segunda-feira, 9 de julho de 2018

Os Ciganos (continuação 4)
Tinham ido colher canas à Ribeira da Foupana, à parte de cima do pego do Lindague, no canavial do Samarrinha. O Zé e o Chico tinham ido também com os homens e à medida que estes iam colhendo as canas, ajudavam a trazê-las para fora do canavial, a tirar-lhe os carriços e a coloca-las num moitão. Outros iam logo pelando nelas, usando para o efeito alguns foiços, que tinham sido feitos de foices velhas, cujas lâminas tinham sido partidas sensivelmente a meio, tornando muito mais fácil o seu manejo para a tarefa da pela das canas. Quando se estimou que havia uma quantidade suficiente, foram agrupadas em molhos de vinte e cinco, atadas  com varas de loendro verdes e carregadas nas bestas para serem  levadas para o Monte. Pararam ainda no barranco dos Soalheirões, para o pai do Chico colher com um podão, um molho de varas de loendro grossas, que posteriormente seriam rachadas ao meio para ajudarem a fixar com pregos, as canas do caniço aos paus do telhado.
Depois de dois dias de trabalho que envolveu uma grande parte das pessoas do Monte, o telhado da escola ficou pronto. Nesse ano, quando começou a época das chuvas e do frio, não foi preciso fazer fintas ás goteiras e a menina Clarinha esfregava as mãos de contente não se cansando de repetir o quanto acolhedora estava agora a escola.
***
A Carmencita ofereceu inicialmente alguma resistência quando a chamaram para brincar com eles. A Filomena e a Rita acabaram por convencê-la, quando foram ter com ela e se ofereceram as duas para lhe emprestarem as suas bonecas. A Carmencita, que estava com a irmanzita pequena atraçalhada ao colo, acabou por pô-la no chão e ainda que um pouco de pé atrás, seguiu a Filomena e a Rita. Brincaram com as bonecas durante um bom pouco e a Rita ficou durante breves instantes de monco caído, por a Carmencita preferir brincar com a boneca da Filomena. A boneca da Rita tinha-lhe sido oferecida por uma tia, que a comprara numa loja em Lisboa, onde morava. Pelo contrário a da Filomena era uma boneca de trapos que a avó lhe  tinha feito. Tinha por base a forca de uma vara de loendro, como as que o Zé usava para fazer uma fisga, que depois tinha sido engenhosamente envolta em trapos para lhe dar volume e finalmente com acabamentos muito perfeitos. Duas marcas de punho de camisa, azulinhas, a fazer de olhos, a boca bordada com linhas cor de rosa, os cabelos, feitos com um bocado de linho, atados em rabo de cavalo, uns pés e umas mãos também muito bem feitos, ainda que em tamanho um pouco desproporcional em relação ao corpo.
Um pouco mais afastados, o Zé, o Luís e o António, continuavam a jogar à pata choca e finalmente conseguiram que a Rita e a Filomena trouxessem também a Carmencita para o jogo. Tratava-se de um jogo simples, mas ao qual achavam piada pelo facto de ser preciso muita concentração e golpe de vista, para ter êxito no mesmo. No jogo da pata coca, começava por colocar-se o pequeno ovo no chão de terra, a cerca de três metros de uma linha marcada no chão, atrás da qual todos  se posicionaram para iniciar o jogo.  A Carmencita foi a última a jogar, para que pudesse observar como é que se fazia. Cada vez jogava um. Junto da linha, observavam e memorizavam bem o local onde estava o ovo, antes de lhes serem vendados os olhos com um lenço preto que a Filomena tinha ido pedir à avó. Seguidamente pegavam na vara com cerca de um metro de comprimento e avançavam alguns passos, de olhos vendados, procurando depois atingir o ovo com uma única varada. O Zé e a Filomena eram os campeões deste jogo, já que conseguiam acertar e partir mais ovos do que qualquer outro dos camaradas de brincadeira. Mas rapidamente a Carmencita lhe apanhou o jeito. Ás duas primeiras tentativas, a vara bateu perigosamente perto do ovo, deixando adivinhar que era uma adversária a ter em conta. Nos primeiros ovos que partiu, o Luís ainda argumentou que era sorte de principiante mas, quando as varadas certeiras se iam repetindo, acabou por concordar que já era sorte a mais. O António, por sua vez, exclamava com admiração:
- Porra… que a gaja tem cá um tino do caraças! Nesse dia, quando a Marília regressou com os filhos mais novos ao acampamento, a Carmencita ficou ainda por muito tempo na brincadeira com o grupo do Zé.
***
Os ciganos continuavam numa azáfama dando os últimos retoques na trogia que tinham carregado nas bestas e nas carroças, sob as indicações de um cigano já com alguma idade, de chapéu preto, longas barbas e cabelo picarço. O pai do Zé deu os bons dias e, como quem não quer a coisa, disse para o cigano do cabelo picarço:
- Então ainda ontem à tarde chegaram, já se vão embora?
O cigano, de cara muito séria e voz arrastada, respondeu:
- Vamos embora porque não nos querem cá! - O pai do Zé, fazendo-se desentendido, voltou a perguntar:
- Mas quem é que não os quer cá?
 - Quem é não sei, mas alguém não nos quer cá, porque ontem à noite entraram com a gente à pedrada.
– Ó homem… ninguém com juízo aqui no Monte se ia meter com vocês! Têm estado cá tanta vez, já alguém vos fez mal?
– Não. Nunca. É das terras onde temos sido melhor tratados até agora. Mas ontem à noite correram-nos à pedra!
O pai do Zé continuou argumentando:
 - Isso quem se meteu com vocês foram dois ou três gaiatos sem trembelho. Deixem-se estar aqui que ninguém vos faz mal.
– Não vizinho…não foram gaiatos não senhor. Não há gaiato nenhum que seja capaz de jogar pedras daquela maneira! Quem jogou as pedras tinha muita força, porque as jogou de bem longe. A gente corremos tudo à procura e não encontrámos, nem vimos ninguém por perto.
- O coração do Zé galopava cada vez mais, pelo rumo que a conversa tinha tomado. Seria que o pai ia dizer ao cigano que tinha sido ele? Viu-o a olhar na sua direção e percebeu que ele estava a equacionar essa hipótese... (continua)

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