quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 3)
Embora ainda não se tivesse decidido, andava há muito a matutar numa ideia que não havia meio de lhe sair da cabeça. A cisma tinha começado logo no dia das sortes, quando se desimaginou do sonho de ser guarda. A ideia tinha surgido pouco depois de ter embarcado em Vila Real no gasolina, com destino a Alcoutim. Enquanto subia o rio Guadiana, o Zé ia observando os muitos postos da Guarda Fiscal que estavam localizados num plano mais elevado, nas zonas sobranceiras da margem direita do rio. Observou igualmente que na margem esquerda, os postos dos Carabinerios eram em bastante menor número e deu consigo a pensar que os contrabandistas, uma vez passado o rio, talvez tivessem a vida um pouco mais facilitada no lado espanhol.
 De repente surgiu-lhe a ideia: então e se falasse com o Ilberto, para ele lhe dar trabalho na quadrilha de contrabandistas? Era arriscado para caraças, mas quem tem medo não come uvas! Agora, que a possibilidade de ser guarda tinha ido para o maneta, a única hipótese que conseguia lombrigar para mudar de vida, era meter-se no contrabando porque, à do lavrador, era garantido que não passava da cepa torta. O maior problema seria mesmo convencer o Ilberto a dar-lhe trabalho porque, segundo se dizia à boca pequena, o Ilberto era extremamente rigoroso na seleção dos seus homens, e o Zé sabia que não tinha propriamente fama de homem valente. Mas não perdia nada em tentar… o não já ele tinha certo!
Tinha sido a insistência do Faustino e do Cavaco, também eles membros do grupo de contrabandistas do Ilberto, que intercederam pelo Zé junto do chefe e que o convenceram a dar-lhe uma oportunidade. Quando falaram com ele para lhe encarecer o amigo, o Ilberto primeiro escangalhou-se rindo, para lhes dizer depois:
- O Zé Casemiro? Então mas vocês estão parvos? Pensam que eu não tenho amizade ao dinheiro? Devia ser bonito, na primeira vez que a guarda se metesse a rabo dele e ouvisse um tiro… ainda a bala não tinha tido tempo de sair da espingarda e já ele se tinha cagado na carga!
– O Faustino e o Cavaco concordaram com ele, mas apresentaram-lhe um argumento que deixou o Ilberto a pensar:
 -  O Zé até podia ser fraco; abandonar a carga ao mais pequeno sinal de perigo e fazer trinta por uma linha, mas uma coisa era certa: para a guarda lhe pôr as unhas em cima… só morto! Eles bem tinham visto naquele dia, na Casa Nova, o que o Zé era capaz de fazer quando sentia o rabinho apertado!
O Ilberto não deu logo o braço a torcer, mas ficou pensando no assunto. Em boa verdade, a rapidez do Zé podia vir a ser-lhe útil. 
Nos últimos tempos, tinha-lhe surgido um problema grave quando iam para os lados Gibraleón, que por sinal era precisamente a região onde tinha agora os principais clientes do negócio do contrabando. Primeiro tinha começando por estranhar a facilidade com que se movimentavam sem serem praticamente incomodados pelos carabineiros, enquanto transportavam as cargas. Quando ocasionalmente apareciam faziam meia dúzia de tiros, provavelmente para o ar, mas ficavam-se por aí e nem fugiam atrás deles para tentar apanhar as cargas! Aquilo cheirou-lhe a esturro, porque não era nem um pouco mais ou menos o que acontecia por regra. O Ilberto ficou desde logo desconfiado de que os carabineiros não queriam apanhá-los por qualquer motivo que não entendia, mas como ainda não tinha havido azar, foi ficando mais descansado.
A explicação tinha vindo uma noite, da pior forma possível para o Ilberto. Nessa semana, fiando-se um pouco na facilidade com que entravam em Gibraleón, jogou forte e tinha trazido mais quatro homens além dos cinco que era habitual. Como de costume, não teve qualquer problema e entregara dez cargas de café que lhe tinham rendido a bonita quantia de três contos de réis. Finalizado o negócio e como era hábito, meteu o dinheiro numa algibeira cosida dentro das calças. 
Durante o dia, para não dar nas vistas, cada um tinha ido para seu lado, mas à tardinha tinham-se juntado na taberna do Paco onde ficaram até ao cair da noite, altura em que estava combinado iniciarem o regresso. Tinham combinado que regressariam em dois grupos de cinco, seguindo a mesma rota, com uma hora de intervalo. O Ilberto tinha desconfiado de dois gajos sentados ao balcão que, ainda que estivessem à civil, ninguém lhe tirava da cabeça que não eram carabineiros. Altos e secos de carnes tinham, enfiadas na cabeça, cada um a sua gorra das que habitualmente eram usadas pelos pescadores, mas que ao Ilberto deixaram o incómodo pressentimento de que não jogavam com os cortes de cabelo à escovinha que ambos usavam. 
Ficou um pouco mais descansado quando os camaradas do primeiro grupo começaram a sair e os tipos não lhes deram qualquer atenção, continuando a falar entre si, cada um com o seu copo de vinho á frente. Achou estranho que se entretecem a sorver o mesmo copo de vinho durante mais de uma hora. Por precaução decidiu sair em último lugar e ficou mais tranquilo ao verificar que os tipos não tiveram qualquer reação quando os seus quatro camaradas de grupo começaram a sair. Cerca de cinco minutos depois de todos terem deixado a taberna, levantou-se e dirigiu-se ao balcão para pagar a conta. Estranhou a rapidez com que ambos emborcaram os copos de vinho e saíram para a rua imediatamente atrás de si. Parou para lhes estudar a reação, mas os gajos tinham passado sem lhe dar qualquer atenção, entrado num carro que tinham no outro lado da rua e arrancado em seguida. Mais descansado reuniu-se ao seu grupo que o esperava nos arrebaldes, já fora de Gibraleón. Na rota a utilizar no regresso a casa, passariam entre San Bartolomé de la Torre e Tariquejo, cortariam por cima de S. Silvestre de Guzmán e, uma vez alcançado o rio Guadiana, fariam a travessia a seguir à curva do Pontal, um pouco abaixo do Posto da Grandaça.
Caminhavam havia mais de quatro horas e, segundo os cálculos do Ilberto, não faltaria muito para deixarem Tariquejo para trás...
(Continua)

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