sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Pão (continuação 9)
O ti Simão continuava sentado no pial, embora a ti Domingas já o tivesse chamado para casa umas poucas de vezes, e de lhe ter dito que “parecia que estava deslembrado”. Na rua as pessoas tinham dispersado havia muito, cada uma regressando aos seus afazeres. A alguns gaiatos que haviam ficado na brincadeira tinham-se entretanto juntado outros, formando nesse momento um grupo relativamente grande. Um dos mais novitos, que brincavam a poucos metros de distância num pequeno grupo, disse de repente para o que estava a seu lado:
- Não viste o catalão? Tinha umas barbas que lhe davam aqui… - exclamou o gaiato enquanto, com a mão em cutelo, tocava a meio da barriga. De imediato uma rapariguita com cerca de quatro anos, que fazia bolinhos de terra sentada no chão mesmo ao lado do ti Simão, pôs-se a apregoar com voz esganiçada:
- Eu também o vi! Eu também o vi!...
- O que é que tu viste Maria? – questionou-a o ti Simão, tomado por súbito interesse pela conversa dos gaiatos.
- Vi o velho da saca ti Simão… era um velho da saca!
O ti Simão levantou-se como que impelido por uma mola, enquanto bombardeava a gaiata com perguntas de repelão:
- Quando é que tu o vistes? Onde é que ele tava? Para onde é que ele foi?
- Vi-o inda’gora… passou lá á minha porta. Eu fugi para casa e disse á minha mãe que ia ali o velho da saca, mas ela não acreditou… não sei para onde é que ele foi! – exclamou a petiza deveras admirada por finalmente alguém adulto se mostrar interessado no seu relato.
- Eu vi para onde ele foi ti Simão – anunciou o gaiato que iniciara a conversa do catalão.
- Quando ele passou lá á nossa porta eu fugi também com a minha mana, mas depois fui-me a assomar e vi-o ir além ao pé do Poço do Lameiro… estraposeu direito à Portela dos Pegos!
Atravessando o terreiro a passo largo, o ti Simão dirigiu-se resoluto para a direção indicada como tendo sido a seguida pelo desconhecido, com a clara intenção de meter-se a rabo dele, enquanto ia dizendo a meia-voz:
- Foi aquele sacana! Está mais que visto… foi aquele filho d’puta que me limpou o pão. Mas espera lá que eu já te amanho!
Depois do pai abalar, a Dolores, que se mantivera à distância mas que não perdera palavra do que fora dito, deixou o grupo onde estava de forma despercebida, e pouco depois seguiu no encalço do pai. Quando o alcançou este ainda a mandou voltar para trás, mas vendo a determinação desta em acompanhá-lo, acabou por desistir. Antes de chegar ao sitio indicado pelos gaiatos, já o ti Simão tinha descoberto no caminho pegadas de pata descalça, classificando-as, sem grandes dúvidas, como sendo o rasto do maltês. Era seguramente um pobre diabo; um desses muitos deserdados do mundo que regularmente cruzavam os caminhos da serra, sem rumo certo, deslocando-se de povoação em povoação à procura de algo que lhes matasse a fome. Nem sempre o conseguiam, já que a solidariedade natural das gentes locais, não estando ferida de morte, estava no entanto bastante debilitada mercê dos tempos negros e malinos por que todos passavam. Na mente do ti Simão ia-se consolidando uma versão de como tudo se passara. O gajo tinha vindo pelo caminho do Barranco da Loba ou pelo da Portela da Ribeira e entrado pelo lado de baixo do Monte. Pouca gente o vira porque na hora do calor a maioria estavam recolhidos em casa. Quando passou à sua porta e viu o postigo aberto, meteu a cabeça, viu o pão em cima da mesa e não pensou duas vezes: deu-lhe a palmada! As meditações do ti Simão foram interrompidas pela pergunta da Dolores:
- Ó pai… então e se ele já lingou o pão, o que é que você lhe faz?
- O que é que eu lhe faço? Se o comeu… faz a digestão!
A filha riu-se com uma risa amarela, forçada, indicador claro do estado de nervosismo em que se encontrava. O instinto tinha-a posto no encalço do pai. Conhecia-o bem e sabia que se alcançasse o maltês, as coisas iriam ficar mesmo feias. No Monte todos lhe conheciam o feitio. Ainda há pouco, quando as pessoas se haviam juntado lá à porta ao ouvirem o lavarito, a Dolores tinha ouvido o ti Sequeira comentar:
- O Simão é um mãos abertas... o que tem não é dele; mas não lhe pisem os calos, porque quando lhe chega a mostarda ao nariz, não é flor que se cheire... têm que se pôr bem com ele!
Depois da Portela dos Pegos, onde se apartavam os caminhos das Choças e da Nora...
(continua)

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