quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 4)

Caminhavam havia mais de quatro horas e segundo os cálculos do Ilberto não faltaria muito para deixarem Tariquejo para trás. Como estavam a aproximar-se dos arredores da povoação, seguiam em silêncio e  com um intervalo de cerca de cem metros entre cada homem, como o próprio  Ilberto exigia sempre que cruzavam zonas que considerava perigosas. Seguia e quarto lugar no grupo, e parou para mijar a cerca de vinte metros antes de chegar a uma pequena cabana que estava mesmo junto ao caminho e que provavelmente servia para o dono da horta ao lado se abrigar e guardar alguns instrumentos agrícolas, tendo sido alcançado nesse preciso local pelo Faustino, que seguia na retaguarda do grupo. 
Foi nesse momento que os carabineiros saíram de dentro da cabana onde estavam escondidos e lhes gritaram a ordem de paragem. O Ilberto, pela proximidade a que foram surpreendidos, nem sequer tentou fugir. Estavam campo aberto, sem qualquer vegetação, e sabia que se arriscava a levar um tiro porque aquela distância dificilmente falhariam e ele dificilmente lhes conseguiria escapar. Pelo contrário, o Faustino, moço novo sem medo e com sangue na guelra, cavou-as sem pensar duas vezes. Para espanto do Ilberto não houve tiros, mas de imediato um dos cinco homens foi no encalço do fugitivo.
Segundo o próprio Faustino admitiu mais tarde, o tipo aproximou-se com uma rapidez e uma facilidade  que o deixaram pasmado, e se a perseguição tivesse durado mais uns minutos, seguramente que se teria visto em papos de aranha com o gajo. Surpresa maior teve o Ilberto, quando de repente um dos quatro homens que lhe tinham deitado a luva gritou para o que perseguia o Faustino : compañhero, viene… es este o cabrón! De imediato o que ia no encalço do Faustino abandonou a perseguição e regressou para junto do grupo. 
De repente, o Ilberto fugiu-lhe o sangue das algibeiras: acabara de reconhecer o que gritara! Na sua frente estavam três carabineiros fardados, um sargento e dois praças, e o quarto, à civil, era nem mais nem menos do que um dos dois gajos que estavam na taberna do Paco. O que perseguira o Faustino vinha agora chegando junto deles e o Ilberto confirmou, já sem qualquer surpresa, que era o outro tipo da taberna.
As ideias na cabeça do Ilberto andavam num raboliço. Mas que porra dum cabrão é que se tinha passado ali… que merda era aquela? Não havia qualquer dúvida de que o queriam a ele e só a ele. Só isso explicava que tivessem deixado passar os primeiros três homens do grupo dele e muito provavelmente todos os do outro grupo porque, ou muito se enganava, ou os sacanas tinham vindo de carro e já lá estavam quando passaram os seus primeiros homens. A interrupção da perseguição ao Faustino, se os restantes não chegassem, era por si só motivo mais que suficiente para fundamentar essa suspeita. 
O Ilberto, homem experiente na vida de contrabandista, conhecedor dos meandros  e rotinas da fiscalização e controlo por parte das autoridades espanholas à atividade do contrabando, era foito por natureza e nunca conhecera o medo no exercício da sua profissão. Sabia os riscos que corria e assumia-os, mas não facilitava. Nem o facto de ter as costas quentes com a proteção de uma alta patente da Guarda Civil, que engraçara com ele vá lá saber-se porquê e que inclusive já o safara a ele e a alguns dos seus homens de vários apertos, fazia com que se descuidasse no cumprimento das “regras”. O seu código de conduta incluía, entre muitas outras coisas, o respeito pelas autoridades, a precaução e descrição levadas ao extremo, e principalmente o respeito absoluto pelo alheio e pela propriedade privada de todos os lugares por onde passavam. Os seus homens, era mais certo estarem dois dias sem ingerir qualquer alimento, do que apanharem um simples figo numa figueira, para matarem a fome. As regras estavam estabelecidas, eram conhecidas por todos, e quem as quebrasse pura e simplesmente deixava o grupo para sempre!
Mas agora começava e estar deveras preocupado. Apercebera-se já de que quem mexia ali os cordelinhos eram os dois gajos à civil. Falavam com uma autoridade e arrogância de tal ordem, que era claramente visível que infundiam respeito ou até receio aos  carabineiros.O próprio sargento notava-se que estava meio assovacado. Talvez fossem oficiais, falangistas, ou o diabo a quatro; o certo é que havia ali qualquer coisa que lhe estava a escapar. 
O que tinha mandado parar a perseguição ao Faustino e que parecia ser o chefe, dirigiu-se por fim ao Ilberto:
 - Bom… vamos lá despachar isto que não tenho muito tempo para perder. As coisas são simples e só dependem de ti: ou correm bem e segues o caminho para Portugal, ou correm mal e vamos dar um paseo… até Huelva! 
- O coração do Ilberto deu um pulo e começou a galopar como uma besta espantada.
- O que é que aquele cabrão estava a insinuar? Seria possível que o tivessem confundido com alguém e que aquilo fosse algo mais grave que o contrabando e que tivesse a ver com política? 
- Sabia que não estava comprometido a esse nível, porque mesmo em Portugal procurava não se envolver em merdas dessas, que davam sempre mau resultado. A exceção tinha sido a ajuda pontual a pouco mais de meia dúzia de homens, que ajudara a passar para irem a salto para França. E mesmo nesses casos, tinha-os levado apenas até aos arredores de Villarrasa, na margem esquerda do Rio Tinto, porque não gostava de aventurar-se em coisas que não dominava e zonas que não conhecia bem. Aí tinha-os deixado a cargo do José Andrés, o passador “profissional", que se encarregaria de os fazer chegar a França.
Passada a surpresa do primeiro momento, começara rapidamente a acalmar-se, até porque já notara um sorriso gosão na cara do sacana do falangista, ou lá o que o gajo fosse, que seguramente quisera acagaçá-lo com a alusão ao paseo. Agora, com a cabeça mais fria, interpretava já a frase num sentido “mais à português”. Quando o gajo dissera “vamos dar um paseo… até Huelva”...
(Continua)

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