O Contrabandista (continuação 3)
Embora
ainda não se tivesse decidido, andava há muito a matutar numa ideia que não havia meio de lhe sair da cabeça. A
cisma tinha começado logo no dia das
sortes, quando se desimaginou do
sonho de ser guarda. A ideia tinha surgido pouco depois de ter embarcado em Vila Real no gasolina, com destino a Alcoutim.
Enquanto subia o rio Guadiana, o Zé ia observando os muitos postos da Guarda
Fiscal que estavam localizados num plano mais elevado, nas zonas sobranceiras
da margem direita do rio. Observou igualmente que na margem esquerda, os postos
dos Carabinerios eram em bastante menor número e deu consigo a pensar que os
contrabandistas, uma vez passado o rio, talvez tivessem a vida um pouco mais
facilitada no lado espanhol.
De repente surgiu-lhe a ideia: então e se
falasse com o Ilberto, para ele lhe dar trabalho na quadrilha de
contrabandistas? Era arriscado para caraças,
mas quem tem medo não come uvas! Agora,
que a possibilidade de ser guarda tinha ido
para o maneta, a única hipótese que conseguia lombrigar para mudar de vida, era meter-se no contrabando porque, à
do lavrador, era garantido que não
passava da cepa torta. O maior problema seria mesmo convencer o Ilberto a
dar-lhe trabalho porque, segundo se dizia à boca
pequena, o Ilberto era extremamente rigoroso na seleção dos seus homens, e
o Zé sabia que não tinha propriamente fama de homem valente. Mas não perdia nada em
tentar… o não já ele tinha certo!
Tinha
sido a insistência do Faustino e do Cavaco, também eles membros do grupo de contrabandistas
do Ilberto, que intercederam pelo Zé junto do chefe e que o convenceram a dar-lhe uma
oportunidade. Quando falaram com ele para lhe encarecer o amigo, o Ilberto primeiro escangalhou-se rindo, para lhes dizer depois:
- O Zé Casemiro? Então mas vocês estão parvos? Pensam que eu não tenho amizade ao dinheiro? Devia ser bonito, na primeira vez que a guarda se metesse a rabo dele e ouvisse um tiro… ainda a bala não tinha tido tempo de sair da espingarda e já ele se tinha cagado na carga!
- O Zé Casemiro? Então mas vocês estão parvos? Pensam que eu não tenho amizade ao dinheiro? Devia ser bonito, na primeira vez que a guarda se metesse a rabo dele e ouvisse um tiro… ainda a bala não tinha tido tempo de sair da espingarda e já ele se tinha cagado na carga!
–
O Faustino e o Cavaco concordaram com ele, mas apresentaram-lhe um argumento
que deixou o Ilberto a pensar:
- O Zé até podia ser fraco; abandonar a carga ao mais pequeno sinal de perigo e fazer trinta por uma linha, mas uma coisa era certa: para a guarda lhe pôr as unhas em cima… só morto! Eles bem tinham visto naquele dia, na Casa Nova, o que o Zé era capaz de fazer quando sentia o rabinho apertado!
- O Zé até podia ser fraco; abandonar a carga ao mais pequeno sinal de perigo e fazer trinta por uma linha, mas uma coisa era certa: para a guarda lhe pôr as unhas em cima… só morto! Eles bem tinham visto naquele dia, na Casa Nova, o que o Zé era capaz de fazer quando sentia o rabinho apertado!
O
Ilberto não deu logo o braço a torcer,
mas ficou pensando no assunto. Em boa verdade, a rapidez do Zé podia vir a
ser-lhe útil.
Nos últimos tempos, tinha-lhe surgido um problema grave quando
iam para os lados Gibraleón, que por sinal era precisamente a região onde
tinha agora os principais clientes do negócio do contrabando. Primeiro tinha começando
por estranhar a facilidade com que se movimentavam sem serem praticamente
incomodados pelos carabineiros, enquanto transportavam as cargas. Quando
ocasionalmente apareciam faziam meia dúzia de tiros, provavelmente para o ar, mas ficavam-se por aí e
nem fugiam atrás deles para tentar
apanhar as cargas! Aquilo cheirou-lhe a
esturro, porque não era nem um pouco mais ou menos o que acontecia por
regra. O Ilberto ficou desde logo desconfiado de que os carabineiros não
queriam apanhá-los por qualquer motivo que não entendia, mas como ainda não
tinha havido azar, foi ficando mais
descansado.
A
explicação tinha vindo uma noite, da pior forma possível para o Ilberto. Nessa
semana, fiando-se um pouco na facilidade
com que entravam em Gibraleón, jogou forte e tinha trazido mais quatro homens
além dos cinco que era habitual. Como de costume, não teve qualquer problema e
entregara dez cargas de café que lhe tinham rendido a bonita quantia de três
contos de réis. Finalizado o negócio e como era hábito, meteu o dinheiro numa
algibeira cosida dentro das calças.
Durante o dia, para não dar nas vistas, cada um tinha ido para seu lado, mas à
tardinha tinham-se juntado na taberna do Paco onde
ficaram até ao cair da noite, altura
em que estava combinado iniciarem o regresso. Tinham combinado que regressariam
em dois grupos de cinco, seguindo a mesma rota, com uma hora de intervalo. O
Ilberto tinha desconfiado de dois gajos sentados ao balcão que, ainda que
estivessem à civil, ninguém lhe tirava da cabeça que não eram carabineiros. Altos
e secos de carnes tinham, enfiadas na cabeça, cada um a sua gorra das que
habitualmente eram usadas pelos pescadores, mas que ao Ilberto deixaram o
incómodo pressentimento de que não jogavam
com os cortes de cabelo à escovinha que ambos usavam.
Ficou um pouco mais
descansado quando os camaradas do primeiro grupo começaram a sair e os tipos
não lhes deram qualquer atenção, continuando a falar entre si, cada um com o
seu copo de vinho á frente. Achou estranho que se entretecem a sorver o mesmo copo de vinho durante
mais de uma hora. Por precaução decidiu sair em último lugar e ficou mais
tranquilo ao verificar que os tipos não tiveram qualquer reação quando os seus
quatro camaradas de grupo começaram a sair. Cerca de cinco minutos depois de
todos terem deixado a taberna, levantou-se e dirigiu-se ao balcão para pagar a
conta. Estranhou a rapidez com que ambos emborcaram os copos de vinho e saíram para a rua imediatamente atrás de si. Parou para lhes estudar a reação, mas
os gajos tinham passado sem lhe dar qualquer atenção, entrado num carro que
tinham no outro lado da rua e arrancado em seguida. Mais descansado reuniu-se
ao seu grupo que o esperava nos arrebaldes,
já fora de Gibraleón. Na rota a utilizar no regresso a casa, passariam entre San Bartolomé de la
Torre e Tariquejo, cortariam por cima
de S. Silvestre de Guzmán e, uma vez alcançado o rio Guadiana, fariam a travessia a seguir à curva do Pontal, um
pouco abaixo do Posto da Grandaça.
Caminhavam havia mais de quatro horas e, segundo
os cálculos do Ilberto, não faltaria muito para deixarem Tariquejo para trás...
(Continua)
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