O Pão (continuação 8)
Nos dias seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de
metros de baraçinha de junça, com a qual
teceram depois dois caniços de cana com cerca de dois metros de altura e
comprimento suficiente para tapar o Esteiro do Vinagre de barreira a barreira. A idéia era tapar o esteiro com os caniços,
quando a maré estivesse totalmente cheia e houvesse bastante peixe a circular
no barranco, impedindo-os de voltarem ao rio. Depois seria só esperar que a
maré vazasse e, quando estivesse escorrida,
apanhar à mão os peixes que tinham ficado em seco. O grande problema seria
colocar os caniços na água. Depois de discutir algumas possibilidades que foram
sendo postas de parte por chegarem à conclusão de que dificilmente resultariam,
chegaram a consenso sobre uma forma que lhes pareceu a mais correta.
Procuraram paus um pouco mais altos que os caniços, fizeram um outro caniço com
cerca de um metro de altura e, quando a maré estava vazia, colocaram-no
transversalmente no esteiro enterrando-o na lama sensivelmente até meio. O
caniço foi fixado com os paus que foram atanchados
aos pares, um de cada lado do caniço, com intervalos de cerca de dois
metros. Os peixes não entrariam quando a maré estivesse quase vazia, mas
faziam-no durante mais de meia maré. A estrutura iria manter-se sem alteração
três ou quatro dias, antes de tentarem a pescaria, para que os peixes se
habituassem à sua presença. No dia escolhido para tapar o esteiro dormiram no
local. Perto do sol posto, logo que a maré ficou escorrida, começaram a preparar a armadilha. Os dois caniços foram
colocados entre os paus a uma altura suficiente para ficarem fora de água
quando a maré estivesse cheia. Seguidamente foram seguros em três pontos de
apoio; um ao meio do esteiro e um em cada extremidade. Foram atadas algumas
pedras na base do caniço para o obrigar a descer mais rápido quando fossem
soltos os pontos de apoio e o engenho ficou pronto a ser acionado. Agora seria
só esperar que a maré estivesse cheia para, um pouco antes da mesma virar, soltarem os pontos de apoio e a
estrutura funcionar como uma guilhotina.
Por volta das
duas da manhã, pouco faltava para a maré estar apremada. A lua tinha sido cheia no dia anterior e a maré era viva,
tendo subido bastante e praticamente chegado acima das barreiras. O Dias, que por conhecer melhor o ciclo das marés
tinha ficado responsável por indicar a altura certa para descer o caniço, disse
ao Ti Simão que estava na hora de o fazer, antes que a maré começasse a dar
sinal de virar. Nessa altura, era
previsível que muitos dos peixes que entretanto tinham subido para o esteiro,
começassem a regressar ao rio, tornando-se por isso urgente cortar-lhes a
retirada, antes que se pusessem na alheta. Posicionando-se um de cada lado do esteiro, soltaram os pontos de
apoio e deixaram os caniços descerem até cruzarem-se com os que estavam no fundo. Uma vez arreados, os caniços ficaram
apenas com meio metro fora de água, medida manifestamente reduzida, como pouco
depois verificaram. Logo que a maré virou e começou a descer, alguns peixes
começaram a regressar ao rio, como tinham previsto. Só não tinham contado foi
com o facto de o caniço não os deter, porque armavam um salto e catrapus...
ficavam no outro lado! Tinham que remediar o assunto na próxima vez,
acrescentando mais um bocado a altura dos caniços. Mas à medida que a maré
descia, ia diminuindo a quantidade de
peixes que conseguiam transpor o caniço, sendo que quando o mesmo tinha cerca
de um metro acima do nível da água, poucos eram os que conseguiam a proeza.
Analisando o comportamento dos peixes enquanto a maré descia, chegaram à
conclusão que se os caniços tivessem metro e meio fora de água, seriam
praticamente intransponíveis, exceto por um ou outro saltor mais nervoso. Por outro lado, também quase que só os muges
eram artistas a suficiente para saltar por cima dos caniços; todos os outros ou
nem sequer tentavam, ou quando o faziam era tarde de mais porque a maré já
descera demasiado e a barreira era agora intransponível.
Ao romper do dia,
verificaram que a estrutura tinha funcionado na perfeição e que estava bem
segura. Á media que a maré ia vazando começaram a ver a movimentação dos
peixes, verificando com alegria que havia uma enorme quantidade deles que
tinham ficado presos no esteiro. Por volta das sete da manhã, com a maré
praticamente escorrida, entraram no
esteiro e começaram a apanhar os peixes que saltavam na lama. Verificaram que a
maioria dos muges tinham-se maquinado,
pelo menos os maiores, e que só os mais pequenos não tinham saltado por cima do
caniço. Em compensação havia uma enorme quantidade de barbos e de carpas; uma
quantidade razoável de robalos e sáveis, e ainda bastante peixe miúdo que não
conseguiam identificar as espécies. Começaram por recolher os peixes maiores,
com destaque para duas carpas enormes, que rondariam os quatro a cinco quilos
cada uma e que se apressaram a agachar,
para o cabo Rocha nem sequer lhe dar o
cheiro. Na opinião do Dias, era garantido que se o gajo as visse se cobiçava nelas. Assim era melhor nem lhe
dar a hipótese de ficar luzindo o olho!
– Levas barbos e carpas e já gozas! – tinha acrescentado o Dias. Depois da
recolha completa, tinham enchido duas canastras que despejaram num péguinho do
barranco, perto do poço do vinagre, onde lavaram o peixe para lhe retirar a
lama do esteiro. Seriam perto de duas arrobas de peixe. Para partir a cara ao cabo Rocha encheram um
cesto que seguidamente foram levar ao posto, e o restante dividiram-no entre os
dois. Cada um se encarregaria depois de gerir a sua parte, sendo que muitos dos
vizinhos de ambos seriam seguramente convidados.
***
O ti Simão continuava sentado no pial...
(continua)
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