O Contrabandista (continuação 1)
O Zé virou a cabeça por cima do ombro para olhar de relance para o caminho e o coração
ia-lhe parando. À curva tinha assomado
nem mais nem menos do que uma patrulha da guarda! Se a arma tivesse sido
disparada, o tiro dificilmente teria sido mais rápido do que o Zé. Barimbou-se na espingarda e desalvorou ao pontal abaixo, direito ao Barranco das Covas, pulando valados e estevas p’lo bico. Atrás de si ouvia gritar: - páára!... páára!… nem que eu
corra três dias atrás de ti… eu apanho-te! – Deves apanhar mas há-de ser letche – pensava o Zé enquanto
continuava a correr em direção ás Ervenhitas. Sabia que pôr-lhe as unhas em cima, não punham… ainda estava para nascer o
primeiro que o apanhasse na carreira!
E tinha razão, ou pelo menos da fama não
se livrava. Era outra das suas particularidades porque, nas redondezas, não se dava notícia de ninguém que fugisse mais
do que ele.
O Zé agora só pensava numa coisa: tinha que os
despistar! Se os sacanas fossem tão teimosos como lhe quiseram fazer crer
quando disseram que o apanhavam, nem que corressem atrás dele três dias a fio, tinham muito terreno
que palmilhar. Era possível que lhe
seguissem o rasto e o Zé só esperava que nenhum deles fosse a peça do “Descalço”, que além fugir
que nem um galgo, tinha ainda fama de
seguir o rasto duma pessoa com tanta
eficácia como um podengo segue um coelho. Então, não fosse o diabo tecê-las, mais valia prevenir que remediar. A tirada ia ser grande! O Zé sempre ouvira
o avô dizer que o seguro e o prevenir
eram gêmeos. Invariavelmente o avô acrescentava depois: “o seguro morreu de velho e o prevenir é já muito, muito velhinho… mas ainda é
vivo!”.
Nos cercados da Casa Nova, ao grupo do Beatriz do
Lopes e do Cachopa, para fazer a festa, juntaram-se os dois guardas que não eram
outros senão o Faustino e o Cavaco, um com uma farda do pai, outro com a de um
tio. O nengargado do Zé, nem tinha tido tempo de reparar
que as fardas era uma da Guarda Republicana e outra da Guarda Fiscal. O grupo
planeara tudo ao pormenor para fazer a
parte ao Zé. O Cavaco e o Faustino iriam adiante, por outo caminho; levariam as fardas dos familiares escondidas
dentro duma saca e, depois de as vestirem, agachavam-se
perto do sítio onde o Zé ia ficar a fazer
a porta às lebres. O resto do grupo iria para os cercados, fora de vista do Zé. Algum tempo depois
o Lopes puxaria uma orelha à cadela para ela ganir, de forma que o Zé ouvisse e
pensasse que estava a latir atrás duma peça de caça, ao mesmo tempo que lhe
gritavam a avisar que ia uma lebre direito
a ele. Os gritos seriam também o sinal para o Cavaco e o Faustino começarem
a aproximar-se pelo caminho. Deveriam ir conversando para que a sua aproximação
fosse detetada, mas entendida pelo Zé como pura casualidade. Inicialmente e por estar à
espera de ver assomar a lebre a todo
o momento, embora fosse motivo de preocupação, o Zé não iria dar grande
importância ao facto de estarem a aproximar-se pessoas. Iria pensar que era
gente que vinha dos Montes do Rio ou de qualquer faiana do campo. Não se enganaram.
Só souberam depois: o Zé correu umas dezenas de
quilómetros! Houve quem o visse passar à Várzea da Malhada na Ribeira da
Foupana, em direção à Tenência; foi visto perto da Corte Velha e, já quase
noite cerrada, alguém afiançou que
tinha passado à Alcaria Cova. O certo é que só no outro dia os camaradas lhe puseram a vista em cima.
Durante algum tempo o Zé andou diferente com eles. A brincadeira pareceu-lhe mal, e durante uns tempos mal lhes dirigia a palavra. Mas todos eles sabiam que a zanga não duraria muito. Tinham crescido juntos e sabiam que o Zé não era de guardar rancores.
Durante algum tempo o Zé andou diferente com eles. A brincadeira pareceu-lhe mal, e durante uns tempos mal lhes dirigia a palavra. Mas todos eles sabiam que a zanga não duraria muito. Tinham crescido juntos e sabiam que o Zé não era de guardar rancores.
Alguns
anos antes, ainda uns gazopos,
tinham-lhe feito outra parte, mas
dessa vez foi o Zé Casimiro que ficou a rir-se deles. Sabendo que o Zé as cortava à noite e que quando
escurecia era incapaz de andar sozinho fora do Monte, tinham-se combinado para
lhe fazer uma judiaria. Numa noite do
mês de janeiro, com um escuro que nem um bréu,
tinham convidado o Zé para irem à lebre ao gambuzino,
para os cercados dos Guerreirinhos. Ao Zé, como era o mais novo, tocou-lhe a ficar com a saca. Ao fundo
do cercado, ao pé do barranco, tinha
sido deixado uma buraca na parede,
junto ao chão, possivelmente para escoamento da água. Foi nesse local, no lado
de fora do cercado, que deixaram o Zé com a saca aberta junto ao buraco da
parede. O resto do grupo iriam começar lá no cerro a fazer barulho para
espantar as lebres que por ali andassem. Como explicaram ao Zé, com um pouco de
sorte, uma delas iria a correr para sair do cercado pelo buraco e ficaria
dentro da saca! Como é obvio nenhum deles acreditava que pudessem apanhar coisa nenhuma e, depois de fingirem que
andavam a bater o terreno, maquinaram-se
para o Monte e deixaram o Zé sozinho nos cercados dos Guerreirinhos. Mas a
verdade é que ás vezes há coisas do Diabo,
e andava mesmo por ali uma lebre que, para fugir do cercado, teve a infeliz ideia
de passar pelo buraco e acabou dentro da saca do Zé. Imediatamente este se pôs
a gritar: - apanhei um!... apanhei um gambusino! - Mas como resposta teve apenas
o silêncio da noite. No estado de euforia em que se encontrava, o Zé nem se
lembrou que estava sozinho a mais de um quilómetro do Monte. Depois de pegar na lebre pelas patas de
trás e de lhe dar duas ou três taloucadas
por detrás das orelhas...
(Continua)
(Continua)
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