Tinham ido colher canas à Ribeira da Foupana, à parte de cima
do pego do Lindague, no canavial do
Samarrinha. O Zé e o Chico tinham ido também com os homens e à medida que estes
iam colhendo as canas, ajudavam a trazê-las para fora do canavial, a tirar-lhe
os carriços e a coloca-las num moitão. Outros iam logo pelando nelas, usando para o efeito
alguns foiços, que tinham sido feitos
de foices velhas, cujas lâminas tinham sido partidas sensivelmente a meio,
tornando muito mais fácil o seu manejo para a tarefa da pela das canas. Quando se estimou que havia uma quantidade
suficiente, foram agrupadas em molhos de vinte e cinco, atadas com varas de loendro verdes e carregadas nas
bestas para serem levadas para o Monte.
Pararam ainda no barranco dos Soalheirões, para o pai do Chico colher com um podão, um molho de varas de loendro
grossas, que posteriormente seriam rachadas ao meio para ajudarem a fixar com
pregos, as canas do caniço aos paus do telhado.
Depois de dois dias de trabalho que envolveu uma grande parte das pessoas do Monte, o telhado da escola ficou pronto. Nesse ano, quando começou a época das chuvas e do frio, não foi preciso fazer fintas ás goteiras e a menina Clarinha esfregava as mãos de contente não se cansando de repetir o quanto acolhedora estava agora a escola.
Depois de dois dias de trabalho que envolveu uma grande parte das pessoas do Monte, o telhado da escola ficou pronto. Nesse ano, quando começou a época das chuvas e do frio, não foi preciso fazer fintas ás goteiras e a menina Clarinha esfregava as mãos de contente não se cansando de repetir o quanto acolhedora estava agora a escola.
***
A Carmencita
ofereceu inicialmente alguma resistência quando a chamaram para brincar com
eles. A Filomena e a Rita acabaram por convencê-la, quando foram ter com ela e
se ofereceram as duas para lhe emprestarem as suas bonecas. A Carmencita, que
estava com a irmanzita pequena atraçalhada
ao colo, acabou por pô-la no chão e ainda que um pouco de pé atrás, seguiu a Filomena e a Rita. Brincaram com as bonecas
durante um bom pouco e a Rita ficou
durante breves instantes de monco caído,
por a Carmencita preferir brincar com a boneca da Filomena. A boneca da Rita
tinha-lhe sido oferecida por uma tia, que a comprara numa loja em Lisboa, onde
morava. Pelo contrário a da Filomena era uma boneca de trapos que a avó
lhe tinha feito. Tinha por base a forca de uma vara de loendro, como as
que o Zé usava para fazer uma fisga, que depois tinha sido engenhosamente
envolta em trapos para lhe dar volume e finalmente com acabamentos muito
perfeitos. Duas marcas de punho de camisa, azulinhas, a fazer de olhos, a boca
bordada com linhas cor de rosa, os cabelos, feitos com um bocado de linho,
atados em rabo de cavalo, uns pés e umas mãos também muito bem feitos, ainda
que em tamanho um pouco desproporcional em relação ao corpo.
Um pouco mais
afastados, o Zé, o Luís e o António, continuavam a jogar à pata choca e finalmente conseguiram que a Rita e a Filomena
trouxessem também a Carmencita para o jogo. Tratava-se de um jogo simples, mas
ao qual achavam piada pelo facto de ser preciso muita concentração e golpe de vista, para ter êxito no mesmo.
No jogo da pata coca, começava por colocar-se o pequeno ovo no chão de terra, a
cerca de três metros de uma linha marcada no chão, atrás da qual todos se posicionaram para iniciar o jogo. A Carmencita foi a última a jogar, para que
pudesse observar como é que se fazia. Cada vez jogava um. Junto da linha, observavam
e memorizavam bem o local onde estava o ovo, antes de lhes serem vendados os
olhos com um lenço preto que a Filomena tinha ido pedir à avó. Seguidamente
pegavam na vara com cerca de um metro de comprimento e avançavam alguns passos,
de olhos vendados, procurando depois atingir o ovo com uma única varada. O Zé e
a Filomena eram os campeões deste jogo, já que conseguiam acertar e partir mais
ovos do que qualquer outro dos camaradas de brincadeira. Mas rapidamente a Carmencita
lhe apanhou o jeito. Ás duas primeiras tentativas, a vara bateu perigosamente
perto do ovo, deixando adivinhar que era uma adversária a ter em conta. Nos
primeiros ovos que partiu, o Luís ainda argumentou que era sorte de
principiante mas, quando as varadas certeiras se iam repetindo, acabou por
concordar que já era sorte a mais. O António, por sua vez, exclamava com
admiração:
- Porra… que a gaja tem cá um tino do caraças!
Nesse dia, quando a Marília regressou com os filhos mais novos ao
acampamento, a Carmencita ficou ainda por muito tempo na brincadeira com o grupo
do Zé.
***
Os ciganos
continuavam numa azáfama dando os últimos retoques na trogia que tinham carregado nas bestas e nas carroças, sob as
indicações de um cigano já com alguma idade, de chapéu preto, longas barbas e
cabelo picarço. O pai do Zé deu os
bons dias e, como quem não quer a coisa,
disse para o cigano do cabelo picarço:
- Então ainda
ontem à tarde chegaram, já se vão embora?
O cigano, de cara
muito séria e voz arrastada, respondeu:
- Vamos embora
porque não nos querem cá! - O pai do Zé, fazendo-se
desentendido, voltou a perguntar:
- Mas quem é que
não os quer cá?
- Quem é não sei, mas alguém não nos quer cá,
porque ontem à noite entraram com a
gente à pedrada.
– Ó homem…
ninguém com juízo aqui no Monte se ia meter
com vocês! Têm estado cá tanta vez, já alguém vos fez mal?
– Não. Nunca. É
das terras onde temos sido melhor tratados até agora. Mas ontem à noite correram-nos à pedra!
O pai do Zé
continuou argumentando:
- Isso
quem se meteu com vocês foram dois ou três gaiatos sem trembelho. Deixem-se estar aqui que ninguém vos faz mal.
– Não vizinho…não
foram gaiatos não senhor. Não há gaiato nenhum que seja capaz de jogar pedras
daquela maneira! Quem jogou as pedras tinha muita força, porque as jogou de bem
longe. A gente corremos tudo à procura e não encontrámos, nem vimos ninguém por
perto.
- O coração do Zé galopava cada vez mais, pelo
rumo que a conversa tinha tomado. Seria que o pai ia dizer ao cigano que tinha
sido ele? Viu-o a olhar na sua direção e
percebeu que ele estava a equacionar essa hipótese... (continua)
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