sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 5)

Quando o gajo dissera “vamos dar um paseo… até Huelva”, embora acreditasse que a frase tinha sido dita com segundas intenções, talvez quisesse apenas dizer que se não colaborasse o levavam para a cadeia de  Huelva. À partida não deveria haver razões de maior para se preocupar mas, de qualquer forma, sendo conhecedor do que se passava em Espanha desde que começara o alziamento, a alusão ao paseo, mesmo naquelas condições, era sempre motivo de preocupação. Quantos e quantos desgraçados é que, mesmo injustamente, tinham já sido fuzilados só porque um sacana de um falangista qualquer, à falsa fé, decidia “tirá-los de circulação”? Mas não sendo espanhol, esse cenário era uma coisa mais que remota. Mesmo que o engalfetassem não estava muito preocupado, porque alguém mexeria depois os cordelinhos para o tirar da prisão quanto antes. Por outro lado também não estava a ver que justificação poderiam dar para o prender, uma vez que não tinha sido apanhado com qualquer carga de contrabando.
Procurava ainda adivinhar um motivo para o terem caçado.  Seria alguém que o tinha amesiado? Algum grupo concorrente, que queria afastá-lo para dominar o negócio do contrabando na zona? Mas se fosse isso, porque tinham deixado os outros irem embora? E mais importante ainda, porque é que não tinham antes apreendido as cargas, e evitado a entrada do café no mercado? Foi interrompido pelo que seguramente seria o chefe dos seus captores, que lhe disse sem mais rodeios:
- Ilberto português… passas-te dez cargas de café; vamos apreender-te o dinheiro da venda! Entregas o dinheiro e podes ir à tua vida. Caso contrário vais bater com os ossos na cadeia de Huelva durante uns tempos, e podes ter a certeza de que nem o major Gomez te livra de passares lá uma temporada. Apresenta-me menos de três contos e vais ver o que te passa!
- Cum caraças! Então a coisa era outra e o motivo era o dinheiro? Grandes cabrões! - Agora começava a perceber porque tinham deixado os outros ir embora. De imediato percebeu que não havia volta a dar e nem valia a pena negar fosse o que fosse. A operação tinha sido bem montada; aliás… bem montada de mais para seu gosto! Notava-se que tinha havido uma preparação fora do comum. Os gajos, a avaliar pelo que tinha sido dito, andavam seguramente a investiga-lo havia algum tempo. Sabiam perfeitamente quem ele era; os contactos que tinha na zona e até a ligação ao major Gomez de Ayamonte. Sabiam que era ele que transportava o dinheiro e até a quantia exata que tinha recebido com a venda das dez cargas de café.
Fazendo bom uso da sua fama de ser mais fino que o azeite, o Ilberto encenou um pequeno sorriso e, com ar de admiração, disse para os seus captores: 
- Sim senhor… tiro-vos o chapéu e dou-vos os meus parabéns pelo trabalho que acabam de fazer! Acreditem que não era qualquer um que conseguia fazê-lo. – Olhando para o que reconhecera já como chefe do grupo, continuou:
- Estamos em campos opostos, mas ambos damos o nosso melhor naquilo que fazemos. Na parte que me toca acredito que o meu trabalho não prejudica ninguém e que pelo contrário ajuda e dá de comer a muita gente que doutra forma estariam na miséria. E não são só os meus homens e as suas famílias, mas também, direta ou indiretamente, muitas outras pessoas e famílias aqui em Espanha. Também sei que o contrabando prejudica o Estado na cobrança dos impostos e que o vosso trabalho é evitar que isso aconteça.
- O chefe do grupo, sem dizer palavra, escutava-o com uma expressão que ao Ilberto lhe pareceu mais branda e algo divertida.
 – É verdade que sou eu o responsável e que todos os homens do meu grupo trabalham para mim – continuava o Ilberto, enquanto desapertava a correia e desabotoava as  marcas da brigalhera, para   baixar um pouco as calças e tirar o dinheiro que tinha escondido na algibeira “secreta”, no  interior das mesmas.
– É verdade que tenho aqui três contos de réis que recebi da venda do café, mais trezentas pesetas para pagar o comer aos meus homens durante a viagem – disse enquanto estendia a mão com o dinheiro para o seu captor.
- És um pássaro fino Ilberto português… és um pássaro fino! O homem tinha razão… mas não vai ser isso que te livra de sofreres as consequências do trabalho que fazes - disse enquanto ia contando as notas que o Ilberto lhe tinha passado para a mão, sem no entanto especificar a que homem se referia. Terminada a contagem pegou nas trezentas pesetas que o Ilberto referira como sendo para a alimentação e devolveu-lhas de novo, enquanto lhe dizia com palavras carregadas de cinismo: 
- Toma… leva o dinheiro que trazias para a bucha e alimenta bem os teus homens, que vão precisar de estar em forma na próxima vez que nos encontrar-mos. - Sem mais demora,  deu ordem de retirada aos seus homens, enquanto acenava com a mão ao Ilberto em modo de despedida, sem lhe dirigir qualquer palavra mais.
Tempos depois daquele primeiro encontro, o Ilberto confirmaria que a promessa do falangista - como passara a referi-lo sempre que falava dele – não tinha sido bluf. Mas também o Ilberto não tinha ignorado o aviso e desde esse dia tomara outras precauções. Tinham-no apanhado descalço na primeira vez e palmado o dinheiro todo mas, desde então, passou a dividi-lo em quantias variáveis, que distribuía depois por quatro ou cinco dos seus homens. A partir daí  tinha sido um pouco o jogo do gato e do rato. Por  vezes tinham sorte e conseguiam safar-se; outras eram apanhados um ou dois dos seus homens, umas vezes com dinheiro, outras sem nada e as coisas mantinham-se nesse pé. Por estranho que parecesse ao Ilberto, embora fosse bem mais fácil para os carabineiros deitarem-lhe a luva quando ainda transportavam as cargas, continuaram a não se cruzar com eles, pelo menos os de Gibraleón.
Certo dia, numa das passagens que esporadicamente fazia por Ayamonte...
(continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário