quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Pão (continuação 8)
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça, com a qual teceram depois dois caniços de cana com cerca de dois metros de altura e comprimento suficiente para tapar o Esteiro do Vinagre de barreira a barreira. A idéia era tapar o esteiro com os caniços, quando a maré estivesse totalmente cheia e houvesse bastante peixe a circular no barranco, impedindo-os de voltarem ao rio. Depois seria só esperar que a maré vazasse e, quando estivesse escorrida, apanhar à mão os peixes que tinham ficado em seco. O grande problema seria colocar os caniços na água. Depois de discutir algumas possibilidades que foram sendo postas de parte por chegarem à conclusão de que dificilmente resultariam, chegaram a consenso sobre uma forma que lhes pareceu a mais correta. Procuraram paus um pouco mais altos que os caniços, fizeram um outro caniço com cerca de um metro de altura e, quando a maré estava vazia, colocaram-no transversalmente no esteiro enterrando-o na lama sensivelmente até meio. O caniço foi fixado com os paus que foram atanchados aos pares, um de cada lado do caniço, com intervalos de cerca de dois metros. Os peixes não entrariam quando a maré estivesse quase vazia, mas faziam-no durante mais de meia maré. A estrutura iria manter-se sem alteração três ou quatro dias, antes de tentarem a pescaria, para que os peixes se habituassem à sua presença. No dia escolhido para tapar o esteiro dormiram no local. Perto do sol posto, logo que a maré ficou escorrida, começaram a preparar a armadilha. Os dois caniços foram colocados entre os paus a uma altura suficiente para ficarem fora de água quando a maré estivesse cheia. Seguidamente foram seguros em três pontos de apoio; um ao meio do esteiro e um em cada extremidade. Foram atadas algumas pedras na base do caniço para o obrigar a descer mais rápido quando fossem soltos os pontos de apoio e o engenho ficou pronto a ser acionado. Agora seria só esperar que a maré estivesse cheia para, um pouco antes da mesma virar, soltarem os pontos de apoio e a estrutura funcionar como uma guilhotina.
Por volta das duas da manhã, pouco faltava para a maré estar apremada. A lua tinha sido cheia no dia anterior e a maré era viva, tendo subido bastante e praticamente chegado acima das barreiras. O Dias, que por conhecer melhor o ciclo das marés tinha ficado responsável por indicar a altura certa para descer o caniço, disse ao Ti Simão que estava na hora de o fazer, antes que a maré começasse a dar sinal de virar. Nessa altura, era previsível que muitos dos peixes que entretanto tinham subido para o esteiro, começassem a regressar ao rio, tornando-se por isso urgente cortar-lhes a retirada, antes que se pusessem na alheta. Posicionando-se um de cada lado do esteiro, soltaram os pontos de apoio e deixaram os caniços descerem até cruzarem-se com os que estavam no  fundo. Uma vez arreados, os caniços ficaram apenas com meio metro fora de água, medida manifestamente reduzida, como pouco depois verificaram. Logo que a maré virou e começou a descer, alguns peixes começaram a regressar ao rio, como tinham previsto. Só não tinham contado foi com o facto de o caniço não os deter, porque armavam um salto e catrapus... ficavam no outro lado! Tinham que remediar o assunto na próxima vez, acrescentando mais um bocado a altura dos caniços. Mas à medida que a maré descia, ia  diminuindo a quantidade de peixes que conseguiam transpor o caniço, sendo que quando o mesmo tinha cerca de um metro acima do nível da água, poucos eram os que conseguiam a proeza. Analisando o comportamento dos peixes enquanto a maré descia, chegaram à conclusão que se os caniços tivessem metro e meio fora de água, seriam praticamente intransponíveis, exceto por um ou outro saltor mais nervoso. Por outro lado, também quase que só os muges eram artistas a suficiente para saltar por cima dos caniços; todos os outros ou nem sequer tentavam, ou quando o faziam era tarde de mais porque a maré já descera demasiado e a barreira era agora intransponível.
Ao romper do dia, verificaram que a estrutura tinha funcionado na perfeição e que estava bem segura. Á media que a maré ia vazando começaram a ver a movimentação dos peixes, verificando com alegria que havia uma enorme quantidade deles que tinham ficado presos no esteiro. Por volta das sete da manhã, com a maré praticamente escorrida, entraram no esteiro e começaram a apanhar os peixes que saltavam na lama. Verificaram que a maioria dos muges tinham-se maquinado, pelo menos os maiores, e que só os mais pequenos não tinham saltado por cima do caniço. Em compensação havia uma enorme quantidade de barbos e de carpas; uma quantidade razoável de robalos e sáveis, e ainda bastante peixe miúdo que não conseguiam identificar as espécies. Começaram por recolher os peixes maiores, com destaque para duas carpas enormes, que rondariam os quatro a cinco quilos cada uma e que se apressaram a agachar, para o cabo Rocha nem sequer lhe dar o cheiro. Na opinião do Dias, era garantido que se o gajo as visse se cobiçava nelas. Assim era melhor nem lhe dar a hipótese de ficar luzindo o olho! – Levas barbos e carpas e já gozas! – tinha acrescentado o Dias. Depois da recolha completa, tinham enchido duas canastras que despejaram num péguinho do barranco, perto do poço do vinagre, onde lavaram o peixe para lhe retirar a lama do esteiro. Seriam perto de duas arrobas de peixe. Para partir a cara ao cabo Rocha encheram um cesto que seguidamente foram levar ao posto, e o restante dividiram-no entre os dois. Cada um se encarregaria depois de gerir a sua parte, sendo que muitos dos vizinhos de ambos seriam seguramente convidados.
***
O ti Simão continuava sentado no pial...
(continua)

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