazer asneira e da grossa? E como é
que no outro dia de manhã, logo àquela hora, o pai e a mãe já sabiam? Que ninguém os tinha visto,
ou pelo menos conhecido, podia assegurar. Quanto muito podiam desconfiar, mas
afirmar que tinham sido eles… nã…não podia ser!
Pouco passava da
hora de almoço, e parecia-lhe que o dia já começara havia séculos. Sentia um nó
na garganta, um peso no peito e uma inquietude que não sabia explicar. O
tormento tinha começado logo de manhanita,
quando estava já sentado à mesa a beber o café com fatias de ovo, antes de abalar com o pai para a lavoura, para uma folha de alqueve que estavam a fazer
no Barranco da Nora. Já havia estranhado a atitude do pai e da mãe, ambos muito
sérios, sem dizerem nem de lhe dirigirem uma única palavra, desde que a mãe o
acordara de manhã com um ríspido “levanta-te que são horas!” O coração deu-lhe um pulo quando a mãe lhe perguntou de
repente:
- Onde é que foste ontem à noite?
– Quem… eu? –
Perguntou de uma forma que a ele próprio lhe soou demasiado comprometida e
atabalhoada.
– Sim, tu…onde é que estives-te ontem à noite?
– Estive com os moços… e ao pé do fogo à da ti Balbina.
– Sim. E antes de ires para casa da ti
Balbina, o que é que estives-te fazendo?
– Nada…
– Nada…
- Nada? Onde é que
foste com o Manel?... E que mal é que as pessoas vos estavam fazendo, para se
irem meter com elas?
– Porra… estava lixado! - Engoliu em seco
e não respondeu, dando com o silêncio a verdadeira confirmação às suspeitas da mãe, se esta
alguma dúvida ainda tivesse. Mas como é que àquela hora já sabiam o que se
tinha passado? E, pior ainda, que ele tinha estado metido nisso? Mas a mãe
continuou, implacável:
- Não tens vergonha? E se vocês abrem a cabeça a uma criatura com uma pedra? - O pai, por seu
lado, fixava-o com um olhar duro e reprovador enquanto murmurava:
- Moços dum cabrão, que só fazem tarravasias…
não têm mais nada que fazer? Não sabem bater com a cabeça numa parede? - Não lhe bateram. O
pai ainda disse:
- Devia-te pregar um valente par de orelhadas, que era para
aprenderes!
Ao que a mãe
reforçou de imediato:
- Com a mão não!...
Devia era levar com uma vara de loendro verde nas nalgas, até que ela tivesse um pedacinho!
- Bom… a tempestade
ia acalmando. Ainda pensou que levava uma untura,
mas estava safo! Não que lhe cascassem
com muita frequência, aliás, era mesmo muito raro isso acontecer, se calhar
porque já ia sendo um homenzinho - tinha quase treze anos – mas desta vez tinha visto a barra áspera!
Tinha pressa em pôr
um ponto final à situação. Contrariamente ao que por norma acontecia, foi o
primeiro a terminar o pequeno almoço e a levantar-se da mesa, com a desculpa de
ir dar água ás bestas, que o pai já tinha albardado,
para se irem embora para a lavoura. Mas ainda havia outra etapa a ultrapassar,
que agora o estava também a preocupar: é que no caminho que levavam para ir
para a lavoura, passavam à raciada do
ti Romão, a menos de dez metros da alfarrobeira onde os ciganos estavam
acampados! E se eles também já sabiam quem tinha sido? E se o chamassem a contas quando ia a passar?
Bom… pôr-lhe as unhas em cima, é que
não punham. Nem que tivesse que dar corda
ás botas! Apressou-se a desamarrar as
bestas, carregou o alforge com a talega
do almoço e as cevadeiras de ração que o pai já tinha aviado, fez uma azelha na
arreata do macho, prendeu-a na arrabicha da albarda do burro e dirigiu-se para o poço público, situado a pouco
mais de cem metros da povoação. Todos os dia de manhã, antes de abalarem para a
lavoura, era sua função pôr os animais a beber na pia junto ao poço, na qual ia despejando a água tirada a braço
com a corda e o caldeirão. À volta empontou o burro à frente e regressou já
montado no macho, não fosse caso de o pai o escolher para se montar e deixasse
o burro para ele, como ás vezes sucedia. Se isso acontecesse e tivesse que cavar por causa dos ciganos, estava lixado porque o burro não fugia nada! Pelo contrário o Maroto era o macho mais famoso das redondezas e se tivesse que fugir, por muito
que os ciganos corressem, jamais chegariam sequer perto do Maroto.
O local do acampamento, a cerca de trezentos
metros, era perfeitamente visível do sitio onde estava, quando se meteram ao caminho.
O pai à frente acavalo no burro e ele atrás montado no macho. Se fosse preciso dar à sola, rapidamente faria o Maroto
dar meia volta e disparar a caminho de casa. Olhou na direção do acampamento e
estranhou ver um certo movimento em redor do mesmo. - Mau, mau… seria que o
tinham visto abalar e já estavam à espera dele? - À medida que se iam
aproximando, o coração acelerava. Ao desfazer a curva da ponte, o local do
acampamento que até aí tinha estado encoberto pela enorme alfarrobeira, ficou
de repente a descoberto. O Zé esperava tudo menos aquilo! O acampamento... (continua)