sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Pão (continuação 10)
Depois da Portela dos Pegos, onde se apartavam os caminhos das Choças e da Nora, o rasto seguia para o caminho da esquerda, direito ao Cerro da Agulha.
- Foi para o Balurco – disse o Ti Simão entredentes. Voltou novamente ao silêncio, que só quebraria um quilómetro mais à frente, quando disse de repente para a filha:
- Vê-lo? Além o cabrão!
Tinham chegado ao Barranco da Volta. Ligeiramente à direita do sítio onde o caminho cruzava o barranco, havia um pego de nascente que se mantinha com água o verão inteiro. Por serem bastante escaços, estes locais funcionavam como pequenos oásis, e eram extremamente concorridos durante todo o verão. Eram procurados não só pelas pessoas para darem de beber aos animais domésticos quando trabalhavam nas redondezas, mas principalmente por todo o tipo de aves e animais selvagens. Tal facto tornava-os por isso locais de excelência para a montagem dos mais diversos tipos de armadilhas para caçá-los. Para um leigo na matéria, tudo pareceria comum à volta do local. No entanto, a um observador treinado, bastava-lhe um olhar mais atento para ficar a saber que não era bem assim. Além dos sítios das esparrelas, das pedras dos banquetes e das loisas para a passarada miúda, que os gaiatos armavam diariamente, podiam igualmente ser localizados os vestígios de armadilhas colocadas pelos homens, para apanhar caça. Bastava um olhar, para localizar os sítios dos esparrelões, a varinha de esteva, os pauzinhos ou as forcas dos aboízes espetadas no chão, e que tinham sido armados para apanhar perdizes; as estacas dos arames e laços, as covas das rateiras para coelhos e lebres, forneciam indicadores claros de que durante a noite e nas primeiras e últimas horas do dia, o local era um autêntico campo minado. As armadilhas eram colocadas à tardinha, quando já não era previsível que se deslocassem ao local animais domésticos para beber e retiradas de manhã, antes de o local voltar a ser procurado para o mesmo fim.
Sentado no chão, à sombra dum loendreiro junto ao pego, estava a “presa” do Ti Simão. O garoto não exagerara quando descrevera a aparência do “catalão”. Cabelo e barba que havia anos não viam tesoura, descalço, roupa esfarrapada e olhar apático, desfiava uma ladainha incompreensível que lhe acentuava ainda mais a imagem de pailão. Junto dele, um varapau de jambuzo, a saca de serapilheira onde levava sabe-se lá que trogia... e em cima da saca o pão que levara sumiço. O Ti Simão aproximou-se sem dizer palavra, dobrou-se e apanhou o bordão de jambuzo. Só depois pôs os olhos no pão. Faltava-lhe um cascotinho que pela textura se via claramente ter sido partido à mão, indicador de que o pobre diabo nem uma faquinha usava. Apontando o pão com o bordão, o Ti Simão perguntou:
- De quem é aquele pão?
- É meu – respondeu o maltês começando a levantar-se.
- É teu, ou é meu? - A pergunta do Ti Simão não esperou resposta, já que coincidiu com o zunir do bordão em direção ao lombo do desgraçado maltês. O silêncio que reinara nos arredores até então, apenas quebrado pelo cantar constante e interrupto de algumas cigarras, camufladas nos troncos de árvores ou arbustos nas proximidades, foi de súbito quebrado por uma gritaria infernal, saída de três bocas e por motivos diferentes. Rolas, cotovias, picanços e outra passarada que estavam pousados na proximidade do pego, esperando que os intrusos deixassem o local, para irem beber, voaram assustados e em simultâneo num bater de asas barulhento. As cigarras calaram-se. O Ti Simão gritava enraivecido:
- Filho d’puta, qu’é  limp’t o sebo! Sacana de merda que eu mato-te! Queres mais pão? Toma lá outro! - O cacete que o Ti Simão segurava com as duas mãos subia e descia com rapidez, produzindo um som cavo quando atingia o alvo. O desgraçado maltês rebolava pelo chão numa gritaria medonha:
- Ai ói!.. .ai ói! ...deixe-me!... ai minha mãe! ai ói!
- A pequena Dolores, numa gritaria, chorava e puxava o pai, tentando desviá-lo do maltês, já com a  cabeça e cara ensanguentadas.
- Deixe-o, pai!... Deixe-o!... Não lhe bata mais que você mata-o, pai!
Foi a filha que o trouxe de volta à realidade. Parou de repente com a agressão, ficou a olhar uns segundos para o maltês, apanhou o pão e atirou-lhe ainda enraivecido: 
- Filho dum cabrão, que  a tua sorte foi a moça... não comias mais nenhum!
- Vamos embora, pai...vamos embora! - continuava a pequena Dolores aflita.
Atirou com o bordão para longe e, seguido de perto pela miúda, pôs-se a caminho de regresso ao monte. Antes de extraposer de vista, voltou de novo o olhar para o local do ajuste de contas. O maltês havia-se levantado, e estava de cócoras ao pé do pego lavando a cara ensanguentada.
- Vou-me caminho do bicho outra vez! Eu limpo -lhe o sebo! – rosnou dando meia volta. De imediato o caminho lhe foi barrado pela pequena Dolores, que rompeu de novo num choro aflito:
- Não pai!... não!... já lhe bateu muito... já temos o pão!... vamos embora pr’ó Monte!...
Voltou definitivamente as costas e, com o pão na mão, caminhou em direção ao Monte, seguido pela filha.

FIM

Balurco, julho de 2017

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