O Pão (continuação 9)
O ti Simão continuava sentado no pial, embora a ti
Domingas já o tivesse chamado para casa umas
poucas de vezes, e de lhe ter dito que “parecia que estava deslembrado”. Na rua as pessoas tinham
dispersado havia muito, cada uma regressando aos seus afazeres. A alguns
gaiatos que haviam ficado na brincadeira tinham-se entretanto juntado outros, formando
nesse momento um grupo relativamente grande. Um dos mais novitos, que brincavam
a poucos metros de distância num pequeno grupo, disse de repente para o que
estava a seu lado:
- Não viste o catalão? Tinha umas barbas que lhe davam
aqui… - exclamou o gaiato enquanto, com a mão em cutelo, tocava a meio da
barriga. De imediato uma rapariguita com cerca de quatro anos, que fazia
bolinhos de terra sentada no chão mesmo ao lado do ti Simão, pôs-se a apregoar
com voz esganiçada:
- Eu também o vi!
Eu também o vi!...
- O que é que tu
viste Maria? – questionou-a o ti Simão, tomado por súbito interesse pela
conversa dos gaiatos.
- Vi o velho da saca ti Simão… era um velho da saca!
O ti Simão
levantou-se como que impelido por uma mola, enquanto bombardeava a gaiata com
perguntas de repelão:
- Quando é que tu
o vistes? Onde é que ele tava? Para onde é que ele foi?
- Vi-o inda’gora… passou lá á minha porta. Eu
fugi para casa e disse á minha mãe que ia ali o velho da saca, mas ela não
acreditou… não sei para onde é que ele
foi! – exclamou a petiza deveras admirada por finalmente alguém adulto se
mostrar interessado no seu relato.
- Eu vi para onde
ele foi ti Simão – anunciou o gaiato que iniciara a conversa do catalão.
- Quando ele
passou lá á nossa porta eu fugi também com a minha mana, mas depois fui-me a assomar e vi-o ir além ao pé do Poço do
Lameiro… estraposeu direito à Portela
dos Pegos!
Atravessando o
terreiro a passo largo, o ti Simão dirigiu-se resoluto para a direção indicada
como tendo sido a seguida pelo desconhecido, com a clara intenção de meter-se a rabo dele, enquanto ia
dizendo a meia-voz:
- Foi aquele sacana! Está mais que visto… foi aquele filho d’puta que me limpou o pão. Mas espera lá
que eu já te amanho!
Depois do pai
abalar, a Dolores, que se mantivera à distância mas que não perdera palavra do
que fora dito, deixou o grupo onde estava de forma despercebida, e pouco depois seguiu no encalço do pai. Quando o
alcançou este ainda a mandou voltar para trás, mas vendo a determinação desta
em acompanhá-lo, acabou por desistir. Antes de chegar ao sitio indicado pelos
gaiatos, já o ti Simão tinha descoberto no caminho pegadas de pata descalça, classificando-as, sem
grandes dúvidas, como sendo o rasto do maltês. Era seguramente um pobre diabo;
um desses muitos deserdados do mundo que regularmente cruzavam os caminhos da
serra, sem rumo certo, deslocando-se de povoação em povoação à procura de algo
que lhes matasse a fome. Nem sempre o conseguiam, já que a solidariedade
natural das gentes locais, não estando ferida de morte, estava no entanto
bastante debilitada mercê dos tempos negros
e malinos por que todos passavam.
Na mente do ti Simão ia-se consolidando uma versão de como tudo se passara. O gajo tinha vindo pelo caminho do
Barranco da Loba ou pelo da Portela da Ribeira e entrado pelo lado de baixo do
Monte. Pouca gente o vira porque na hora do calor a maioria estavam recolhidos
em casa. Quando passou à sua porta e viu o postigo aberto, meteu a cabeça, viu
o pão em cima da mesa e não pensou duas vezes: deu-lhe a palmada! As meditações do ti Simão foram interrompidas
pela pergunta da Dolores:
- Ó pai… então e
se ele já lingou o pão, o que é que
você lhe faz?
- O que é que eu
lhe faço? Se o comeu… nã faz a
digestão!
A filha riu-se
com uma risa amarela, forçada,
indicador claro do estado de nervosismo em que se encontrava. O instinto
tinha-a posto no encalço do pai. Conhecia-o bem e sabia que se alcançasse o
maltês, as coisas iriam ficar mesmo feias. No Monte todos lhe conheciam o
feitio. Ainda há pouco, quando as pessoas se haviam juntado lá à porta ao
ouvirem o lavarito, a Dolores tinha
ouvido o ti Sequeira comentar:
- O Simão é um mãos abertas... o que tem não é dele; mas não lhe pisem os calos, porque quando lhe chega a mostarda ao nariz, não é flor que se cheire... têm que se pôr bem com ele!
Depois da Portela dos Pegos, onde se apartavam
os caminhos das Choças e da Nora...
(continua)
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