segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O Contrabandista (continuação 2)
Depois de pegar na lebre pelas patas de trás e de lhe dar duas ou três taloucadas por detrás das orelhas com a mão em cutelo, como tantas vezes vira o pai fazer quando apanhava uma lebre ou um coelho vivo com a rateira, meteu a lebre no saco e abalou para o Monte, sem se aperceber sequer que tinha sido gozado pelos camaradas. Mais contente do que uma pega sem rabo ia feito à procura da malta, mas antes passou por casa para mostrar a lebre ao pai e à mãe. Foram eles que lhe abriram os olhos
- “Pailão dum cabrão!… não vês que só queriam fazer pouco de ti? Não lhe levas nada a lebre. A lebre come a gente…eles ficam fazendo cruzes, que é para não quererem ser espertos e fazer os outros parvos!” 
– O Zé deixou a lebre em casa e saiu disparado á cata dos camaradas. Encontrou-os ao pé do fogo, em casa do Lopes, mortos de festa. Mal o Zé entrou, por entre gargalhadas do grupo, o Lopes perguntou:
 - Então e os gambuzinos… apanhas-te muitos? 
- Mas para espanto de todos e contrariamente ao que esperavam, o Zé não vinha zangado! Apresentou-se mesmo com um sorriso de orelha a orelha, enquanto dizia para o grupo:
- Venham a vê-lo… está lá em minha casa! É um librão que nem um chibato, mas naquele não metem vocês o dente!
 - Dito isto, virou as costas e foi-se embora. De inicio não quiseram crer, mas a curiosidade foi mais forte e o Beatriz resolveu ir espreitar pelo postigo da casa do Zé. Era verdade: estiraçado em cima da pequena mesa da cozinha, lá estava o bicho! O Zé não tinha exagerado… parecia mesmo um chibato!
***
Vários meses haviam passado desde o dia da “caçada” na Casa Nova. A vida não estava fácil em lado nenhum. A Guerra na Europa estava no auge e Portugal  seguia uma política de zig-zag, enquanto o regime se mantinha de pedra e cal. Trabalho não havia. Emprego muito menos! O Zé, que sabia ler e escrever razoavelmente, ainda tinha sonhado em poder entrar para a Guarda, mas o sonho morreu no dia em que foi tirar sorte, quando lhe disseram que tinha ficado livre à tropa e lhe entregaram um papel para ir à Câmara de Alcoutim pagar as taxas. Sorte macaca… não indo à tropa, não podia ir para a Guarda!
Já havia tempos, desde que começara a conversar com a Maria Adelina, que magicava no mesmo assunto: ir para a guarda e ficar com um ordenado certo, que lhe ia permitir viver mais desafogado, deixar de estar ás tenças do pai e da mãe e dar outras condições de vida à Maria Adelina, quando se juntasse com ela. 
Tal como ele, a Maria Adelina labutava no campo de sol a sol. A monda, nos meses de fevereiro e março, ia fazê-la para os barros de Beja, integrando um rancho de moças e de mulheres que todos os anos, na mesma altura, partiam para o Alentejo, quase sempre a pé, com pouco mais do que a roupa que tinham vestida. Pouco tempo depois do regresso, quando a derrenguera da monda ainda mal desaparecera, era altura de voltar à carga, desta vez na ceifa à do lavrador Teixeira. Durante o resto do ano, trabalhava pontualmente à do lavrador, sempre que a chamassem, fosse qual fosse a tarefa: apanhar o mato novo do alqueve, apanha da azeitona, da amêndoa, da alfarroba e pouco mais, porque tudo o resto era feito pelas criadas da casa.
O Zé, por seu lado, quase poderia dizer-se que trabalhava à do lavrador desde que se lembrava de ser gente! Ainda gaiato, já por lá andava estrebuchando. O tempo para a brincadeira e para andar na retoiça com os outros gaiatos, praticamente o Zé não chegara a conhecê-lo. Começara por andar de zagal com o ti Eduardo, o moiral do lavrador, mal completara seis anos. Aos nove tinha passado para moço dos porcos, e a partir dos doze para moço das vacas. Aos dezasseis anos tomara posse, pela primeira vez, de uma parelha para lavrar ao lado dos ganhões mais experientes. 
A época da lavoura (que começava a preparar-se ainda no mês de setembro com a desmoita, o gradear, carregar e esborralhar o esterco, e enregar) tinha o seu início propriamente dito pela feira da praia, em meados do mês de outubro, quando se iniciava a sementeira. Atrás da sementeira vinha o alqueve e depois o atalho. Antes da ceifa, era ainda necessário cavar o milho nas várzeas do rio e da ribeira, cavar e desencaldeirar a vinha, cavar as figueiras e por aí fora. Depois da ceifa e do carrego da colheita para a eira, vinha uma das tarefas que mais amargava: a debulha e o carrego da palha para o palheiro.
Era demais para o Zé! Quando começou a conversar com a Adelina, tinha decidido mudar de vida. Havia de ter um emprego, uma coisa onde ganhasse a vida e, mais importante que tudo, uma casa e uns pedaços de terra seus para fabricar. Não tinha que estar às tenças de ninguém! A Adelina não precisaria mais de ir para a monda, nem de andar ajudiando com o corpo à do lavrador.  Poderia até comprar-lhe roupas novas e coisas bonitas, para não andar à vergonha das outras. Mas primeiro precisava de ter um raio dum emprego e ganhar dinheiro; só depois juntariam os trapinhos!
Durante muitos anos o Zé Casimiro tinha-se concertado para fazer as ditas temporadas e trabalhos à do lavrador Teixeira mas, além do trabalho amargar, não ganhava nem para mandar cantar um cego! Nesse ano, quando perdeu a esperança de ir para a Guarda, tinha-se recusado a trabalhar mais para o lavrador. O pai e a mãe bem lhe tinham moído a caganita:  que não tinham que lhe dar a fazer; que aquilo não era vida que chegasse a netos; que tinham seis bocas para alimentar e que não estavam para sustentar madraços, e que toma abaixo, e que toma acima...! Invariavelmente o Zé ripostava:
- Se for preciso passar fome, passo…mas pelo menos é uma fome descansada! Para a do Sr. Teixeira é que eu não vou a trabalhar mais, porque não me dá na gana! 
- Embora ainda não se tivesse decidido, havia muito que andava a matutar numa ideia que não havia meio de lhe sair da cabeça...
(Continua)

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