terça-feira, 22 de maio de 2018


Os Ciganos


Podia ter dado mau resultado… ai podia, podia! Mas como é que nem tinha pensado nisso na altura? Como é que tinha sido tão parvanito ao ponto de nem se aperceber que estavam a fazer asneira e da grossa? E como é que no outro dia de manhã, logo àquela hora, o pai e a mãe já sabiam? Que ninguém os tinha visto, ou pelo menos conhecido, podia assegurar. Quanto muito podiam desconfiar, mas afirmar que tinham sido eles… nã…não podia ser!

Pouco passava da hora de almoço, e parecia-lhe que o dia já começara havia séculos. Sentia um nó na garganta, um peso no peito e uma inquietude que não sabia explicar. O tormento tinha começado logo de manhanita, quando estava já sentado à mesa a beber o café com fatias de ovo, antes de abalar com o pai para a lavoura, para uma folha de alqueve que estavam a fazer no Barranco da Nora. Já havia estranhado a atitude do pai e da mãe, ambos muito sérios, sem dizerem nem de lhe dirigirem uma única palavra, desde que a mãe o acordara de manhã com um ríspido “levanta-te que são horas!” O coração deu-lhe um pulo quando a mãe lhe perguntou de repente:
 - Onde é que foste ontem à noite?
– Quem… eu? – Perguntou de uma forma que a ele próprio lhe soou demasiado comprometida e atabalhoada.
 – Sim, tu…onde é que estives-te ontem à noite?
 – Estive com os moços… e ao pé do fogo à da ti Balbina.
 – Sim. E antes de ires para casa da ti Balbina, o que é que estives-te fazendo?
 – Nada…
- Nada? Onde é que foste com o Manel?... E que mal é que as pessoas vos estavam fazendo, para se irem meter com elas?
Porra… estava lixado! - Engoliu em seco e não respondeu, dando com o silêncio a verdadeira confirmação às suspeitas da mãe, se esta alguma dúvida ainda tivesse. Mas como é que àquela hora já sabiam o que se tinha passado? E, pior ainda, que ele tinha estado metido nisso? Mas a mãe continuou, implacável:
 - Não tens vergonha? E se vocês abrem a cabeça a uma criatura com uma pedra? - O pai, por seu lado, fixava-o com um olhar duro e reprovador enquanto murmurava:
- Moços dum cabrão, que só fazem tarravasias… não têm mais nada que fazer? Não sabem bater com a cabeça numa parede? - Não lhe bateram. O pai ainda disse:
- Devia-te pregar um valente par de orelhadas, que era para aprenderes!
Ao que a mãe reforçou de imediato:
- Com a mão não!... Devia era levar com uma vara de loendro verde nas nalgas, até que ela tivesse um pedacinho! - Bom… a tempestade ia acalmando. Ainda pensou que levava uma untura, mas estava safo! Não que lhe cascassem com muita frequência, aliás, era mesmo muito raro isso acontecer, se calhar porque já ia sendo um homenzinho - tinha quase treze anos – mas desta vez tinha visto a barra áspera!

Tinha pressa em pôr um ponto final à situação. Contrariamente ao que por norma acontecia, foi o primeiro a terminar o pequeno almoço e a levantar-se da mesa, com a desculpa de ir dar água ás bestas, que o pai já tinha albardado, para se irem embora para a lavoura. Mas ainda havia outra etapa a ultrapassar, que agora o estava também a preocupar: é que no caminho que levavam para ir para a lavoura, passavam à raciada do ti Romão, a menos de dez metros da alfarrobeira onde os ciganos estavam acampados! E se eles também já sabiam quem tinha sido? E se o chamassem a contas quando ia a passar? Bom… pôr-lhe as unhas em cima, é que não punham. Nem que tivesse que dar corda ás botas! Apressou-se a desamarrar as bestas, carregou o alforge com a talega do almoço e as cevadeiras de ração  que o pai já tinha aviado, fez uma azelha na arreata do macho, prendeu-a na arrabicha da albarda do burro e dirigiu-se para o poço público, situado a pouco mais de cem metros da povoação. Todos os dia de manhã, antes de abalarem para a lavoura, era sua função pôr os animais a beber na pia junto ao poço, na qual ia despejando a água tirada  a braço com a corda e o caldeirão. À volta empontou o burro à frente e regressou já montado no macho, não fosse caso de o pai o escolher para se montar e deixasse o burro para ele, como ás vezes sucedia. Se isso acontecesse e tivesse que cavar por causa dos ciganos, estava lixado porque o burro não fugia nada! Pelo contrário o Maroto era o macho mais famoso das redondezas e se tivesse que fugir, por muito que os ciganos corressem, jamais chegariam sequer perto do Maroto.
O local do acampamento, a cerca de trezentos metros, era perfeitamente visível do sitio onde estava, quando se meteram ao caminho. O pai à frente acavalo no burro e ele atrás montado no macho. Se fosse preciso dar à sola, rapidamente faria o Maroto dar meia volta e disparar a caminho de casa. Olhou na direção do acampamento e estranhou ver um certo movimento em redor do mesmo. - Mau, mau… seria que o tinham visto abalar e já estavam à espera dele? - À medida que se iam aproximando, o coração acelerava. Ao desfazer a curva da ponte, o local do acampamento que até aí tinha estado encoberto pela enorme alfarrobeira, ficou de repente a descoberto. O Zé esperava tudo menos aquilo! O acampamento... (continua)