sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Contrabandista

Aberta de repelão a porta rangeu nos gonzos, enquanto quem a empurrara estacou no meio de casa, proferindo apenas duas palavras: - “quero comer!...” - O tiro de uma peça não teria sido menos esperado, nem poderia ter causado maior impacto e sobressalto ás cinco pessoas que, sentadas à volta da pequena mesa, à luz trémula do candeeiro bica a petróleo, se preparavam para começar a cear. Como que impulsionadas pelo mesmo mecanismo tinham-se levantado em simultâneo, provocando um pequeno reboliço com o arrojar de cadeiras, incluindo a queda de uma delas e de um prato de esmalte ainda vazio que, caprichosamente e com um ruído metálico, ficara um pouco a bailar junto à mesa antes de se imobilizar por completo.
- Ai jasus… ai minha mãe do céu, que eu não posso crer em tal! – gritou a mulher, enquanto o marido murmurava repetidamente: - não pode ser!… não pode ser!… - Os três filhos do casal, olhando incrédulos, abriam e fechavam a boca sem articularem qualquer som. O recém-chegado, em virtude das reações que provocara, pareceu finalmente reparar que algo de anormal se passava e, enquanto a mulher começava a correr na sua direção, atirou de chofre:
 - Espere lá!... então mas que parvoeira é essa? Vocês estão bons da cabeça? - Na pequena divisão da casa do fogo, que servia também de cozinha, a luz mortiça do bica a petróleo lançava sombras fantasmagóricas nas paredes pintadas a ocre, tisnadas e amarelecidas pelo fumo. A reduzida visibilidade e a surpresa inicial, tinham feito com que só agora reparasse nas roupas pretas que todos envergavam.  De repente caiu em si!
***
Tudo começara um ano antes quando, nos primeiros dias do mês dos santos, tinha feito a sua estreia de contrabandista e ido pela primeira vez a Espanha com a quadrilha do Ilberto. Na altura, quem conhecia bem o Zé Casemiro, tinha-lhe custado a acreditar que o Zé se tivesse afoitado a dar aquele passo. De um modo geral era conhecido por ser um aldeaga, um fala barato, mas, mais do que a de tagarela, o que desde sempre lhe granjeara verdadeira fama era o facto de ser apontado como medroso. Ao próprio pai, com ar gozão, era comum ouvir-se-lhe:
- O m’é Zé’i?... Tem ma’i medo c’um viola! Tem medo até da assombra dele! - Que se acagaçava facilmente ninguém tinha dúvida, e muitas tinham sido as peças, pirraças e judiarias que lhe tinham feito à conta disso.
O vício e  gosto pela caça tinha sido o responsável por algumas dessas partidas. Uma das mais badaladas tinha sido a daquele dia em que a malta se havia combinado para lhe fazer uma parte. Depois de combinarem tudo entre si, chamaram o Zé e desafiaram-no para irem à caça. Segundo o Beatriz, andavam três ou quatro lebres acostumadas ás couves que o pai tinha numa cerca, no Barranco da Casa Nova. Já lhe tinham armado lá as rateiras, mas as putas das lebres parecia que tinham olhos nas patas. Andavam lá pelo meio, desbicotavam as couves todas, mas patear a rateira… tá queta Bia! A única maneira de as enganar só podia ser a tiro. As bichas tinham que estar alapardadas naqueles cercados ali à volta e não devia se muito difícil dar com elas. Fazia-se-lhes uma espreita numa porta baixa que havia junto ao caminho, ao fundo dos cercados, enquanto outros iam bater o terreno com dois ou três cães e procurar espantá-las naquela direção. Só havia um s’não: o Lopes tinha uma espingarda braba, de carregar p’la boca, e era bom atirador, mas nesse dia tinha acordado com um flato no pescoço que, embora já estivesse bastante melhor, impedia-o ainda de firmar bem a espingarda no ombro, de forma a poder atirar certeiramente. O resto da malta, bom… era melhor nem pensar nisso, que qualquer deles não acertava num cerro! Só se o Zé…
- Fico eu com a espingarda! Vou eu para lá - prontificou-se de imediato o Zé - e podem ter a certeza que se aparecer lá alguma, dá uma volta que nem um chibo… nem sabe do que morre! - Seguiram para o local onde o Zé deveria ficar a fazer a espera, a escassos cinquenta metros duma  portelinha, no caminho que vinha do Balurco e por onde, segundo o Lopes, havia fortes possibilidades de assomar uma lebre. Depois de lhe dar algumas instruções sobre a forma mais eficaz para atirar com êxito (não se podia tapar a peça de caça porque a espingarda tinha tendência a levantar o tiro), o Lopes partiu com o Beatriz e o Cachopa para começarem a bater o terreno umas centenas de metros mais acima, deixando o Zé no seu posto. Estava alerta e empenhado em fazer boa figura. Só pedia ás almas que aparecesse pelo menos uma lebre! Aos outros, que não tinham tido coragem de se oferecer para ficar com a espingarda, ia mostrar-lhes como é que se enxofra! Iam ficar a saber quem é Zé Dias!
Dez minutos depois ouviu gritar - “aí vááái …aí vááái!”- ao mesmo tempo que soava um cão latindo. Bom… na verdade parecia mais que estava ganindo, - pensou o Zé para consigo, enquanto redobrava a atenção para o local onde supostamente deveria assomar a lebre. Estava junto ao caminho, que atrás de si desaparecia numa curva a menos de cinquenta metros. Pareceu-lhe ouvir conversa nas suas costas mas, com o coração dando pulos e embizarrado como estava na portela, onde esperava a todo o momento ver aparecer a lebre, não deitou conta ao que lhe pareceu ouvir. Lá por trás do serro continuavam a ouvir-se os avisos:  - aí vááái… aí vai eeela! Parece uma cáábra!
Atrás de si, embora ainda extraposto, ouvia agora sem qualquer dúvida o som de conversa. - Porra!… óstia dum cabrão!…vinha alguém ao caminho acima! Olha que altura do caraças para aparecer gente! - O Zé virou a cabeça por cima do ombro para olhar de relance para o caminho e o coração ia-lhe parando...
(Continua)

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